<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-18040584</id><updated>2011-04-22T04:42:04.663+01:00</updated><title type='text'>John Pilger</title><subtitle type='html'>Artigos traduzidos de pilger.carlton.com. Este blog foi interrompido. Consulte infoalternativa.org</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://johnpilger.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://johnpilger.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>IA</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>38</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18040584.post-113371314987742521</id><published>2005-11-10T16:15:00.000Z</published><updated>2005-12-04T16:20:49.060Z</updated><title type='text'>A ascensão do novo inimigo dos EUA</title><content type='html'>&lt;p class="MsoBodyText"  style="font-weight: bold; text-align: justify;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style=""&gt;Fui largado em Paradiso, a última zona da classe média antes do bairro La Vega, que escorrega por uma ravina abaixo como se fosse atraído pela força da gravidade. Previa-se uma tempestade e as pessoas estavam ansiosas, recordando os escorregamentos de lamas que tiraram a vida a 20.000 pessoas. “Porque é que estamos aqui?” perguntou o homem sentado frente a mim no autocarro-jipe apinhado que roncava pela colina acima. Como tanta gente na América Latina, parecia velho, mas não era. Sem esperar pela minha resposta, enumerou porque é que apoiava o presidente Chavez: escolas, clínicas, comida acessível, «a nossa constituição, a nossa democracia» e «pela primeira vez, o dinheiro do petróleo vem para nós». Perguntei­‑lhe se pertencia ao MVR, o partido de Chavez. «Não, nunca estive num partido político; só lhe posso dizer como é que a minha vida mudou, como eu nunca sonhei».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText"  style="font-weight: bold; text-align: justify;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style=""&gt;São testemunhos simples como este, que ouvi vezes sem conta na Venezuela, que estilhaçam o espelho dum só lado entre o ocidente e um continente que se está a erguer. Por erguer, quero dizer o fenómeno de milhões de pessoas que se movimentam de novo, «como leões depois da sesta / Em número invencível», escreveu o poeta Shelley em &lt;i&gt;The Mask of  Anarchy&lt;/i&gt;. Isto não é sentimental; está a surgir uma epopeia na América Latina que exige a nossa atenção para além dos estereótipos e clichés que reduzem sociedades inteiras ao seu grau de exploração e de dispensabilidade.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText"  style="font-weight: bold; text-align: justify;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style=""&gt;Para o homem no autocarro, e para Beatrice cujos filhos estão a ser vacinados e a aprender história, arte e música pela primeira vez, e para Celedonia, de setenta anos, que lê e escreve pela primeira vez, e para Jose cuja vida foi salva por um médico a meio da noite, o primeiro médico que ele viu na sua vida, Hugo Chavez não é um “provocador” nem um “autocrata” mas um humanitário e um democrata que reúne quase dois terços do voto popular, reconhecido pelas vitórias em nada menos do que nove eleições. Comparem isto com o quinto do eleitorado britânico que reinstalou Blair, um autêntico autocrata.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText"  style="font-weight: bold; text-align: justify;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style=""&gt;Chavez e o levantamento de movimentos sociais populares, da Colômbia até à Argentina, representam uma mudança radical, sem derramamento de sangue por todo o continente, inspirada pelas grandes lutas de independência que começaram com Simón Bolívar, nascido na Venezuela, e que levou os ideais da Revolução Francesa para sociedades intimidadas pelo absolutismo espanhol. Bolivar, tal como Guevara nos anos 60 e Chavez nos dias de hoje, percebeu como era o novo senhor colonial do norte. «Os EUA», disse em 1819, «parecem destinados pelo fado a infestar a América com a miséria em nome da liberdade».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText"  style="font-weight: bold; text-align: justify;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style=""&gt;Na Cimeira das Américas na Cidade do Quebeque em 2001, George W. Bush anunciou a última miséria em nome da liberdade sob a forma de um acordo de uma Área de Livre Comércio das Américas (ALCA). Este permitiria aos Estados Unidos impor finalmente o seu “mercado” ideológico, o neoliberalismo, em toda a América Latina. Era o sucessor natural do Acordo de Livre Comércio Norte-Americano de Bill Clinton, que transformou o México numa fábrica de exploração [&lt;i&gt;sweatshop&lt;/i&gt;] americana. Bush vangloriou-se de que  seria lei em 2005.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText"  style="font-weight: bold; text-align: justify;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style=""&gt;Em 5 de Novembro, Bush chegou à cimeira de 2005 em Mar del Plata, Argentina, para ouvir dizer que o seu ALCA nem sequer constava na agenda. Entre os 34 chefes de estado estavam caras novas, rebeldes e por detrás de todas elas estavam populações que já não estão dispostas a aceitar as tiranias dos negócios apoiadas pelos EUA. Nunca antes os governos latino-americanos tiveram que consultar os seus povos sobre pseudo-acordos deste tipo; mas agora têm.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText"  style="font-weight: bold; text-align: justify;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style=""&gt;Na Bolívia, nos últimos cinco anos, os movimentos sociais têm-se livrado de governos e de corporações estrangeiras, tais como a tentacular Bechtel, que tentaram impor o que as pessoas chamam de &lt;i&gt;locura capitalista total&lt;/i&gt; – a privatização de quase tudo, especialmente do gás natural e da água. No seguimento do Chile de Pinochet, a Bolívia iria ser um laboratório neoliberal. Os mais pobres dos pobres foram sobrecarregados até dois terços dos seus míseros rendimentos mesmo pela água da chuva.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText"  style="font-weight: bold; text-align: justify;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style=""&gt;De pé nas ruas desoladas, gélidas, calcetadas de El Alto, a 4.000 metros de altitude nos Andes, ou sentado nas casas de tijolo de antigos mineiros e &lt;i&gt;campesinos &lt;/i&gt;expulsos das suas terras, tive discussões políticas dum tipo raras vezes desencadeado na Grã-Bretanha ou nos EUA. Eles são directos e eloquentes. “Porque é que nós somos tão pobres”, dizem, “se o nosso país é tão rico? Porque é que os governos nos mentem e representam poderes de fora?” Referem-se a 500 anos de conquista como se fosse uma presença viva, o que de facto é, se fizermos um percurso a partir da pilhagem espanhola de Cerro Rico, uma colina de prata explorada pelo trabalho de escravos indígenas e que o Império espanhol subscreveu durante três séculos. Quando a prata acabou, havia o estanho, e quando as minas foram privatizadas nos anos 70 por ordem do FMI, o estanho entrou em colapso, juntamente com 30.000 postos de trabalho. Quando a folha da coca o substituiu – na Bolívia, mascar coca disfarça a fome – o exército boliviano, forçado pelos EUA, começou a destruir as plantações de coca e a encher as prisões.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText"  style="font-weight: bold; text-align: justify;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style=""&gt;Em 2000, estourou a rebelião aberta contra os oligarcas de negócios brancos e contra a embaixada americana cuja fortaleza se ergue como um Vaticano andino no centro de La Paz. Nunca se tinha visto uma coisa assim, porque saiu da maioria da população indígena «para proteger a nossa alma indígena». Um racismo aberto contra as populações indígenas por toda a América Latina é a herança espanhola. Eram desprezados ou invisíveis, ou curiosidades para turistas: as mulheres com os seus chapéus de feltro e as suas saias coloridas. Não mais. Dirigidas por visionários como Oscar Olivera, as mulheres de chapéu de feltro e saias coloridas cercaram e fecharam a segunda cidade do país, Cochabamba, até que a sua água fosse devolvida à propriedade pública.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText"  style="font-weight: bold; text-align: justify;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style=""&gt;Todos os anos desde então, o povo tem travado uma guerra pela água ou pelo gás: essencialmente uma guerra contra a privatização e a pobreza. Depois de expulsar o presidente Gonzalo Sanchez de Lozada em 2003, os bolivianos votaram num referendo a favor da democracia real. Por intermédio dos movimentos sociais exigiram uma assembleia constituinte semelhante à que fundou a revolução bolivariana de Chavez na Venezuela, conjuntamente com a rejeição da ALCA e de todos os outros acordos de “livre comércio”, a expulsão das companhias de água transnacionais e um imposto de 50 por cento sobre a exploração de todos os recursos energéticos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText"  style="font-weight: bold; text-align: justify;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style=""&gt;Quando o presidente substituto, Carlos Mesa, se recusou a implementar o programa, foi forçado a demitir­‑se. No próximo mês, vai haver eleições presidenciais e a oposição Movimento para o Socialismo (MAS) pode vir a derrubar a velha ordem. O líder é um indígena ex-cultivador de coca, Evo Morales, a quem o embaixador americano comparou com Osama Bin Laden. Na realidade, é um social democrata que, para muitos daqueles que fecharam Cochabamba e desfilaram montanha abaixo desde El Alto, é demasiado moderado.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText"  style="font-weight: bold; text-align: justify;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style=""&gt;«Isto não vai ser fácil», disse-me Abel Mamani, o presidente indígena dos Comités de Bairros de El Alto. «As eleições não vão ser uma solução, mesmo que ganhemos. O que precisamos de garantir é a assembleia constituinte, a partir da qual possamos construir uma democracia baseada não no que os EUA querem, mas na justiça social». O escritor Pablo Solon, filho do grande muralista político Walter Solon, disse, «A história da Bolívia é a história do governo por detrás do governo. Os EUA podem criar uma crise financeira; mas na realidade para eles é ideológico; dizem que não aceitarão outro Chavez».