06 Novembro 2003

 

O silêncio dos escritores

Para os grandes escritores do século XX, a arte não podia estar separada da política. Hoje, há um silêncio perturbador sobre questões que deveriam comandar a nossa atenção.

Em 1935, o primeiro Congresso de Escritores Americanos teve lugar no Carnegie Hall, em Nova York, seguido de outro, dois anos depois. Segundo um informe, 3.500 pessoas lotaram o auditório e outras mil foram impedidas de entrar. Eram eventos electrizantes, com escritores discutindo como poderiam enfrentar os acontecimentos preocupantes na Abissínia, China e Espanha. Telegramas de Thomas Mann, C. Day Lewis, Upton Sinclair e Albert Einstein foram lidos em voz alta, reflectindo o medo da escalada do grande poder e que se tinha tornado impossível discutir sobre arte e literatura sem se falar de política.

«Um escritor», disse Martha Gellhorn durante o segundo congresso, «deve ser um homem de acção agora… Um homem que tenha dado um ano da sua vida às greves das metalúrgicas, ou à causa dos desempregados, ou aos problemas do preconceito racial, não perdeu nem desperdiçou o seu tempo. É um homem que se tornou consciente a respeito de onde pertencia. Quem conseguir sobreviver a uma acção dessas, o que terá a dizer depois é a verdade, é necessário e real, e durará».

As suas palavras ecoam através do silêncio do tempo presente. Que a ameaça do grande e violento poder nos nossos tempos é aparentemente aceite por escritores famosos, e por muitos daqueles que são os guardiães dos portões da crítica literária, é incontroverso. Não é para eles a impossibilidade de escrever e promover uma literatura despojada de política. Não é para eles a responsabilidade de falar — uma responsabilidade sentida até mesmo pelo apolítico Ernest Hemingway. Hoje em dia, declarou-se que o realismo é obsoleto; afecta­‑se uma altivez irónica; o falso simbolismo é tudo. Quanto aos leitores, a sua imaginação política deve ser apaziguada, não estimulada; afinal de contas, de que se importam eles? Martin Amis expressou isso muito bem, em Visitando a Sra. Nabokov: «O predomínio do eu não é um ponto fraco, é uma característica evolutiva; é como as coisas simplesmente são».

Assim, trata­‑se de “evolução”. Evoluímos para o eu apolítico; para a introspecção e a discussão de indivíduos divorciados de qualquer noção de que a sua auto-obsessão é menos importante e menos interessante do que o compromisso em relação a como as coisas são para o resto de nós. Há alguns anos, o então florescente crítico literário D. J. Taylor escreveu uma rara peça chamada When the pen sleeps [Quando a caneta dorme]. Ele expandiu-a em livro, A Vain Conceit [Uma presunção vã], no qual indagava porque é que o romance inglês degenerava, com tanta frequência, num «palrear de sala de visitas» e porque é que as questões urgentes da actualidade eram evitadas pelos escritores, ao contrário dos escritores de outras regiões, digamos, na América Latina, que sentiam uma obrigação de acolher a essência política em todas as nossas vidas e que molda as nossas vidas. Onde, perguntava, estavam os George Orwell, os Upton Sinclair, os John Steinbeck? (Parece que Taylor recentemente repudiou esse questionamento; esperemos que tenha recuperado a sua coragem.)

As principais listas de prémios de literatura corroboram a sua tese original. Apesar disso, segundo Claire Armistead, editora literária do The Guardian, «os escritores estão a desafiar qualquer forma de provincianismo». Mas o que mais desafiam? Ela descreve «uma inventividade realmente genérica» nas três nomeações para a categoria não-ficção do Guardian Book Award. Uma é sobre um neurologista que brinca com as palavras de um modo «totalmente excêntrico»; outra é sobre montanhas; outra é sobre a antiga Alemanha Oriental, a qual, diz ela, «nos faz entender um pouco melhor o velho e engraçado mundo em que vivemos».

