30 Abril 2001
O mundo académico está calado diante do imperialismo; como as universidades alemãs estavam durante a ascensão dos nazis
No outro dia, fui a uma conferência sobre o “novo imperialismo”, na Universidade de Sussex. O que foi extraordinário foi que tenha sequer tido lugar. Julian Saurin, que lecciona no Instituto de Estudos Africanos e Asiáticos de Sussex, disse que, em dez anos, nunca tinha ouvido falar de uma discussão aberta sobre o imperialismo. Cerca de 80 porcento dos estudos sobre relações internacionais nas mais importantes universidades britânicas diz respeito aos Estados Unidos e à Europa. A maioria do resto da humanidade é frequentemente classificada segundo o seu grau de importância ou utilidade para os “interesses ocidentais”, o eufemismo para o poder e o imperialismo ocidentais.
Raramente se pronuncia o nome do conceito de imperialismo moderno. Trata-se de um tema tabu, descrito como “provocativo” pelos “realistas liberais” que evitaram a conferência de Sussex. O tema do silêncio do mundo académico que isto levanta é crucial. Às vezes, universidades que se orgulham da sua tradição de pensamento livre permanecem caladas. A Alemanha durante a ascensão dos nazis e os Estados Unidos no período mccartista fornecem exemplos óbvios.
O silêncio actual não é tão óbvio, mas não é menos cúmplice. Por exemplo, uma invasão e ocupação que aniquilou um terço da população, causando a morte de mais pessoas, proporcionalmente, do que as que morreram no Camboja sob Pol Pot, provocou um silêncio académico que durou quase 24 anos.
Foi Timor Leste, comparado uma vez por Henry Kissinger com «uma marca desconhecida» de refrigerante. Foi ele Kissinger quem enviou armas ilegalmente ao exército invasor do General Suharto. Com excepção do maravilhoso livro de John Taylor, Indonesia’s Forgotten War [A Guerra Esquecida da Indonésia] (Zed Books) e do trabalho de Peter Carey, Mark Curtis e, mais recentemente, Eric Herring, o maior genocídio da segunda metade do século XX aparentemente não se qualificou para constar de nenhum estudo académico importante, baseado em documentos originais, originário do departamento de relações internacionais de uma universidade britânica. Como os massacres que levaram Suharto ao poder nos anos sessenta – nos quais tanto o governo dos EUA quanto o britânico desempenharam papéis fundamentais – o genocídio de Timor Leste foi maquiado por aqueles cujo trabalho era manter na linha os registros académicos. O trabalho de Noam Chomsky, uma voz solitária sobre Timor Leste, foi considerada demasiadamente “provocativo”.
O estudo das relações internacionais posteriores à segunda guerra mundial foi inventado nos EUA, largamente com o patrocínio daqueles que conceberam e policiaram o moderno poder económico norte‑americano: uma rede que inclui as fundações Ford, Carnegie e Rockefeller, a OSS (a precursora da CIA) e o Conselho de Relações Externas, na realidade um ramo do governo. Assim, nas grandes universidades dos EUA, vozes cultas justificaram a guerra fria e o novo imperialismo dirigido por Washington.
Neste país, com honrosas excepções, a sua visão “transatlântica” encontrou o seu eco. Há variações no presente, conhecidas pelos seus eufemismos imperialistas. Um “terceira via” para a Grã‑Bretanha como «um bom cidadão internacional» está na moda. A “intervenção humanitária” é outro favorito. O intervencionismo divide o mundo entre as vítimas que interessam e aquelas que não interessam. Os curdos iraquianos merecem a “protecção” anglo-americana. Na Turquia, os curdos que lutam contra a investida do regime não a merecem. A Turquia é membro da NATO. O intervencionista assume a inferioridade moral da nação-alvo. O Iraque é Saddam Hussein. A Sérbia é Milosevic. Contudo, Suharto, um assassino em massa num campeonato próprio, nunca foi demonizado. Pelo contrário, trouxe “estabilidade” à Indonésia. Ultimamente, os proeminentes especialistas da “terceira via” descobriram os horrores impostos em Timor Leste, muito tempo depois daquilo que dizem possa surtir qualquer efeito. Talvez um dia descubram a fraudulência da campanha de bombardeamento da NATO nos Balcãs, e a natureza genocida das sanções impostas ao povo do Iraque.
Não há uma conspiração. É o modo como funciona o sistema, assegurando “acesso” e “credibilidade” dentro de uma hierarquia académica cuja lealdade se transformou numa velada ideologia “globalizada”, que é na realidade capitalismo implacável. Sempre desejosos de creditar maior intenção ética aos decisores políticos governamentais do que os próprios decisores políticos, os “realistas liberais” asseguram que o imperialismo ocidental seja interpretado como uma gestão da crise, ao invés de causa da crise e da sua escalada. Para além da nuvem de ofuscamento e do jargão, isto é essencialmente uma erudição sensacionalista que vê o terrorismo em grupos, indivíduos e “estados párias”, quase nunca nos “nossos” governos e indústrias de armamento, os quais historicamente se encontram entre os maiores abusadores dos direitos humanos do mundo. Afirmar tal verdade significa arriscar ser dispensado como pouco académico.
O reconhecimento de um “nós” letal é o tabu mais duradouro de todos. Não houve debate sobre se empreender uma acção humanitária contra o envio de aviões de combate britânicos Hawk aos genocidas na Indonésia. Não se discutiu sobre interceptar os envios de armas britânicas e norte‑americanas aos regimes terroristas da Arábia Saudita, Israel, Turquia, Iraque, Irão, Paquistão, Colômbia. Não há discussões sobre se processar os líderes ocidentais por crimes contra a humanidade, para o que existe abundante evidência prima facie. Imaginem só a melhora quase imediata nas condições humanitárias no mundo todo se “nós” parássemos de subscrever o terrorismo.
Com os Estados Unidos instituindo o seu novo inimigo, a China, enquanto planeiam militarizar do espaço, estes são tempos perigosos. A menos que a nossa experiência, memória e história se transformem em instrumentos de grande poder, precisamos de vozes independentes nos centros para o estudo do imperialismo, não ecos e silêncio.
Agradeço ao BISA International Relations Working Group e ao Centre for Global Political Economy, Universidade de Sussex.