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText"  style="font-weight: bold; text-align: justify;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style=""&gt;O povo, contudo, não aceitará outro traidor pró-Washington. A lição é o Equador, onde um helicóptero salvou Lucio Gutierrez quando ele fugiu do palácio presidencial em Abril passado. Tendo ganho o poder em aliança com o movimento indígena Pachakutik, foi o “Chavez equatoriano”, até se afogar num escândalo de corrupção. Para os latino-americanos vulgares, a corrupção do topo já não tem perdão. Essa é uma das duas razões para o marcar passo do governo do Partido dos Trabalhadores de Lula, no Brasil; a outra é a prioridade que ele deu a uma agenda económica do FMI, em detrimento do seu próprio povo. Na Argentina, os movimentos sociais afastaram cinco presidentes pró-Washington em 2001 e 2002. Do outro lado da água no Uruguai, a Frente Ampla, os herdeiros socialistas dos Tupamaros, os guerrilheiros dos anos 70 que combateram uma das mais cruéis campanhas terroristas da CIA, formaram um governo popular no ano passado.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText"  style="font-weight: bold; text-align: justify;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style=""&gt;Os movimentos sociais são agora uma força decisiva em todos os países da América Latina – mesmo num estado de medo como é a Colômbia de Alvaro Uribe Velez, o vassalo mais leal de Bush. No mês passado, os movimentos indígenas desfilaram por todas as 32 províncias da Colômbia exigindo o fim dum «mal tão grande como uma espingarda»: o neoliberalismo. Por toda a América Latina, Hugo Chavez é o Bolívar moderno. As pessoas admiram a sua imaginação política e a sua coragem. Só ele teve a coragem de descrever os Estados Unidos como uma fonte de terrorismo e Bush como o &lt;i&gt;Señor Peligro&lt;/i&gt;. É muito diferente de Fidel Castro, a quem respeita. A Venezuela é uma sociedade extraordinariamente aberta com uma oposição livre – que é rica e ainda poderosa. À esquerda, há os que se opõem ao estado, por princípio, acham que as suas reformas atingiram o seu limite, e querem que o poder saia directamente da comunidade. Dizem-no energicamente, mas apoiam Chavez. Um jovem e fluente anarquista, Marcel, mostrou-me a clínica onde dois médicos cubanos possivelmente salvaram a sua namorada. (Num acordo de permuta, a Venezuela fornece petróleo a Cuba a troco de médicos).&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText"  style="font-weight: bold; text-align: justify;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style=""&gt;À entrada de cada &lt;i&gt;barrio&lt;/i&gt; há um supermercado estatal, onde tudo, desde os alimentos essenciais até ao detergente para a loiça, custa menos 40 por cento do que nas lojas comerciais. Apesar das acusações especiosas de que o governo instituiu a censura, a maior parte dos media mantém-se violentamente anti­‑Chávez: uma grande parte deles está nas mãos de Gustavo Cisneros, o Murdoch da América Latina, que apoiou a tentativa fracassada para depor Chavez. O que é impressionante é a proliferação de estações de rádio comunitárias cheias de vitalidade, que desempenharam um papel crítico no salvamento de Chavez no golpe de Abril de 2002, apelando às pessoas para se manifestarem em Caracas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText"  style="font-weight: bold; text-align: justify;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style=""&gt;Enquanto o mundo olha para o Irão e para a Síria como o próximo ataque de Bush, os venezuelanos sabem que podem bem ser eles os próximos. A 17 de Março, o &lt;i&gt;Washington Post &lt;/i&gt;noticiou que Felix Rodríguez, «um ex­‑operacional da CIA, bem relacionado com a família Bush», tinha tomado parte no planeamento do assassinato do presidente da Venezuela. A 16 de Setembro, Chávez disse, «Tenho provas de que há planos para invadir a Venezuela. Mais ainda, temos documentação: quantos bombardeiros vão sobrevoar a Venezuela no dia da invasão... os EUA estão a efectuar manobras na ilha de Curaçao. Chama­‑se Operação Balboa». Desde então, documentos internos do Pentágono, revelados por fuga de informação, identificavam a Venezuela como uma «ameaça pós-Iraque» exigindo um planeamento de «espectro total».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText"  style="font-weight: bold; text-align: justify;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style=""&gt;O homem novo­‑velho no jipe, Beatrice e os seus filhos saudáveis e Celedonia com a sua “nova auto­‑estima”, são na verdade uma ameaça – a ameaça dum mundo alternativo, decente que alguns lamentam já não ser possível. Pois bem, é possível, e merece o nosso apoio.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18040584-113371314987742521?l=johnpilger.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://pilger.carlton.com/print/133517' title='A ascensão do novo inimigo dos EUA'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/113371314987742521'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/113371314987742521'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://johnpilger.blogspot.com/2005/11/ascenso-do-novo-inimigo-dos-eua.html' title='A ascensão do novo inimigo dos EUA'/><author><name>IA</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18040584.post-113098313115184017</id><published>2005-10-27T13:57:00.000+01:00</published><updated>2005-11-03T01:58:51.166Z</updated><title type='text'>O crime épico que ninguém se atreve a nomear</title><content type='html'>&lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Um oficial da Royal Air Force está prestes a  ser julgado perante um tribunal militar por se ter recusado a retornar ao Iraque  uma vez que a guerra é ilegal. Malcolm Kendall-Smith é o primeiro oficial  britânico a enfrentar acusações criminais por desafiar a legalidade da invasão e  ocupação. Ele não é um objector de consciência: completou dois turnos no Iraque.  Quando voltou a casa da última vez, estudou as razões alegadas para atacar o  Iraque e concluiu que estava a infringir a lei. A sua posição é sustentada por  juristas internacionais de todo o mundo, nada menos que Kofi Annan, o secretário  geral da ONU, que em Setembro do ano passado afirmou: «A invasão do Iraque  dirigida pelos EUA foi um acto ilegal que transgrediu a Carta das Nações  Unidas».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;A questão da legalidade preocupa  profundamente as altas patentes militares britânicas, que na véspera da invasão  solicitaram garantias a Tony Blair, obtiveram-nas mas, como sabem agora, este  mentiu-lhes. Eles têm razões para se preocuparem: a Grã-Bretanha é signatária do  tratado que estabeleceu o Tribunal Penal Internacional, o qual retirou os seus  códigos das Convenções de Genebra e da Carta de Nuremberg de 1945. Esta última é  clara: «Iniciar uma guerra de agressão... é não apenas um crime internacional, é  o supremo crime internacional, diferindo somente dos demais crimes de guerra por  conter dentro de si próprio o mal acumulado do todo».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;No julgamento de Nuremberg dos dirigentes  nazis, capitulados um e dois, «Conspiração para travar guerra agressiva e travar  guerra agressiva», refere-se ao «plano comum ou conspiração». Estes são  definidos na acusação como «o planeamento, preparação, iniciação e  empreendimento de guerras de agressão, as quais também foram guerras em violação  de tratados, acordos e garantias internacionais». Uma profusão de evidências  está agora disponível mostrando que George Bush, Blair e os seus conselheiros  fizeram exactamente isso. As minutas filtradas da infame reunião de Julho de  2002 na Downing Street revelam por si sós que Blair e o seu gabinete de guerra  sabiam que era ilegal. O ataque que se seguiu, montado contra um país indefeso  que não representava ameaça para os EUA ou para a Grã-Bretanha, tem um  precedente na invasão de Hitler da região dos Sudetas; as mentiras contadas para  justificar ambos são assustadoramente semelhantes.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;A semelhança é impressionante também nas  campanhas de bombardeamento ilegal que antecederam ambas as invasões. Ignorado  pela maior parte do povo da Grã-Bretanha e da América, os aviões britânicos e  americanos efectuaram uma feroz campanha de bombardeamento contra o Iraque nos  dez meses anteriores à invasão, com a esperança de que ao provocar Saddam  Hussein este proporcionasse uma desculpa para uma invasão. Isto fracassou e  matou um número não determinado de civis.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Em Nuremberg, capitulados três e quatro  referentes a «Crimes de guerra e crimes contra a humanidade». Aqui, mais uma  vez, há evidência esmagadora de que Blair e Bush cometeram «violações das leis  ou costumes da guerra» incluindo «assassínio... de populações civis de ou nos  territórios ocupados, assassínio ou mau tratamento de prisioneiros de  guerra».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Dois exemplos recentes: o violento ataque  americano neste mês junto a Ramadi, no qual 39 homens, mulheres e crianças —  todos civis — foram mortos, e um relatório do relator especial das Nações Unidas  no Iraque que descreveu a prática anglo-americana de negar alimento e água a  civis iraquianos a fim de forçá-los a abandonar as suas cidades e aldeias como  uma «flagrante violação» das Convenções de Genebra.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Em Setembro, a Human Right Watch divulgou um  estudo corajoso que documenta a natureza sistemática da tortura pelos  americanos, e quão habitual ela é, mesmo agradável. Isto é de um sargento da 82ª  Divisão Aerotransportada do Exército dos EUA: «No seu dia de folga as pessoas  apareciam o tempo todo. Toda a gente no campo sabia que se quisesse lidar com as  suas frustrações bastava aparecer na tenda dos PUC [prisioneiros]. De certa  forma era desporto... Um dia apareceu um sargento e disse a um PUC para agarrar  uma vara. Disse-lhe para se curvar e quebrou a perna do sujeito com um mini Taco  de Louisville [mini Louisville Slugger] que era um bastão metálico [de  baseball]. Ele era o maldito cozinheiro!»