Mas onde estão os trabalhos contemporâneos que vão ao cerne deste velho e engraçado mundo, como fizeram os livros de Steinbeck e Joseph Heller? Onde está o equivalente de As Veias Abertas da América Latina de Eduardo Galeano, de What a Carve-Up! de Jonathan Coe e de The Redundancy of Courage de Timothy Mo? Existem, naturalmente, excepções honrosas. Pode-se comprar a colecção “And the Judges Said...” de James Kelman na W. H. Smith, o que prova que os livros que resgatam a verdadeira política da «inconsequência gracejadora» (para tomar emprestada a expressão de F. Scott Fitzgerald) das aldeias da mídia de Westminster são muito desejados pelo público.

Efectivamente, há incontáveis livros de autores pouco conhecidos, produzidos por editoras batalhadoras como Pluto e Zed, que iluminam, às vezes de forma brilhante, as sombras do poder predatório, e que são ignorados pela chamada corrente dominante. Sem dúvida, são considerados “políticos”; e a menos que a política possa ser reduzida aos seus estereótipos e, ainda melhor, transformada num episódio de TV, não obrigado. Afinal de contas, como escreveu um crítico que domina as resenhas de críticas dos livros de não-ficção em edições de capa económica: a ideia de que a democracia social esteja ameaçada pela marcha insana de George Bush e do seu acompanhante mccarthismo é, bom, «disparatada». Não importa que quando alguém voa para os EUA, perca as liberdades civis fundamentais da sua privacidade; que o seu próprio nome possa levar à revista do corpo, como Edward Said frequentemente experienciou; que o FBI agora inspeccione rotineiramente a lista de obras lidas nas bibliotecas públicas.

Estes são tempos perigosos, e surreais. Coluna após coluna é dedicada ao culto de Martin Amis: ele, que descreve a política como tendo «definhado neste país, e isso é um grande tributo ao seu carácter altamente evoluído», e que zomba das grandes demonstrações anti-capitalistas e anti-guerra, descrevendo-as como «realmente [sobre] anti-política; eles estão a protestar contra a própria política».

Enquanto o Guardian se regozija da reencontrada humanidade da ex-secretária de Estado dos EUA, Madeleine Albright, por ocasião da promoção da sua autobiografia, Madam Secretary, não há uma única referência ao facto de que essa mesma mulher, quando questionada se a morte de 500.000 crianças no Iraque como resultado das sanções conduzidas pelos EUA eram um preço que valia a pena pagar, respondeu: «Achamos que o preço vale a pena». O título sobre a sua face sorridente dizia: «Adorei o que fiz».

«Quando a verdade é substituída pelo silêncio», disse o dissidente soviético Yevgeny Yevtushenko, «o silêncio é uma mentira». Nenhum congresso de escritores hoje em dia se preocupa com as mentiras e os crimes de George Bush e Tony Blair. É gratificante que o dramaturgo David Hare tenha quebrado o seu silêncio («A América fornece a potência de fogo; nós fornecemos a bosta»), juntando-se ao corajoso dissidente Harold Pinter. Agora, há urgência. Um documento de Downing Street, que circulou entre os governos “progressistas” da Europa, quer uma nova ordem mundial na qual as potências ocidentais tenham a autoridade de atacar qualquer outra nação soberana. Em seis anos, Blair enviou tropas britânicas para participarem em cinco diferentes conflitos, e ainda quer mais sangria. O documento ecoa os seus pontos de vista sobre “direitos e responsabilidades” — de matar e devastar povos em lugares remotos, consequentemente pondo em perigo e diminuindo­‑nos a todos nós.

O que George Orwell diria disto tudo? Há uma série de eventos sobre Orwell planeados para comemorar o seu nascimento. A maioria dos que participam são politicamente seguros ou guerreiros liberais devidamente credenciados. E se Orwell tivesse transformado A Revolução dos Bichos e Mil Novecentos e Oitenta e Quatro em parábolas sobre o controle do pensamento nas sociedades relativamente livres, nas quais ele identificou as mentes disciplinadas do estado corporativo e as fronteiras invisíveis do controle liberal e das últimas modas nas roupas do imperador? Será que eles o celebrariam ainda?

«Eles não dirão…» escreveu Bertolt Brecht em Tempos Sombrios. «…quando as grandes guerras estavam a ser preparadas… eles não dirão: os tempos eram sombrios. Em vez disso: porque estavam calados os seus poetas?»




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