13 Junho 2002

 

O falhanço dos nossos escritores

Martin Amis representa um problema: alguns dos escritores mais aclamados e privilegiados da língua inglesa não se engajam nas questões mais prementes da nossa era

No dia 1 de Junho, o The Guardian publicou um longo ensaio da autoria de Martin Amis, intitulado “A voz da multidão solitária”. Era sobre o 11 de Setembro e o papel dos escritores. O que pensava Amis sobre o importantíssimo dia? Ele pensava que ser «como Josefina, a rata cantora de ópera na história de Kafka: Cantar? ‘Ela nem sequer sabe guinchar’».

Com isso, ele quis dizer, creio, que não tinha nada a dizer sobre «os conflitos que agora enfrentamos ou tememos», para usar as palavras dele. Porque não? Onde estava o espírito de Orwell e de Greene? Onde estava o modesto reconhecimento da história: uma reflexão passageira sobre o impacto do grande poder predador sobre sociedades vulneráveis, que é a raiz do corrente “terrorismo”? Amis referiu com razão o “balbuciar lamentável” dos escritores após o 11 de setembro.

A maioria dos nomes mais famosos foram ouvidos, as suas contribuições indo da sombria gravitação em torno do próprio eu a uma defesa agressiva da América e da sua “modernidade”. Nenhum escritor inglês, a comando da celebridade que providencia uma extraordinária plataforma pública, escreveu algo de incisivo e merecedor da nossa memória sobre o significado e a exploração do 11 de Setembro — com a excepção, como sempre, de Harold Pinter. Comparem o “balbuciar” e o silêncio desses escritores com o trabalho do famoso poeta palestino Mahmoud Darwish, tema de um belo perfil do The Guardian, no dia 8 de Junho, por Maya Jaggi.

Darwish é o poeta que mais vende no mundo árabe; poeta do povo pode soar banal, mas ele atrai milhares aos seus escritos, entusiasmando as suas audiências com um lirismo que toca as suas vidas, fazendo sentido do poder, injustiça e tragédia. No seu último poema, “Estado de Sítio”, um “mártir” diz:

Amo a vida

Na terra, entre os pinheiros e as figueiras

Mas não posso alcançá-los, por isso fiz pontaria

Com a última coisa que me pertencia.

Os manuscritos de Darwish foram pisoteados por soldados israelitas, no centro cultural de Ramallah, onde ele trabalha frequentemente. Eu estive nesse prédio há um mês, não muito depois de os israelitas terem saído. Tinham defecado nos pisos, e untado fezes nas fotocopiadoras, e mijado nos livros e nas paredes, e destruído sistematicamente manuscritos de peças de teatro e romances e discos rígidos. Enquanto saíam, atiraram tinta sobre uma parede com desenhos feitos por crianças. «Eles queriam deixar­‑nos a mensagem de que ninguém está imune — inclusive na vida cultural», diz Darwish. «O povo palestino é apaixonado pela vida. Se lhe dermos esperança — uma solução política — eles vão parar de se matar».

Talvez seja injusto comparar um Darwish com um Amis. Um fala dos crimes contra o seu povo, afinal de contas. Mas Amis representa um problema mais amplo: alguns dos escritores mais aclamados e privilegiados da língua inglesa não se engajam nas questões mais prementes da nossa era. Quem, entre os coleccionadores de prémios Booker e Whitbread, fala contra os crimes descritos por Darwish — produto da mais longa ocupação militar da era moderna? Quem, desde o 11 de Setembro, tem defendido a nossa língua, iluminando o seu abuso ao serviço dos objetivos e da hipocrisia do grande poder? Quem demonstrou que as nossas reacções humanas ao 11 de Setembro foram apropriadas pelos próprios mestres do terror? — por Ariel Sharon e o seu “bom amigo” George W. Bush, que bombardeou até à morte pelo menos 5.000 civis no Afeganistão.

Consideremos a referência sem explicações de Amis aos conflitos que agora devemos «enfrentar ou temer». Os palestinianos têm enfrentado e temido uma ocupação por mais de 35 anos: um impasse atroz patrocinado por cada governo americano desde o de Lyndon Johnson e reiterado este mês pelo próprio Bush. Desde o 11 de Setembro, aqueles a quem foi permitido moer o inglês em uma série de clichés propagando a sua “guerra contra o terrorismo”, também têm suprido o regime israelita com 50 caças-bombardeiros F-16, 102 espingardas Gatling, 228 munições de ataque directo conjunto (joint direct attack munitions, ou JDAMs) e 24 helicópteros Blackhawk. Uma remessa de ultramodernos helicópteros Apache está a caminho.

É provável que tenha visto o Apache nas notícias, disparando mísseis em blocos de apartamentos civis da Palestina ocupada. Noutro dia, falei com um grupo de crianças de Gaza. Elas sorriam, mas era evidente que os seus sonhos, na verdade a sua infância, tinham sido “despachados” pelos ataques de Israel a um povo que, na maior parte, se tem defendido com fundas. Entre essas crianças, quase certamente, estão aqueles que sacrificarão, como escreveu Darwish, «a última coisa que me pertencia». Quem é o seu equivalente no ocidente, colocando aquela sabedoria contra a participação do nosso governo na construção desse terror?

Nos anos 1980, Martin Amis publicou uma valiosa colecção de ensaios sobre a ameaça da guerra nuclear. Hoje, a Índia e o Paquistão ameaçam com a guerra nuclear, o que não é surpreendente, num mundo dominado por ameaças, desde o 11 de Setembro: um mundo onde ou-você-está-connosco-ou-está-contra-nós, de bomba já e conversa depois. O que tem Amis ou qualquer outro escritor de língua inglesa a dizer sobre o grande guerreiro da Casa Branca contra o terrorismo, que diz que “primeiro atacar” é agora a política da superpotência e que a América «deve estar pronta para atacar num segundo, em qualquer canto obscuro do mundo»? Isso inclui a opção nuclear, Martin Amis, se você ainda estiver interessado.

«Após o 11 de Setembro», escreveu Amis no The Guardian, «os escritores enfrentaram uma mudança quantitativa, mas não qualitativa… Ficaram em eterna oposição à voz da multidão solitária, a qual, com a sua saudade simultaneamente de poder e apagamento, é o som mais desolado que jamais será ouvido». Aqueles que publicam e promovem palavras tão vazias, segurando as togas dos actuais imperadores da literatura inglesa, têm a responsabilidade urgente de entregar o espaço a outros. A nossa língua deveria ser reivindicada, o seu vocabulário orwelliano invertido, as suas nobres palavras, tais como “democracia” e “liberdade” protegidas, e o seu poder remobilizado contra todos os fundamentalismos, especialmente o nosso próprio. Precisamos de encontrar e publicar o nosso próprio Mahmoud Darwish, a nossa própria Arundhati Roy, o nosso próprio Ahdaf Soueif, o nosso próprio Eduardo Galeano, e depressa.




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