&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;O relatório descreve como o povo de Faluja,  cenário de numerosas atrocidades americanas, considerava a 82ª Aerotransportada  como «os Maníacos Assassinos». Ao ler isto, apercebemo­‑nos que a força de  ocupação no Iraque está, como disse recentemente o responsável da Reuters, fora  de controle. Está a destruir vidas em quantidades industriais quando comparadas  com a violência da resistência.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Quem será punido por isto? Segundo sir  Michael Jay, o sub-secretário de Estado permanente que apresentou provas perante  o Comité Parlamentar de Assuntos Estrangeiros em 24 de Junho de 2003, «o Iraque  estava na agenda de cada reunião do gabinete nos nove ou mais meses até ao  estalar do conflito no mês de Abril». Como é possível que, em 20 ou mais  reuniões de gabinete, os ministros não soubessem acerca da conspiração de Blair  com Bush? Ou, se não souberam, como é possível que fossem tão completamente  ludibriados?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;A posição de Charles Clarke é importante  porque, como actual British Home Secretary (ministro do Interior), ele propôs  uma série de medidas totalitárias que emascularam o &lt;i&gt;habeas corpus&lt;/i&gt;, o qual  é a barreira entre uma democracia e um Estado policial. As propostas de Clarke  ignoram explicitamente o terrorismo de Estado e o crime de Estado e, pela sua  implicação clara, afirmam que eles não exigem responsabilização. Grandes crimes,  tais como invasões e seus horrores, podem processar-se com impunidade. Isto é a  ilegalidade numa vasta escala. Será que o povo da Grã-Bretanha vai permitir  isto, e aos tais responsáveis escaparem da justiça? O tenente da aviação  Kendall-Smith fala em nome do domínio da lei e da humanidade e merece o nosso  apoio.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18040584-113098313115184017?l=johnpilger.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://pilger.carlton.com/print/133514' title='O crime épico que ninguém se atreve a nomear'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/113098313115184017'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/113098313115184017'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://johnpilger.blogspot.com/2005/10/o-crime-pico-que-ningum-se-atreve.html' title='O crime épico que ninguém se atreve a nomear'/><author><name>IA</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18040584.post-113037799558143377</id><published>2005-10-14T14:50:00.000+01:00</published><updated>2005-10-27T02:53:15.600+01:00</updated><title type='text'>De Suharto ao Iraque: nada mudou</title><content type='html'>&lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style=""&gt;«O propósito do propagandista», escreveu  Aldous Huxley, «é fazer um conjunto de pessoas esquecerem que certos outros  conjuntos de pessoas são humanos». Os britânicos, que inventaram a moderna  guerra de propaganda e inspiraram Joseph Goebbels, eram especialistas neste  campo. Na altura da carnificina conhecida como Primeira Guerra Mundial, o  primeiro-ministro David Lloyd George confidenciou a C. P. Scott, editor do  &lt;i&gt;Manchester Guardian&lt;/i&gt;: «Se as pessoas realmente soubessem [a verdade], a  guerra seria interrompida amanhã. Mas naturalmente elas não sabem, e não podem  saber».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style=""&gt;O que mudou?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style=""&gt;«Se todos nós soubéssemos então o que sabemos  agora», disse o &lt;i&gt;New York Times &lt;/i&gt;em 24 de Agosto, «a invasão [do Iraque]  teria sido travada por um clamor popular». A confissão significa dizer, com  efeito, que jornais poderosos, assim como poderosas organizações de comunicação  de massa, traíram os seus leitores, telespectadores e ouvintes por não  descobrirem os factos — por ampliarem as mentiras de Bush e Blair ao invés de  desafiá-las e expô-las. As consequências directas foram uma invasão criminosa  chamada «Choque e pavor» e a desumanização de todo um  país.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style=""&gt;Isto em grande medida permanece como uma  vergonha não falada na Grã-Bretanha, especialmente na BBC, a qual continua a  jactar-se do seu rigor e objectividade enquanto faz eco a um governo corrupto e  mentiroso, tal como fez antes da invasão. Como prova disto, há dois estudos  académicos disponíveis — embora a capitulação do jornalismo da rádio e televisão  já seja óbvia para qualquer espectador atento, noite após noite, quando  reportagens “incorporadas” justificam ataques assassinos a cidades e aldeias  iraquianas com “arrancar insurgentes” e engolem a propaganda do exército  britânico destinada a desviar a atenção do seu desastre, enquanto nos preparam  para ataques ao Irão e à Síria. Tal como o &lt;i&gt;New York Times&lt;/i&gt; e a maior parte  dos media americanos, se a BBC tivesse feito a sua tarefa, muitos milhares de  pessoas inocentes quase certamente estariam vivas hoje.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style=""&gt;Quando será que jornalistas importantes  deixarão de ser administradores do &lt;i&gt;establishment&lt;/i&gt; e analisarão e  confrontarão a parte crítica que desempenham na violência de governos  predatórios? Um aniversário proporciona uma oportunidade. Há quarenta anos  atrás, neste mês, o major general Suharto começou uma tomada de poder na  Indonésia com o desencadeamento de uma onda de mortandade que a CIA descreveu  como «o pior assassínio em massa da segunda metade do século XX». Grande parte  deste episódio nunca foi relatado e continua secreto. Nenhum dos relatos dos  recentes ataques terroristas contra turistas em Bali mencionou o facto de que  próximo aos principais hotéis havia túmulos em massa com cerca de 80.000 pessoas  mortas por chusmas orquestradas por Suharto e apoiadas pelos governos americano  e britânico.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style=""&gt;Na verdade, a colaboração de governos  ocidentais, juntamente com o papel dos negócios ocidentais, traçou o padrão para  a subsequente violência anglo-americana por todo o mundo: tal como no Chile em  1973, quando o sangrento golpe de Augusto Pinochet foi apoiado por Washington e  Londres; o armamento do xá do Irão e a criação da sua polícia secreta; e o  dispendioso e meticuloso apoio a Saddam Hussein no Iraque, incluindo propaganda  negra por parte do Foreign Office que procurava desacreditar os relatos da  imprensa de que ele havia utilizado gás de nervos contra a aldeia curda de  Halabja.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style=""&gt;Em 1965, na Indonésia, a embaixada americana  forneceu ao general Suharto cerca de 5.000 nomes. Estas eram as pessoas para  assassinar, e um diplomata sénior americano verificou os nomes dos que foram  mortos ou capturados. A maior parte eram membros do PKI, o Partido Comunista  Indonésio. Tendo já armado e equipado o exército de Suharto, Washington  secretamente despachou equipamento de comunicação do mais moderno, cujas  frequências elevadas eram conhecidas da CIA, conforme aconselhou o National  Security Council ao presidente Lyndon B. Johnson. Isto não só permitiu aos  generais de Suharto coordenarem os massacres como também significou que os mais  altos escalões da administração americana estavam a  ouvi-los.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style=""&gt;Os americanos trabalharam em estreita  colaboração com os britânicos. O embaixador britânico em Jacarta, sir Andrew  Gilchrist, telegrafou ao Foreign Office: «Nunca escondi a minha crença de que  uns poucos tiros na Indonésia seriam um preliminar essencial para mudança  efectiva». Os “poucos tiros” ceifaram de meio milhão a um milhão de  pessoas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style=""&gt;Contudo, foi no campo da propaganda, da  “administração” dos media e na erradicação daquelas vítimas da memória das  pessoas do ocidente, que os britânicos brilharam. Oficiais de inteligência  britânicos esquematizaram a forma como a imprensa britânica e a BBC podiam ser  manipuladas. «O tratamento precisará ser subtil», escreveram eles, «por exemplo:  a) todas as actividades deveriam ser estritamente não atribuíveis; b) a  participação ou cooperação britânica [do governo] deveria ser cuidadosamente  escondida». Para conseguir isto, o Foreign Office abriu um departamento do seu  Information Research Department (IRD) em Singapura.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style=""&gt;O IRD era uma unidade &lt;i&gt;top-secret&lt;/i&gt; de  propaganda da guerra fria dirigida por Norman Reddaway, um dos mais experientes  mentirosos de Sua Majestade. Reddaway e os seus colegas manipularam a imprensa  “incorporada” e a BBC tão astutamente que se gabou a Gilchrist numa mensagem  secreta de que a falsa estória que havia promovido — de que uma tomada de poder  pelos comunistas estava iminente na Indonésia — «percorreu todo o mundo e voltou  aqui outra vez». Ele descreveu como um experimentado jornalista do &lt;i&gt;Sunday&lt;/i&gt;  concordou «em dar exactamente o seu ângulo sobre os acontecimento no artigo ...  isto é, que aquilo era um golpe com luva de seda sem  carnificina».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style=""&gt;Estas mentiras, jactou-se Reddaway, podiam  ser «colocadas quase instantaneamente de volta à Indonésia através da BBC».  Impedido de entrar na Indonésia, Roland Challis, o correspondente da BBC no  sudeste asiático, estava inconsciente da carnificina. «As minhas fontes  britânicas pretendiam não saber o que se estava a passar ali», contou-me  Challis, «mas elas sabiam qual era o plano americano. Havia corpos a serem  abatidos nos relvados do consulado britânico em Surabaya, e navios da armada  britânica escoltaram um navio cheio de tropas indonésias ao longo dos Estreitos  de Málaca de modo a que pudessem tomar parte neste terrível holocausto. Foi só  mais tarde que soubemos que a embaixada americana estava a fornecer nomes e a  assinalá­‑los à medida que eram mortos. Havia um acordo, você vê. Ao estabelecer  o regime de Suharto, o envolvimento do FMI e do Banco Mundial era parte dele...  Suharto os chamaria de volta. Este era o acordo».