26 Abril 2002

 

A Venezuela e a censura

A resposta dos meios de comunicação britânicos à conspiração na Venezuela forneceu uma aula exemplar de como a censura funciona nas sociedades livres. O episódio foi uma vergonha jornalística.

No mês passado, escrevi sobre a Venezuela, ressaltando que muito pouco tinha sido reportado neste país [Grã­‑Bretanha] sobre as realizações de Hugo Chavez e a ameaça contra o seu governo reformista da parte da habitual aliança entre uma elite local corrupta e os Estados Unidos. Quando os conspiradores agiram no dia 12 de Abril, a resposta dos meios de comunicação britânicos forneceu uma lição exemplar de como a censura funciona nas sociedades livres.

A BBC descreveu Chavez como «não tanto um democrata, quanto um autocrata», ecoando as palavras do ministro dos negócios estrangeiros Denis MacShane, que o insultou como «um demagogo vociferante». Alex Bellos, o correspondente de The Guardian para a América do Sul, reportou, como facto, que «franco­‑atiradores pró-Chavez tinham matado pelos menos 13 pessoas» e que Chavez tinha pedido asilo a Cuba. «Milhares de pessoas celebraram durante a noite, acenando bandeiras, tocando apitos…», escreveu, deixando o leitor com a clara impressão de que quase toda a gente na Venezuela estava feliz de ver pelas costas esse «valentão de circo», como o The Independent o chamou.

Em 48 horas, Chavez estava de volta ao poder, reempossado pelo povo, que saiu dos bairros de lata às dezenas de milhares. Desafiando o exército, o heroísmo dessas pessoas foi o de apoiar um líder cujas credenciais democráticas são extraordinárias nas Américas, norte e sul. Tendo ganho duas eleições presidenciais, a última em 2000, pela mais larga maioria em 40 anos, assim como um referendo e eleições locais, Chavez foi renascido para o poder pela maioria empobrecida cuja «sina», escreveu Bellos, ele tinha «falhado em melhorar» e entre os quais «a sua popularidade tinha caído a pique».

O episódio foi uma vergonha jornalística. Grande parte do que foi escrito por Bellos e outros, usando palavras e frases similares, revelou-se errado. No caso de Bellos, isso não causou surpresa, já que estava a fazer reportagem do país errado, o Brasil. Chavez disse que nunca pediu exilo a Cuba; os franco-atiradores quase certamente incluíram agentes provocadores; «quase todos os sectores da sociedade antagonizados [por Chavez]» eram sobretudo membros de várias oligarquias a quem fez pagar impostos pela primeira vez, incluindo os meios de comunicação e as companhias de petróleo, cuja tributação ele dobrou com o objectivo de levantar para um nível de vida decente 80 porcento da população. O seus opositores também incluíram oficiais do exército treinados na notória Escola das Américas, nos Estados Unidos.

Em poucos anos, Chavez iniciou importantes reformas a favor dos pobres indígenas, as “não-pessoas” da Venezuela. Através das 49 leis adoptadas pelo Congresso Venezuelano, ele iniciou uma verdadeira reforma agrária, e garantiu os direitos das mulheres e saúde e educação gratuitas até ao nível universitário.

Opôs­‑se aos abusos contra os direitos humanos do regime da vizinha Colômbia, encorajado e armado por Washington. Estendeu uma mão à vítima de um bloqueio americano ilegal de 40 anos, Cuba, e vendeu petróleo aos cubanos. Estes foram os seus crimes, assim como dizer que bombardear crianças no Afeganistão era terrorismo. Como o Chile sob Allende e a Nicarágua sob os sandinistas, muito pouco disso tudo foi explicado ao público ocidental. Tal como o igualmente heróico levantamento na Argentina no ano passado, os eventos foram distorcidos e apresentados como meramente mais caos latino­‑americano.

Na semana passada, o admirável Glasgow University Media Group, sob direcção de Greg Philo, divulgou os resultados de um estudo que concluiu que, apesar da saturação na cobertura do Oriente Médio, a maioria dos telespectadores não estavam informados de que a questão fundamental era a ocupação militar ilegal de Israel. «Quanto mais se assiste, menos se sabe» — para citar a descrição de Danny Schechter sobre os telejornais americanos — foi a conclusão do estudo.

Tomemos como exemplo a “missão de paz” do secretário de estado dos EUA, Colin Powell. Independentemente do veto persistente dos EUA às resoluções das Nações Unidas que pedem a retirada de Israel dos territórios ocupados, e independentemente de Powell chamar a Ariel Sharon «meu amigo pessoal», uma «missão de paz» americana foi a notícia absurda, repetida incessantemente. Similarmente, quando na semana passada a Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas votou 40 contra 5 condenando Israel pelo seu «massacre», a notícia não foi esta expressão quase-unânime da opinião mundial, mas a rejeição da resolução pelo governo britânico como «desequilibrada».

Os jornalistas ficam frequentemente na defensiva quando alguém pergunta porque seguem fielmente os enganos do grande poder. Não é suficiente que a ITN diga, demitindo­‑se da sua responsabilidade, em resposta às conclusões do Glasgow Media Group, que «não estamos no negócio de dar uma aula diária de história», ou que a BBC ostente a sua imparcialidade quando algumas edições recentes de Newsnight poderiam ter sido produzidas pelo ministério dos negócios estrangeiros. Nestes tempos perigosos, uma das armas mais destrutivas de todas é a pseudo-informação.




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