05 Abril 2002
Que tal se Hollywood fizesse um filme chamado Operação Ciclone, mostrando como a CIA treinou terroristas islâmicos, com Bruce Willis no papel de Bush?
Uma destas noites assisti ao filme Fronteiras de Sonhos e Medos, de Mai Masri. Era em videocassete; como a maioria dos seus admiráveis trabalhos sobre os palestinianos, dez filmes ao todo, não foi mostrado no cinema ou na televisão deste país. Do campo de refugiados de Chatila, em Beirute, e do campo de Dheisha, em Belém, o filme conta a história de duas raparigas refugiadas e da sua jornada em torno da cerca/cadeia que divide a sua terra natal e as separa uma da outra. É um raro vislumbre da verdade por trás das notícias implacáveis da Palestina.
Vi‑o na noite da entrega dos Óscares e, durante as pausas do vídeo, intervinham as imagens de Hollywood: actores untuosos e jingoístas, e clipes de máquinas blockbuster de fabricar dinheiro que são o exacto oposto da verdade de Mai Masri. Talvez os Óscares pareçam um circo inofensivo: até que paramos e pensamos no que eles representam. David Puttnam, o produtor que já ganhou um Óscar, levantou recentemente esta questão no Guardian. Ele descreveu o fracasso do cinema popular em chegar aos «milhões de jovens [que] estão a crescer nos campos de refugiados» e «o potencial para uma explosão devastadora». Acrescentou: «Se nós [no ocidente] nos tornamos simplesmente fabricantes de filmes que se baseiam na tecnologia, nos efeitos especiais, na simplicidade emocional, etc. para representar o mundo, então receio que o deslocamento entre o cinema de massas e qualquer realidade perceptível tornar‑se‑á, simplesmente, grande demais — com consequências que nos afectarão a todos».
Esse deslocamento é agora tão grande que a propaganda cultural que Hollywood sempre foi, representa agora mais de 80 porcento dos filmes vistos na Grã-Bretanha e em muitos outros países. O poder da sua mensagem sobre “o modo de vida americano” é tal que parece estarmos de volta à era do pós Segunda Guerra Mundial, quando o establishment empresarial dos Estados Unidos promovia a paranóia em relação a inimigos internos e externos.
Os estrangeiros caiam caprichosamente nas categorias de dignos ou indignos: pela América ou contra a América. Em Hollywood, a história foi reduzida a “épicos” tais como Exodus, no qual refugiados dignos (judeus) se instalavam na Terra Santa e palestinianos indignos, tornados refugiados na sua própria terra, eram invisíveis. Essas pessoas destituídas são agora retratadas nos filmes de acção americanos, juntamente com outros muçulmanos, como terroristas. No seguimento da Guerra do Vietname, na qual cerca de cinco milhões de vietnamitas foram mortos durante a invasão americana, e a sua terra destruída e envenenada por armas americanas de destruição em massa, Hollywood veio salvar a pátria com uma série de filmes Rambo‑e‑angústia que convidavam a audiência a solidarizar‑se com os invasores. Esses filmes providenciaram um purgativo cultural que ajudou a abrir caminho para que a América montasse outros Vietnames — em El Salvador, Guatemala, Nicarágua, Panamá, Somália e em outros lugares. A actual “guerra contra o terrorismo” alicerça‑se nas mesmas caricaturas de Hollywood. Filmes como Black Hawk Down, que promove uma versão mentirosa da mortífera farra americana na Somália, funcionam como “suavizantes” culturais antes de as bombas recomeçarem a sério.
Mesmo em filmes de fino acabamento, como O Caçador e Platoon – Os Bravos do Pelotão, que parecem num primeiro momento quebrar a tradição, há um implícito juramento de lealdade à cultura imperial. Isso foi verdadeiro no caso de Three Kings, um filme que parecia tratar da guerra do Golfo, mas que em vez disso produziu uma familiar lenda da “maçã podre”, exonerando o militarismo hoje tão difundido. Hollywood é tão dominante nas nossas vidas, e tão conluiados são os seus críticos facciosos, que os filmes que deveriam ter sido produzidos são imencionáveis. Tentem lembrar‑se dos filmes de grande audiência que lançaram luz sobre a vasta sombra projectada pelo estado secreto americano, e o caos pelo qual é responsável. Só me consigo lembrar de uns poucos: Missing, de Costa-Gavras, que era sobre a destruição do governo democraticamente eleito do Chile pelos operadores de marionetes do General Pinochet em Washington, e Salvador, de Oliver Stone, o qual fez a conexão entre a Washington de Reagan e os esquadrões da morte de El Salvador. Ambos esses filmes foram singularidades do sistema, financiados com muita dificuldade e, no caso de Missing, perseguidos obstinadamente através de processos vingativos na justiça.
A chacina de cerca de 8.000 pobres urbanos durante o ataque de George Bush Sénior ao Panamá em 1990 daria um belo filme de acção. E porque não uma secuela de Black Hawk Down, desta vez com os 8.000‑10.000 somalis mortos (uma estimativa da CIA) que foram limpos do mapa? Ou que tal um épico sobre David e Golias, ambientado na Palestina de hoje, com jovens palestinianos enfrentando tanques e caças americanos operados por israelitas?
«As horríveis imagens do [11 de setembro] tiveram toda a ressonância de um filme contemporâneo de Hollywood...» escreveu David Puttnam. «A tentação de tentar abranger essas imagens em termos cinemáticos foi um testamento ao poder do cinema. Mas a analogia pareceu completamente inadequada…». Isso pode ser verdade se excluirmos um modo de fazer cinema que nos permita compreender porque é que o 11 de Setembro aconteceu. O título de um filme desses poderia ser Operação Ciclone, o nome de código que a CIA usou quando estabeleceu uma organização terrorista islâmica em 1979, sob as ordens secretas do presidente Jimmy Carter. Financiados com 4 mil milhões de dólares dos contribuintes americanos, os instrutores da Operação Ciclone treinaram terroristas em campos do Paquistão e no estado de Virgínia, e recrutaram‑nos numa escola islâmica em Brooklyn, Nova Iorque, no raio de visão das fatídicas torres gémeas. De facto, o terrível espectáculo do 11 de Setembro poderia ser a sequência final, com o patriótico Bruce Willis no papel de George W Bush.