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style=""&gt;O banho de sangue foi quase inteiramente  ignorado pela BBC e pelo resto dos media ocidentais. Os títulos das notícias  eram que o “comunismo” fora derrubado na Indonésia, o qual, relatou o  &lt;i&gt;Time&lt;/i&gt;, «é a melhor notícia da Ásia para o ocidente». Em Novembro de 1967,  num conferência em Genebra supervisionada pelo banqueiro bilionário David  Rockefeller, os despojos foram distribuídos. Todas as corporações gigantes  estavam representadas, desde a General Motors, Chase Manhattan Bank e US Steel  até à ICI e à British American Tobacco. Com a conivência de Suharto, as riquezas  naturais do seu país foram cortadas às fatias. A fatia de Suharto era  considerável. Quando ele finalmente foi derrubado, em 1998, foi estimado que ele  possuía mais de 10 mil milhões de dólares em bancos estrangeiros, ou seja, mais  de 10 por cento da dívida externa da Indonésia. Da última vez que estive em  Jacarta, caminhei até ao fim da sua rua arborizada e distingui a mansão onde o  assassino em massa vivia luxuosamente. Enquanto caminha para o seu julgamento de  fachada a 19 de Outubro, Saddam Hussein deve perguntar-se onde errou. Comparados  com os crimes de Suharto, os de Saddam parecem de segunda  divisão.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style=""&gt;Com jactos Hawk e metralhadoras fornecidas  pelos britânicos, o exército de Suharto prosseguiu até matar um quarto da  população de Timor Leste: 200 mil pessoas. Utilizando os mesmos jactos Hawk e  metralhadoras, o mesmo exército genocida está agora a tentar esmagar até à morte  o movimento de resistência na Papua Ocidental e a proteger a companhia Freeport,  a qual está a extrair uma montanha de cobre na província. (Henry Kissinger é o  seu “director emérito”.) Uns 100 mil papuanos, 18 por cento da população, foram  mortos com apoio britânico, mas este “projecto”, como os Trabalhistas gostam de  dizer, quase nunca é reportado.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style=""&gt;O que aconteceu e continua a acontecer na  Indonésia é quase uma imagem espelhada do ataque ao Iraque. Ambos os países têm  riquezas cobiçadas pelo ocidente, ambos tinham ditadores instalados pelo  ocidente para facilitar a passagem dos seus recursos; e em ambos os países  acções anglo-americanas ensopadas em sangue foram disfarçadas pela propaganda  voluntariamente feita por jornalistas preparados para efectuar as necessárias  distinções entre o regime de Saddam (“monstruoso”) e o de Suharto (“moderado” e  “estável”).&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style=""&gt;Desde a invasão do Iraque, tenho falado com  um certo número de jornalistas com princípios a trabalharem nos media  pró-guerra, incluindo a BBC, os quais dizem que eles e muitos outros “mentem  noite e dia” e querem falar abertamente e recomeçar a serem jornalistas a sério.  Sugiro que este é o momento.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18040584-113037799558143377?l=johnpilger.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://pilger.carlton.com/print/133512' title='De Suharto ao Iraque: nada mudou'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/113037799558143377'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/113037799558143377'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://johnpilger.blogspot.com/2005/10/de-suharto-ao-iraque-nada-mudou.html' title='De Suharto ao Iraque: nada mudou'/><author><name>IA</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18040584.post-113003594007601292</id><published>2005-10-13T15:48:00.000+01:00</published><updated>2005-10-23T03:52:20.086+01:00</updated><title type='text'>O silêncio dos escritores</title><content type='html'>&lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;Sobre Harold  Pinter, vencedor do Prémio Nobel da Literatura&lt;/span&gt;
&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;
Em 1988, o crítico literário e novelista  inglês D. J. Taylor escreveu uma peça seminal intitulada &lt;i&gt;When the Pen  Sleeps&lt;/i&gt; [Quando a caneta dorme]. Ele ampliou-a num livro, &lt;i&gt;A Vain  Conceit&lt;/i&gt; [Uma vã presunção], no qual indagava porque é que o romance inglês  degenerava, com tanta frequência, num «palrear de sala de visitas» e porque é  que as questões urgentes da actualidade eram evitadas pelos escritores, ao  contrário dos escritores de outras regiões, digamos, na América Latina, que  sentiam uma responsabilidade de enfrentar a política: os grandes temas da  justiça e injustiça, riqueza e pobreza, guerra e paz. A noção do escritor a  trabalhar em esplêndido isolamento era absurda. Onde estavam, perguntava ele, os  George Orwells, os Upton Sinclairs, os John Steinbecks da era  moderna?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Doze anos depois, Taylor punha a mesma  questão: onde estavam o Gore Vidal e John Gregory Dunne ingleses: «intelectuais  peso-pesados energicamente actuantes no teatro político, enquanto nós terminámos  com Lord [Jeffrey] Archer...»&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;No mundo pós-moderno das celebridades da  escrita, os prémios são distribuídos àqueles que competem pelas graças do  imperador; os politicamente inseguros não precisam candidatar-se. John Keanes,  presidente do Prémio Orwell para a Literatura Política, defendeu outrora a  ausência de grandes escritores políticos entre os vencedores do Prémio Orwell  não para lamentar o facto e perguntar porquê, mas para atacar aqueles que se  referiam a «um imaginário passado dourado». Escreveu que aqueles que «suspiram»  por este ilusório passado falham em apreciar escritores que dão sentido ao  «colapso da velha divisão esquerda-direita».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Que colapso? A convergência dos partidos  “liberal” e “conservador” nas democracias ocidentais, como os Democratas e os  Republicanos americanos, representa uma reunião de mentes essencialmente afins.  Jornalistas trabalham assiduamente para promover uma falsa divisão entre os  partidos principais e para obscurecer a verdade de que a Grã-Bretanha, por  exemplo, é agora um estado de ideologia única com duas facções pró-negócios,  quase idênticas, a competirem entre si. As divisões reais entre esquerda e  direita têm de ser encontradas do lado de fora do Parlamento e nunca foram tão  grandes. Elas reflectem a disparidade sem precedentes entre a pobreza da maioria  da humanidade e o poder e privilégio de uma minoria corporativa e militarista,  com sede em Washington, que procura controlar os recursos do  mundo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Uma das razões porque estes piratas poderosos  têm tanta rédea solta é que a &lt;i&gt;intelligentsia&lt;/i&gt; anglo-americana,  nomeadamente escritores, «as pessoas com voz» como lhes chamou Lord Macauley,  estão silenciosas ou cúmplices ou acovardadas ou a palrear, e ricas como  resultado. Provocadores de pensamento surgem de tempos em tempos, mas o  &lt;i&gt;establishment&lt;/i&gt; inglês sempre foi brilhante a extrair-lhes os dentes e  absorvê-los. Aqueles que resistem à assimilação são ridicularizados como  excêntricos até que se conformam ao seu estereótipo e às suas opiniões  autorizadas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;A excepção é Harold Pinter. Noutro dia,  sentei-me para compilar uma lista de outros escritores remotamente semelhantes a  ele, aqueles “com uma voz” e uma compreensão das suas responsabilidades mais  vastas como escritores. Rabisquei uns poucos nomes, todos eles agora empenhados  em contorções intelectuais e morais, ou então adormecidos. A página estava em  branco salvo por Pinter. Apenas ele não está tranquilo, não palra, tem coragem,  fala alto. Acima de tudo, ele entende o problema. Ouçam  isto:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;«Estamos numa terrível descida neste momento,  uma espécie de abismo, porque o pressuposto é que a política está ultrapassada.  Isto é o que diz a propaganda. Mas não acredito na propaganda. Acredito que a  política, a nossa consciência política e a nossa inteligência política não estão  ultrapassadas, porque se estiverem, estamos realmente condenados. Eu próprio não  posso viver assim. Têm-me dito muitas vezes que vivo num país livre. Vou de  certeza ser livre. Com isso quero dizer que vou manter a minha independência de  pensamento e de espírito, e penso que é isto que é obrigatório para todos nós. A  maior parte dos sistema políticos falam nesta linguagem vaga, e é nossa  responsabilidade e nosso dever como cidadãos dos nossos vários países exercitar  actos de observação atenta desta utilização da linguagem. Isto significa,  naturalmente, que quem assim faz tende a tornar-se especialmente impopular. Mas  para o inferno com isso».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Encontrei-me pela primeira vez com Harold  quando ele estava a apoiar o governo eleito pelo povo na Nicarágua, na década de  1980. Eu havia feito reportagens da Nicarágua, e um filme sobre os notáveis  avanços dos sandinistas apesar das tentativas de Ronald Regan para esmagá-los  através do envio ilegal, através da fronteira das Honduras, de intermediários  [&lt;i&gt;proxies&lt;/i&gt;] treinados pela CIA para cortar gargantas de parteiras e outros  anti-americanos. A política externa americana é, claro, ainda mais predatória  sob Bush: quanto mais pequeno o país, maior a ameaça. Com isto quero dizer a  ameaça de um bom exemplo para outros pequenos países que poderiam procurar  aliviar a pobreza abjecta do seu povo através da rejeição do domínio americano.  O que me impressionou quanto ao envolvimento de Harold foi o seu entendimento  desta verdade, a qual é geralmente tabu nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, e  a eloquente resposta «para o inferno com isso» em tudo o que disse e  escreveu.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Quase sem assistência, aparentemente, ele  restaurou “imperialismo” no léxico político. Recorde-se que nenhum comentador  utilizava mais esta palavra; proferi-la num lugar público era como dizer “foda”  num convento. Agora você pode gritá-la por toda a parte e as pessoas estarão de  acordo; a invasão do Iraque apagou dúvidas, e Harold Pinter foi um dos primeiros  a alertar-nos. Ele descreveu, correctamente, o esmagamento da Nicarágua, o  bloqueio contra Cuba, a matança por atacado de civis iraquianos e jugoslavos  como atrocidades imperialistas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Ilustrando o crime americano cometido contra  a Nicarágua, quando o governo dos Estados Unidos ignorou uma sentença do  Tribunal Internacional de Justiça ordenando que parassem de violar a lei com os  seus ataques assassinos, Pinter recordou que Washington raramente respeitou o  direito internacional; e tinha razão. Escreveu: «Em 1965, o presidente Lyndon  Johnson disse ao embaixador grego nos EUA: “Que se foda o seu parlamento e a sua  constituição. A América é um elefante, Chipre é uma pulga. A Grécia é uma pulga.  