25 Julho 2002

 

O falhanço dos nossos escritores (2)

David Hare e outros escritores que gozam de uma plataforma pública deveriam ouvir a lembrança de Desmond Tutu das palavras de Martin Luther King: «As nossas vidas começaram para findar o dia em que nos tornámos silenciosos sobre as coisas que importam»

No dia 17 de Junho, escrevi sobre o recente ensaio de Martin Amis no Guardian, “A voz da multidão solitária”, no qual ele descrevia a resposta de escritores famosos como ele ao 11 de Setembro como um «balbuciar lamentável». Na verdade, eles ficaram e permanecem em grande parte silenciosos.

O dramaturgo David Hare rompeu o seu silêncio este mês num artigo do Guardian promovendo a sua peça Via Dolorosa, que é sobre israelitas e palestinianos, e foi escrita em 1997-98, durante o que Hare descreveu como um «momento de romântica abertura mental». Com isso, ele referia­‑se às negociações que levaram aos encontros falhados de Camp David em Setembro de 2000 que, na realidade, teriam mantido os palestinianos presos em cantões concebidos nos prévios acordos de Oslo. Um comentador israelita chamou isso «a autonomia de um campo de prisioneiros de guerra».

O artigo de Hare no Guardian foi também uma resposta ao meu artigo de 17 de Junho. Ele escreveu que eu tinha lamentado «a pobreza endémica da vida cultural britânica». Não é assim; a vida cultural britânica está bem, se for descontada a introspecção de ‘sala de estar’ dos seus ricos e famosos escritores: aqueles cuja reticência é indesculpável neste momento de grande perigo.

Enquanto a agressiva superpotência entrega os palestinianos nos braços de Ariel Sharon (considerado «pessoalmente responsável» pelos massacres de Sabra e Chatila, em 1982) está a planear um ataque a um estado soberano, o Iraque, com a perspectiva, segundo o Pentágono, de 10.000 mortes civis. O seu maior aliado, o governo Blair, dobrou os envios de armas a Israel e quase certamente se aliará aos americanos na sua mais recente farra de sangue. Sob qualquer critério de lei internacional, para não dizer de moralidade, ambos os empreendimentos constituem crimes históricos.

O leitor poderia pensar que, na tradição de Zola e Miller e Orwell, David Hare — outrora descrito como «o dramaturgo radical da Grã­‑Bretanha» — poderia ter algo a dizer sobre isto. Não. Ele diz­‑nos como é aborrecido receber «algum questionário pronto [que cai] através da porta de um escritor, pedindo-lhe a ele ou a ela para tomar partido, para explicar… porque é que eles pessoalmente aprovam ou não acções específicas de governos específicos — como se questões profundas de poder e fé pudessem de algum modo ser despachadas para os limites históricos pelo golpe do pulso de um romancista».

Será certo que o dramaturgo mais radical da Inglaterra não se sinta equipado para tomar uma posição? O Dr. Ala Khazendar de Cambridge, respondendo no Guardian ao artigo de Hare, apontou o contraste subtil da linguagem utilizada por Hare para descrever os israelitas e os palestinianos. Para Hare, «famílias israelitas» inteiras são «destruídas» pelos ataques suicidas no seu país. Contudo, os palestinianos, e somente os «inocentes» entre eles, são «apanhados» pela violência. O terrorismo israelita é descrito meramente como fazendo mal àqueles que se encontram «no caminho da subjugação militar», mas o terrorismo palestino é «assassino». Os extremistas do lado israelita são condenados como «fanáticos e expansionistas», mas entre aqueles que resistem e reagem a esse fanatismo, existe a «mais vil desumanidade».

O dramaturgo radical está consternado por George W. Bush o ter decepcionado. «Parecia razoável aceitar», escreveu ele, que o «compromisso» de Bush com um estado palestino «fosse uma oferta feita de boa fé, e que o presidente tinha aprendido as lições da sua relutância inicial em usar o poder da América para intervir na região». Relutância? Desde o 11 de Setembro, Bush enviou 228 sistemas de mísseis guiados para a força aérea israelita, juntamente com 24 modernos helicópteros de artilharia Black Hawk e 50 caça-bombardeiros F-16, com partes britânicas.

Hare está desapontado com Colin Powell, «que prometeu tanto…» Será isto ironia? A última tarefa do General Powell foi supervisionar a matança de dezenas de milhares de civis iraquianos, durante a matança unilateral chamada de Guerra do Golfo. A sua distinção prévia foi conduzir o encobrimento pelo exército dos EUA do massacre de My Lai no Vietname.

Na verdade, o dramaturgo radical está aborrecido que Powell e Bush tenham feito dele “um trouxa”. Isso é compreensível. Como ele o põe, ele era um daqueles «que apoiaram energicamente a acção americana no Afeganistão, não só como um acto legítimo de autodefesa, mas também como um empreendimento humanitário a favor de um país em necessidade desesperada de ajuda [e] desfrutou de um breve momento de esperança, no último outono, quando pensávamos que tínhamos detectado… uma bem-vinda seriedade na política externa dos EUA».

Enquanto ele desfrutava desse momento de esperança, o New York Times reportava que Bush tinha «demandado… a eliminação de comboios de camiões que fornecem a maior parte dos alimentos e outros suprimentos para a população civil do Afeganistão». E em Dezembro último, a Universidade de New Hampshire divulgou os resultados de um estudo que determinou que os bombardeiros dos EUA tinham matado mais de 3.000 civis afegãos — mais do que o número daqueles que morreram nas torres gémeas.

Foi durante aquelas poucas semanas de esperança, escreveu Hare, que «pudemos acreditar que o ocidente tinha redescoberto o seu papel». Muitos diriam que esse “papel” nunca foi perdido. Em Outubro, ao descrever o “papel” de rotina dos EUA, William Blum escreveu em Rogue State [Estado Pária]: «Armas da artilharia dos EUA metralharam e canhonearam a remota aldeia de agricultores de Chowkar-Karez, matando 93 pessoas. Um funcionário do Pentágono foi levado a responder, a certa altura: “As pessoas lá estão mortas porque nós queríamos que estivessem mortas”. O Secretário da Defesa Donald Rumsfeld comentou: “Não posso tratar daquela aldeia em particular”».

A melhor peça de David Hare, Pravda, era um grito eloquente contra o abuso de poder. Com Bush apoiando abertamente o regime cripto-fascista do Likud, em Israel, enquanto se prepara para destruir um número incontável de vítimas no Iraque, aqueles que têm o privilégio de dispor de uma plataforma pública têm tanto o dever moral quanto o dever intelectual de parar de torcer as mãos e falar. Quando aquela grande voz da liberdade, Desmond Tutu, reivindicou recentemente um boicote contra Israel, ele traçou um paralelo com o apartheid da África do Sul e o boicote que ajudou a derrotá­‑lo.

Como se estivesse a dirigir­‑se a liberais inertes que acham “cheio de lábia” o empenhamento dos demais, ele citou Martin Luther King: «As nossas vidas começaram para findar o dia em que nos tornámos silenciosos sobre as coisas que importam».




Links to this post:

Criar uma hiperligação



<< Home

This page is powered by Blogger. Isn't yours?