Se estas duas criaturas continuarem a irritar o elefante, podem muito bem ser  golpeadas pela tromba do elefante, golpeadas para sempre...” Ele falava a sério.  Dois anos depois, os coronéis tomaram o poder e o povo grego passou sete anos no  inferno. É preciso agradecer a Johnson. Ele por vezes dizia a verdade, ainda que  brutal. Regan dizia mentiras. A sua célebre descrição da Nicarágua como uma  «masmorra totalitária» era uma mentira de qualquer ponto de vista concebível.  Era uma afirmação não apoiada pelos factos; não tinha qualquer base na  realidade. Mas era uma boa frase retumbante, viva, que persuadiu os  irreflectidos...»&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Na sua peça &lt;i&gt;Cinza às cinzas&lt;/i&gt;, Pinter  utiliza as imagens do nazismo e do holocausto, interpretando-as como uma  advertência contra similares «actos de assassínio repressivos, cínicos e  indiferentes» pelos clientes de estados imperialistas negociantes de armas tais  como os Estados Unidos e a Grã-Bretanha. «A palavra democracia começa a feder»,  afirmou. «Assim, em &lt;i&gt;Cinza às cinzas&lt;/i&gt;, não estou simplesmente a falar sobre  os nazis; estou a falar sobre nós, da nossa concepção do nosso passado e da  nossa história, e do que ela representa para nós no  presente».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Pinter não está a dizer que as democracias  são totalitárias como a Alemanha nazi, de modo algum, mas que acções  totalitárias são empreendidas por democratas impecavelmente polidas, as quais,  em princípio e em efeito, são pouco diferentes daquelas empreendidas pelos  fascistas. A única diferença é a distância. Meio milhão de pessoas foram mortas  pelos bombardeiros americanos enviados secretamente e ilegalmente para os céus  do Camboja por Nixon e Kissinger, ateando um holocausto asiático, o qual foi  completado por Pol Pot.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Alguns críticos odeiam o seu trabalho  político, muitas vezes atacando as suas peças insanamente e tratando de forma  condescendente a&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;sua sinceridade. Ele,  em troca, ridiculariza esta zombaria vazia. É um narrador da verdade. O seu  entendimento da linguagem política segue o de Orwell. Não se importa, como ele  diria, com a propriedade da linguagem, só com o seu sentido mais profundo. No  fim da guerra fria, em 1989, escreveu: «...durante os últimos quarenta anos, o  nosso pensamento foi aprisionado em estruturas ocas de linguagem, numa retórica  fedorenta, morta, mas imensamente bem sucedida. Isto representou, na minha  opinião, uma derrota da inteligência e da vontade».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Ele jamais aceitou isto, claro. «Para o  inferno com isso!» Graças a ele, em não pequena medida, a derrota está longe de  ser certa. Pelo contrário, enquanto outros escritores dormiam ou palreavam,  manteve-se consciente de que as pessoas nunca são domadas, e na verdade  agitam-se outra vez: Harold Pinter tem um lugar de honra entre elas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18040584-113003594007601292?l=johnpilger.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://pilger.carlton.com/print/133511' title='O silêncio dos escritores'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/113003594007601292'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/113003594007601292'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://johnpilger.blogspot.com/2005/10/o-silncio-dos-escritores.html' title='O silêncio dos escritores'/><author><name>IA</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18040584.post-112974028611759892</id><published>2005-09-27T17:43:00.000+01:00</published><updated>2005-10-19T17:44:46.123+01:00</updated><title type='text'>Eventos sinistros numa guerra cínica</title><content type='html'>&lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style=""&gt;Eis aqui perguntas que não estão a ser  formuladas acerca das mais recentes reviravoltas de uma guerra cínica. Foram  descobertos explosivos e um detonador por controle remoto no carro dos dois  homens das forças especiais SAS “resgatados” da prisão em Bassorá a 19 de  Setembro? Se isto é verdade, o que estavam eles a planear fazer com eles? Porque  é que as autoridades militares britânicas no Iraque publicaram uma versão  inacreditável das circunstâncias que levaram veículos blindados a deitarem  abaixo o muro de uma prisão? &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style=""&gt;De acordo com o responsável do Conselho  Governante de Bassorá, que tem cooperado com os britânicos, cinco civis foram  mortos por soldados britânicos. Um juiz afirmou serem nove. Quanto vale a vida  de um iraquiano? Será que não haverá na Grã-Bretanha nenhum relato honesto deste  evento sinistro, ou devemos nós simplesmente aceitar a costumeira arrogância do  secretário da Defesa John Reid? «A lei iraquiana é muito clara», disse ele. «O  pessoal britânico está imune aos processos legais iraquianos». Ele omitiu dizer  que esta falsa imunidade foi inventada pelos ocupantes do Iraque.  &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style=""&gt;Observar jornalistas “incorporados” no Iraque  e em Londres, a tentarem proteger a linha britânica, era como observar uma  sátira de toda a atrocidade no Iraque. Primeiro, houve choques fingidos de que a  “lei” do regime iraquiano não vigorasse fora das fortificações americanas em  Bagdade e de que a polícia “treinada pelos britânicos” em Bassorá pudesse estar  “infiltrada”. Um ultrajado Jeremy Paxman quis saber como dois dos nossos rapazes  — de facto, dois estrangeiros altamente suspeitos vestidos como árabes e  transportando um pequeno arsenal — podiam ser presos pela polícia numa sociedade  “democrática”. «Não são eles supostos estar do nosso lado», perguntou ele.  &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style=""&gt;Embora relatado inicialmente pelo  &lt;i&gt;Times&lt;/i&gt; e pelo &lt;i&gt;Mail&lt;/i&gt;, todas as menções aos explosivos alegadamente  encontrados com os homens do SAS desvaneceram-se dos noticiários. Ao invés  disso, as estórias eram sobre o perigo que os homens correriam se fossem  entregues à milícia dirigida pelo clérigo “radical” Moqtada al­‑Sadr. “Radical”  é um termo enxertado gratuitamente; al-Sadr tem realmente cooperado com os  britânicos. O que tinha ele a dizer acerca do “resgate”? Muitíssimo, mas nada  disso foi relatado neste país. O seu porta­‑voz, Sheikh Hassan al-Zarqani, disse  que os homens da SAS, disfarçados como seguidores de al-Sadr, estavam a planear  um ataque a Bassorá ante um importante festival religioso. «Quando a polícia  tentou detê­‑los», afirmou, eles «abriram fogo sobre a polícia e transeuntes.  Após uma perseguição de carro, foram presos. O que a nossa polícia encontrou no  carro era muito perturbador — armas, explosivos e um detonador por controle  remoto. Estas são as armas de terroristas». &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style=""&gt;O episódio ilumina a mais persistente mentira  da aventura anglo-americana. A “coligação” diz que não tem culpa pelo banho de  sangue no Iraque — mas tem, de forma esmagadora — e que terroristas estrangeiros  orquestrados pela al-Qaeda são os culpados reais. O regente da orquestra, dizem  eles nesta linha, é Abu Musab al-Zarqaui, um jordano. O poder demoníaco de  Al-Zarqaui é central para o “Programa estratégico de informação” montado pelo  Pentágono para enquadrar a cobertura dos noticiários da ocupação. Ele foi o  único êxito incondicional dos americanos. Ligue qualquer noticiário nos EUA e na  Grã-Bretanha e o repórter incorporado situado dentro de uma fortaleza americana  (ou britânica) repetirá afirmações não comprovadas acerca de al-Zarqaui.  &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style=""&gt;O resultado deixa duas impressões: de que o  direito dos iraquianos a resistirem a uma invasão ilegal — um direito inscrito  na lei internacional — foi usurpado e deslegitimado por duros terroristas  estrangeiros, e que uma guerra civil está em andamento entre os xiitas e os  sunitas. Um membro da Assembleia Nacional Iraquiana, Fatah al-Sheikh afirmou  esta semana: «Há uma enorme campanha dos agentes dos ocupantes estrangeiros para  entrarem e instilarem ódio entre os filhos do povo iraquiano e espalharem  rumores a fim de uns intimidarem os outros... Os ocupantes estão a tentar  iniciar incitamentos inter-religiosos e, se isso não acontecer, eles então  iniciarão um incitamento entre os xiitas». &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style=""&gt;O objectivo anglo-americano do “federalismo”  para o Iraque é parte de uma estratégia imperial de provocar divisões num país  onde as comunidades tradicionalmente se têm sobreposto, e mesmo casado entre si.  A promoção estilo­‑Ossama de al-Zarqaui, faz parte disto. Tal como o Pimpinela  Escarlate, ele está em toda a parte mas em parte alguma. Quando os americanos  esmagaram a cidade de Faluja no ano passado, a justificação para o seu  comportamento atroz foi «apanhar aqueles sujeitos leais a al-Zarqaui». Mas as  autoridades civis e religiosas da cidade negaram que ele alguma vez tivesse  estado ali ou tivesse qualquer coisa a ver com a resistência.  &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style=""&gt;«Ele é simplesmente uma invenção», disse o  Imã da mesquita al-Kazimeya de Bagdade. «Al-Zarqawi foi morto no princípio da  guerra no norte do Curdistão. A sua família chegou a organizar uma cerimonia  após a sua morte». Seja isto verdadeiro ou não, a “invasão estrangeira” de  al-Zarqawi serve como o último véu de Bush e Blair na sua “guerra contra o  terror” e cambaleante tentativa de controlar a segunda maior fonte de petróleo  do mundo. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style=""&gt;Em 23 de Setembro, o Centre for Strategic and  International Studies, em Washington, um organismo do &lt;i&gt;establishment&lt;/i&gt;,  publicou um relatório que acusou os EUA de «alimentarem o mito» dos combatentes  estrangeiros no Iraque, os quais representam menos de 10 por cento de uma  resistência estimada em 30.000 homens. Dos oito estudos abrangentes quanto ao  número de civis iraquianos mortos pela “coligação”, quatro estabelecem o número  em mais de 100.000. Até o exército britânico ser retirado de onde não tem o  direito de estar, e aqueles responsáveis por este monumental acto de terrorismo  serem acusados pelo Tribunal Criminal Internacional, a Grã-Bretanha estará  coberta de vergonha.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18040584-112974028611759892?l=johnpilger.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://pilger.carlton.com/print/133483' title='Eventos sinistros numa guerra cínica'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112974028611759892'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112974028611759892'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://johnpilger.blogspot.com/2005/09/eventos-sinistros-numa-guerra-cnica.html' title='Eventos sinistros numa guerra cínica'/><author><name>IA</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18040584.post-112974018254697502</id><published>2005-09-13T17:41:00.000+01:00</published><updated>2005-10-19T17:49:24.436+01:00</updated><title type='text'>Notícias vindas de trás de A Fachada</title><content type='html'>&lt;p class="MsoBodyText"  style="text-align: justify; font-weight: bold;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style=""&gt;Quando eu vivia nos Estados Unidos, no fim da década de 1960, muitas vezes o meu lar era em Nova Orleans, numa casa de tábuas cinzentas de um amigo construída numa parte da cidade em que lutadores pelos direitos civis se refugiavam da violência do Sul Profundo &lt;i&gt;(Deep South).  &lt;/i&gt;Dizia-se que Nova Orleans era cosmopolita; também era sinistra e assassina. Éramos protegidos pelo então Promotor Distrital Jim Garrison, um liberal independente cujas investigações quanto ao assassínio de John Kennedy lhe fizeram poderosos inimigos por trás de A Fachada (&lt;i&gt;The  Facade&lt;/i&gt;).&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="MsoBodyText"  style="text-align: justify; font-weight: bold;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style=""&gt;
A Fachada era como descrevíamos a linha divisória entre a América da vida real — de uma pobreza tão profunda que a escravidão ainda existia e um poder de estado tão voraz que travava guerra contra os seus próprios cidadãos, assim como contra negros e pessoas de pele morena em países remotos — e a América que desovava a gula do corporatismo e inventou as relações públicas como meio de controle social: o “Sonho americano” e o “Modo de vida americano” começaram como slogans publicitários.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="MsoBodyText"  style="text-align: justify; font-weight: bold;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style=""&gt;
A deliberada negligência do regime Bush antes e após o furacão Katrina proporcionou um raro vislumbre da parte de trás de A Fachada. Os pobres não eram mais invisíveis; os corpos a flutuarem na água contaminada, os sobreviventes ameaçados com tiros da polícia, a característica obesidade da pobreza americana — tudo isto ridicularizou as florestas de cartazes publicitários, os implacáveis anúncios na televisão e as notícias em pílulas (duração média de 9,9 segundos) que glorificam o “sonho” da riqueza e do poder. Uma palavra há muito expropriada e falsificada — realidade — mostrou o seu verdadeiro significado, ainda que brevemente.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="MsoBodyText"  style="text-align: justify; font-weight: bold;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style=""&gt;
Como que por acidente, os media americanos, os quais são o braço legitimador das relações públicas corporativas, relatou a verdade. Durante uns poucos dias, a um selecto grupo de leitores de jornais liberais foi dito que a pobreza havia aumentado espantosos 17 por cento sob Bush; que um bebé afro­‑americano nascido num raio de uma milha (1609 m) da Casa Branca tinha menos oportunidade de sobreviver ao seu primeiro ano do que um bebé urbano na Índia; que os Estados Unidos agora estavam classificados na 43ª posição na mortalidade infantil mundial; na 84ª posição na imunização de sarampo e na 89ª na de pólio; que a mais rica companhia petrolífera do mundo, a ExxonMobil, faria 30 mil milhões de dólares de lucros este ano, tendo recebido uma enorme fatia dos 14,5 mil milhões de dólares de “isenções fiscais” que a nova lei da energia de Bush garante aos seus apaniguados da elite.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="MsoBodyText"  style="text-align: justify; font-weight: bold;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style=""&gt;Nas suas duas eleições Bush recebeu a maior parte das “contribuições corporativas” — o eufemismo para subornos que totaliza 61,5 milhões de dólares — de companhias de petróleo e gás. A conquista sangrenta do Iraque, a segunda maior fonte de petróleo do mundo, será o prémio: o seu saque.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="MsoBodyText"  style="text-align: justify; font-weight: bold;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style=""&gt;Iraque e Nova Orleans não estão muito separados. Em 13 de Abril de 2003, Matt Frei, o correspondente em Washington da BBC, relatou o banho de sangue da invasão americana com estas palavras: «Não há dúvida de que o desejo de levar o bem, levar os valores americanos, ao resto do mundo, e especialmente agora ao Médio Oriente... está agora cada vez mais ligado ao poder militar». As justificações de Frei para o regime Bush a partir da frente da Casa Branca, e especificamente para o arquitecto da carnificina no Iraque, Paul Wolfowitz, eram coerentes com a sua reportagem a partir de Nova Orleans, que foi eloquente. Em 5 de Setembro, ele descreveu as tropas prontas para a batalha da 82ª Aerotransportada &lt;i&gt;(Airborne) &lt;/i&gt;a andarem com dificuldade através das ruas de Nova Orleans como os «heróis de Tikrit». A maior parte da mortandade em Tikrit e em outros lugares do Iraque foi cometida não pelos “insurgentes” mas sim pelos tais “heróis”: um facto quase nunca aceite na “cobertura”, seja na Fox ou na BBC. Com as mãos na cabeça em Nova Orleans, Frei queria saber porque Bush havia feito tão pouco. A usurpação da realidade estava completa.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="MsoBodyText"  style="text-align: justify; font-weight: bold;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style=""&gt;Antes que passe o momento, e as atrocidades e mentiras de Bush no Iraque sejam outra vez aceites como boas, vale a pena ligar o seu desrespeito pelo sofrimento em Nova Orleans com outras verdade por trás de A Fachada. A natureza imutável dos 500 anos da cruzada imperial do ocidente é exemplificada no sofrimento não relatado de pessoas de todo o mundo, inimigos declarados nas suas próprias pátrias. O povo de Tal Afar, uma cidade do norte iraquiano que agora surge no noticiário como “uma fortaleza insurrecta” — isto é, daqueles que se recusaram a ser expulsos dos seus lares — está a ser bombardeado e descarnado e torturado enquanto você lê isto, assim como o foi o povo de Faluja, e o povo de Najaf, e o povo de Hongai, uma “fortaleza” no Vietname, outrora o lugar mais bombardeado da Terra, e o povo de Neak Loeung, no Cambodja, uma das incontáveis cidades arrasadas pelos B-52. A lista de tais lugares remetidos à notoriedade, e a seguir ao olvido, é aparentemente infindável. Porquê?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="MsoBodyText"  style="text-align: justify; font-weight: bold;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style=""&gt;
A resposta em grande parte está em que muitos dos académicos ocidentais puseram a humanidade fora do estudo das nações, congelando-a com jargão e reduzindo-a a um esoterismo denominado “relações internacionais”, o grande tabuleiro de xadrez do poder ocidental que classifica as nações como utilizáveis ou não, dispensáveis ou não. (Ouçam a conversa do secretário britânico dos Negócios Estrangeiros Jack Straw acerca de «nações fracassadas»: pura invenção dos fanáticos de RI anglo-americanos). É esta ortodoxia desenfreada que determina como fala o poder e como os seus historiadores e repórteres relatam.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="MsoBodyText"  style="text-align: justify; font-weight: bold;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style=""&gt;
Tal ortodoxia, afirma Richard Falk, professor de Relações Internacionais em Princeton e dissidente distinto, «que é tão amplamente aceite entre cientistas políticos a ponto de ser virtualmente indesafiável em jornais académicos, encara a lei e a moralidade como irrelevantes para a identificação da política racional». Assim, a política externa ocidental é formulada «através de um farisaico écran moral/legal, de sentido único com imagens positivas dos valores ocidentais e de inocência retratada como ameaçada, validando uma campanha de violência política irrestrita...» Este é o filtro através do qual a maior parte do povo obtêm o seu noticiário sério. Esta é a razão porque a maior parte das verdades óbvias, tal como a predominância do terrorismo de estado ocidental sobre a minúscula variedade al-Qaeda, nunca é relatada. Esta é razão porque a destruição pela América de 35 democracias em 30 países (a última contagem do historiador William Blum) é desconhecida do público americano.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="MsoBodyText"  style="text-align: justify; font-weight: bold;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style=""&gt;
Mais prementemente, esta é a razão porque as implicações históricas dos assaltos de Bush e Blair às nossas liberdades mais básicas — tais como o &lt;i&gt;habeas corpus &lt;/i&gt;— raramente são relatadas. Em 9 de Setembro, o Tribunal Federal americano de recursos adiou para as calendas gregas um julgamento contra José Padilla, uma alegada testemunha de uma alegada “trama” de reclusos da Baía de Guantanamo, permitindo aos militares americanos mantê­‑lo detido sem acusação, indefinidamente. Apesar de não haver processo contra ele, é improvável que o Supremo Tribunal derrube esta simulação, o que significa o fim da Carta de Direitos &lt;i&gt;(Bill of Rights) &lt;/i&gt;e do «próprio núcleo da liberdade... liberdade do aprisionamento indefinido à vontade do Executivo», como escreveu outrora famosamente um jurista americano.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="MsoBodyText"  style="text-align: justify; font-weight: bold;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style=""&gt;
Isto esteve longe de ser notícia na Grã-Bretanha, assim como as advertências de Lord Hoffmann passaram ao lado da maior parte de nós. Como membro da Casa do Lordes, ele afirmou que os planos de Blair para destruir os nossos próprios direitos básicos constituíam uma ameaça maior do que o terrorismo. Aprisionamento indefinido para os inocentes perante a lei e intimidação de uma comunidade minoritária e de dissidentes — são estes os objectivos das “medidas necessárias” de Blair, tomadas de empréstimo a Bush. Quem o desafia? A sua conferência de imprensa na Downing Street é uma augusto redil de carneiros, com balidos escassamente audíveis. Na Índia, relatou outro dia o editor político do &lt;i&gt;Guardian &lt;/i&gt;londrino, «o sr. Blair mal se susteve  no chão quando desafiado acerca da guerra do Iraque» — isto é, por repórteres  indianos. &lt;i&gt;The Guardian &lt;/i&gt;não descreveu nem os seus desafios nem as réplicas  de Blair.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="MsoBodyText"  style="text-align: justify; font-weight: bold;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style=""&gt;
Por trás de A Fachada, a destruição da democracia tem sido um projecto a longo prazo. Os milhões de pobres, como a maior parte do povo de Nova Orleans, não têm lugar no sistema americano, razão pela qual eles não votam. O mesmo está a acontecer sob Blair, que atingiu a mais baixa porcentagem de votantes desde o direito de voto. Tal como Bush, isto não é preocupação para ele, pois os seus horizontes vão muito mais além. Vender armas e negócios de privatização à Índia um dia, preparar o terreno para atacar o Irão a seguir. Sob Blair, o Serviço Secreto de Informações, MI6, executou a Operação Atracção em Massa &lt;i&gt;(Operation Mass Appeal), &lt;/i&gt;uma campanha para plantar estórias nos media acerca das armas de destruição maciça de Saddam Hussein. Sob Blair, jovens paquistaneses vivendo na Grã-Bretanha foram treinados como combatentes &lt;i&gt;jihadi &lt;/i&gt;e recrutados para a primeira das suas guerras — o desmembramento da Jugoslávia em 1999. Segundo a Observer Research Foundation, com sede em Deli, eles aderiram a esta rede terrorista «com o pleno conhecimento e cumplicidade das agências de inteligência britânicas e americanas».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="MsoBodyText"  style="text-align: justify; font-weight: bold;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style=""&gt;
Na sua obra clássica, &lt;i&gt;O grande  tabuleiro de xadrez&lt;/i&gt; &lt;i&gt;(The Grand Chessboard), &lt;/i&gt;Zbigniew Brzezinski, o padrinho das políticas e acções americanas no Afeganistão e no Iraque, escreve que para a América dominar o mundo ela não pode manter uma democracia genuína, popular, porque «a busca do poder não é um objectivo que comande a paixão popular... A democracia é inimiga da mobilização imperial». Ele descreve como o presidente Carter, persuadido secretamente, em 1976 financiou e armou os &lt;i&gt;jihadis &lt;/i&gt;no Paquistão e no Afeganistão como meio de assegurar o predomínio da América na Guerra Fria. Quando lhe perguntei em Washington, dois anos atrás, se lamentava que as consequências fossem a al-Qaeda e os ataques do 11 de Setembro, ele ficou muito exasperado e não respondeu; e uma fenda em A Fachada fechou-se. É tempo de aqueles de nós pagos para manter os registos correctos o façam completamente.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18040584-112974018254697502?l=johnpilger.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://pilger.carlton.com/print/133476' title='Notícias vindas de trás de A Fachada'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112974018254697502'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112974018254697502'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://johnpilger.blogspot.com/2005/09/notcias-vindas-de-trs-de-fachada.html' title='Notícias vindas de trás de A Fachada'/><author><name>IA</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18040584.post-112974006557765264</id><published>2005-08-18T17:37:00.000+01:00</published><updated>2005-10-19T17:41:05.586+01:00</updated><title type='text'>A ascensão do estado policial democrático</title><content type='html'>&lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Thomas Friedman é um famoso  colunista do &lt;i&gt;New York Times&lt;/i&gt;. Ele foi descrito como «um cão de guarda da  política externa dos EUA». Seja o que for que os senhores da guerra dos EUA  tiverem em mente para o resto da humanidade, Friedman lati­‑lo­‑á. Ele apregoa  que «a mão escondida do mercado nunca funcionará sem um punho escondido». Ele  promove o bombardeamento de países e diz que a terceira guerra mundial já  começou.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;O último latido de Friedman é  sobre a liberdade de expressão, que se diz ser salvaguardada pela constituição  do seu país. Ele quer que o Departamento de Estado elabore uma lista negra  daqueles que fazem afirmações políticas “erradas”. Ele refere­‑se não somente  àqueles que defendem a violência, mas também àqueles que acreditam que as acções  dos EUA constituem as raízes do terrorismo actual. Este último grupo, que ele  descreve como «só um pouco menos desprezível do que os terroristas», inclui a  maioria dos norte­‑americanos e britânicos, segundo as últimas sondagens.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Friedman quer um «relatório  sobre a Guerra das Ideias», que identifique aqueles que tentam compreender e  explicar, por exemplo, porque Londres foi bombardeada. Esses são «criadores de  desculpas», que «merecem ser expostos». Ele toma emprestado o termo “criadores  de desculpas” de James Rubin, que era o criador de desculpas mor de Madeleine  Albright no Departamento de Estado. Albright, que ascendeu a secretária de  estado sob o Presidente Clinton, afirmou que a morte de meio milhão de crianças  iraquianas, como resultado do bloqueio liderado pelos EUA, era um «preço» que  «vale a pena» ser pago. De todas as entrevistas que eu filmei nos ambientes  oficiais de Washington, a defesa feita por Rubin dessa matança em massa é  inesquecível.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;A farsa nunca anda longe nestes  assuntos. Os “criadores de desculpas” incluiriam também a CIA, a qual avisou que  «o Iraque [desde a invasão] substituiu o Afeganistão como base de treinamento  para a próxima geração de “terroristas profissionalizados”». E lá vão para a  lista negra de Friedman/Rubin os espiões [&lt;i&gt;spooks&lt;/i&gt;]!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Como tantas outras coisas  durante a era Blair, este lixo mccarthista flutuou para o outro lado do  Atlântico e está agora a ser reciclado pelo primeiro-ministro na forma de uma  proposta de legislação própria de um estado policial, pouco diferente dos  anseios fascistas de Friedman e de outros extremistas. Por lista negra de  Friedman, leiam a base de dados de opiniões, livrarias e websites proscritos  proposta por Tony Blair.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;A advogada britânica  especializada em direitos humanos, Linda Christian, pergunta: «Irão aqueles que  sentem um grande sentido de injustiça sobre as mesmas causas que os terroristas  — Iraque, Afeganistão, a guerra contra o terrorismo, Guantánamo, Abu Ghraib —ser  impedidos de falar com franqueza sobre a sua ira? Como o terrorismo é, agora,  definido nas nossas leis como acções empreendidas no exterior, verão que aqueles  que apoiam movimentos de libertação, por exemplo, em Caxemira, ou na Chechénia,  ser negado o seu direito de livre expressão?» Qualquer definição de terrorismo,  observa ela, deveria «abranger as acções dos estados terroristas empenhados em  guerras ilegais».&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Obviamente, Blair está mudo em  relação ao terrorismo de estado ocidental no Médio Oriente e em outros lugares;  e ele moralizar sobre os «nossos valores» é uma ofensa à realidade do seu crime  de sangue no Iraque. O seu estado policial em ascensão terá, espera ele, os  poderes totalitários que ele tem desejado desde 2001, quando suspendeu o habeas  corpus e introduziu a prisão domiciliária ilimitada sem julgamento. Os Law  Lords, o nível mais alto do judiciário britânico, tentaram impedir isso. No  último mês de Dezembro, Lord Hoffmann disse que os ataques de Blair contra os  direitos humanos eram uma ameaça maior para a liberdade do que o terrorismo. Em  26 de Julho, Blair afirmou de forma emocionada que toda a nação britânica estava  sob ameaça e insultou o poder judiciário em termos, como observou Simon Jenkins,  «que nada deviam ao seu amigo Vladimir Putin». O que estamos a ver na  Grã-Bretanha é a ascensão de um estado policial democrático.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Caso você caia na tentação de  afastar tudo isto como esotérico, ou simplesmente maluco, viaje para qualquer  comunidade muçulmana na Grã-Bretanha, especialmente no noroeste, e sinta o  estado de assédio e de medo. Em 15 de Julho, a Grã-Bretanha do futuro de Blair  foi vislumbrada quando a polícia fez uma rusga no Iqra Learning Centre e  livraria perto de Leeds. O Iqra Trust é uma instituição de caridade bem  conhecida que promove o Islão em todo o mundo como «uma religião pacífica que  abrange todos os percursos de vida». A polícia arrombou a porta, despedaçou a  loja e levou literatura contra a guerra, que eles descreveram como  “anti­‑ocidental”.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Entre o material estava,  segundo foi reportado, um DVD do parlamentar George Galloway do Respect Party,  discursando no Senado dos EUA, e um artigo meu publicado no &lt;i&gt;New  Statesman&lt;/i&gt;, ilustrado por uma famosíssima fotografia de um homem palestiniano  em Gaza que tentava proteger o seu filho de balas israelitas, antes do menino  ter sido morto. Disseram que a fotografia «agitava as pessoas», querendo dizer  os muçulmanos. É&lt;span style=""&gt;   &lt;/span&gt;claro que David  Gibbons, o director de arte muito estimado deste jornal, que escolheu essa  ilustração, será chamado perante o Tribunal de Incitamento de Blair. Um dos meus  livros, &lt;i&gt;The New Rulers of the World&lt;/i&gt;&lt;i&gt;Os novos soberanos do mundo&lt;/i&gt;],  aparentemente, foi confiscado também. Não se sabe se a polícia já leu o capítulo  que documenta como os americanos, com a ajuda do MI6 e do SAS, criaram, armaram  e financiaram os terroristas do Mujahideen islâmico, nem menos do que Osama Bin  Laden.
&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;A rusga foi deliberadamente  teatral, com os media devidamente prevenidos. Dois dos ditos bombistas do dia 7  de Julho tinham trabalhado como voluntários na loja há quase quatro anos.  «Quando eles se tornaram radicais», disse um jovem trabalhador da comunidade,  «foram embora e nunca mais voltaram, e não tiveram nada a ver com a loja». A  rusga foi vista por pessoas horrorizadas da comunidade local, que estão agora  assustadas, iradas e amarguradas. Falei com Muserat Sujawal, que vive na área há  31 anos e é muito respeitada pelo seu trabalho de administração do Hamara  Community Centre. Ela contou­‑me: «Não havia justificação para a rusga. Todo o  propósito da loja é ensinar como o Islão é uma religião com base na comunidade.  A minha família tem usado a loja há anos, comprando, por exemplo, o equivalente  árabe da Rua Sésamo. Eles fizeram isso para colocar o medo nos nossos corações».  James Dean, um professor da escola secundária de Bradford, disse: «Estou a  aprender urdu por minha conta, porque tenho classes multi-étnicas, e a loja tem  sido muito útil com cassetes».&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;A polícia tem o direito de  seguir cada pista na caça dos bombistas, mas ela não tem o direito de ser  alarmista. Sir Ian Blair, o comissário da Polícia Metropolitana que compreende  como os media podem ser usados e passa muito tempo nos estúdios de televisão,  ainda tem que explicar porque anunciou que o assassinato do brasileiro Jean  Charles de Menezes no metro de Londres estava «directamente ligado» ao  terrorismo, quando devia saber a verdade. Os muçulmanos em toda a Grã-Bretanha  reportam a presença de «carrinhas com vídeo» da polícia percorrendo as suas  ruas, filmando todos. «Tornamo­‑nos como guetos sob assédio», disse um homem  demasiado assustado para ser identificado. «Será que eles sabem o que é que isto  está a fazer aos nossos jovens?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Noutro dia, Blair disse: «Não  aceitamos nenhum desses disparates sobre [as bombas terem algo] a ver com o que  os britânicos estão a fazer no Iraque ou no Afeganistão, ou com o apoio a  Israel, ou com o apoio à América, ou o resto disso. É um disparate, e temos de o  confrontar como tal». Este «desvario» [«&lt;i&gt;raving&lt;/i&gt;»], como observou o  escritor americano Mike Whitney, «é parte de uma estratégia mais ampla de  ignorar os factos óbvios sobre o terror e de culpar as vítimas da agressão  anglo-americana. É uma táctica que foi cunhada em Telavive e aperfeiçoada  durante 37 anos de ocupação. É pregada sob a premissa de que o terrorismo emerge  de uma ideologia amorfa e com origem na religião, que transforma os seus adeptos  em carniceiros implacáveis».&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;O professor Robert Pape da  Universidade de Chicago examinou cada um dos actos de terrorismo suicida dos  últimos 25 anos. Ele rejeita a premissa de que os bombistas suicidas são  motivados sobretudo por «uma ideologia do mal, independente de outras  circunstâncias». Ele disse: «Os factos são que, desde 1980, metade dos ataques  foi de natureza secular. Poucos dos terroristas correspondem ao estereótipo  padrão… metade deles não são, de todo, fanáticos religiosos. Na verdade, mais de  95 por cento dos ataques suicidas em todo o mundo [não são sobre] religião, mas  sobre um propósito estratégico específico — compelir os EUA e outras nações  ocidentais a abandonar os seus engajamentos militares na Península Arábica e em  países que eles vêem como a sua terra pátria ou que prezam muito… A relação  entre a ira contra os americanos, os britânicos e a [acção] militar ocidental e  a capacidade da al-Qaeda de recrutar terroristas suicidas para nos matar não  poderia ser mais estreita».&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;De forma que, mais uma vez,  fomos advertidos. O terrorismo é a consequência lógica da “política externa”  norte­‑americana e britânica, cujo terrorismo infinitamente maior precisamos  reconhecer, e debater, com carácter de urgência.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18040584-112974006557765264?l=johnpilger.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://pilger.carlton.com/print/133475' title='A ascensão do estado policial democrático'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112974006557765264'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112974006557765264'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://johnpilger.blogspot.com/2005/08/ascenso-do-estado-policial-democrtico.html' title='A ascensão do estado policial democrático'/><author><name>IA</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18040584.post-112974230477014255</id><published>2005-07-26T18:16:00.000+01:00</published><updated>2005-10-19T18:18:24.780+01:00</updated><title type='text'>Blair é inepto para ser primeiro-ministro</title><content type='html'>&lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Os últimos ataques em Londres  produziram uma estranha atmosfera política aqui; não consigo lembra­‑me de algo  semelhante. Uma verdade está a lutar para ser ouvida. Está a ser dita de modo  circunspecto, como desculpando­‑se. Ocasionalmente, um membro do público rompe o  silêncio, como fez um leste­‑londrino quando passeava quase trivialmente frente  a uma equipa da CNN. «Iraque!», disse. «Invadimos o Iraque e o que esperávamos?  Vá lá, digam.»&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;O deputado escocês Alex Salmond  tentou dizer isto na rádio da BBC. Foi-lhe dito que estava a falar «com mau  gosto... antes mesmo de os corpos estarem enterrados». O deputado George  Galloway, do partido Respect, foi admoestado pelo apresentador da televisão BBC  de que estava a ser «grosseiro». O prefeito de Londres, Ken Livingstone, afirmou  o diametralmente oposto do que tinha dito anteriormente, que foi que a invasão  do Iraque reverteria sobre as nossas ruas. Com a excepção de Galloway, nenhum  dos chamados deputados anti­‑guerra falou num inglês claro, inequívoco.  Permitiu-se aos belicistas fixarem as fronteiras do debate público; um dos mais  idiotas, no &lt;i&gt;Guardian&lt;/i&gt;, classificou Blair como «o principal estadista do  mundo». &lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;E contudo, tal como o homem que  interrompeu a CNN, as pessoas entendem e sabem porquê, assim como a maioria dos  britânicos se opõe à guerra e acredita que Blair é um mentiroso. Isto assusta a  elite política britânica. Numa grande festa dos media a que compareci, muitos  dos importantes convidados pronunciavam “Iraque” e “Blair” como uma espécie de  catarse por aquilo que não ousam dizer profissional e publicamente. &lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;As bombas de 7 de Julho foram  bombas de Blair. Blair trouxe para este país a, sua e de George W. Bush,  aventura no Médio Oriente, ilegal, não provocada e embebida em sangue. Não fosse  pela sua épica irresponsabilidade, os londrinos que morreram no Metro e no  autocarro n.º 30 quase certamente estariam hoje vivos. Era isto que Livingstone  deveria ter dito. Parafraseando talvez a única questão desafiadora colocada a  Blair na véspera da invasão, está agora certamente para além de qualquer dúvida  que o homem é inepto para ser primeiro-ministro. &lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Quanto mais provas são  necessárias? Antes da invasão, Blair foi advertido pelo Joint Intelligence  Committee de que «de longe a maior ameaça terrorista» a este país seria  «acrescida pela acção militar contra o Iraque». Foi advertido por 79 por cento  dos londrinos que, de acordo com um inquérito YouGov de Fevereiro de 2003,  acreditavam que um ataque britânico ao Iraque «tornaria mais provável um ataque  terrorista sobre Londres». Um mês atrás, um relatório classificado da CIA  revelou que a invasão havia tornado o Iraque um ponto focal de terrorismo. Antes  da invasão, disse a CIA, o Iraque «não exportava ameaça terrorista para os seus  vizinhos» porque Saddam Hussein era «implacavelmente hostil à al-Qaeda».&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Agora, um relatório de 18 de  Julho da organização Chatham House, um “think-tank” com ligações profundas ao  establishment britânico, pode bem significar o golpe de misericórdia para Blair.  Diz que «não há dúvida» de que a invasão do Iraque «deu um impulso à rede  al-Qaeda» em «propaganda, recrutamento e angariação de fundos» ao mesmo tempo  que proporcionava um alvo ideal e uma área de treinamento para terroristas.  «Cavalgar na garupa com um aliado poderoso» tem custado vidas iraquianas,  americanas e britânicas. O académico de extrema direita Paul Wilkinson, uma voz  do poder ocidental, foi o autor principal. Leia-se entre as linhas e diz que o  primeiro-ministro é agora uma séria responsabilidade. Aqueles que dirigem este  país sabem que ele cometeu um grande crime; a “ligação” foi feita.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;A lenga-lenga do bunker de  Blair é que havia terrorismo muito antes da invasão, nomeadamente o 11 de  Setembro. Qualquer pessoa com um entendimento da penosa história do Médio  Oriente não ficaria surpreendida pelo 11 de Setembro ou pelas bombas de Madrid e  Londres, só pelo facto de elas não terem acontecido mais cedo. Cobri a região  durante 35 anos e se pudesse descrever numa palavra como milhões de árabes e  muçulmanos se sentiam, diria “humilhados”. Quando o Egipto pareceu recuperar o  seu território capturado na guerra de 1973 com Israel, passeava entre multidões  jubilosas no Cairo: sentia­‑se como se o peso das humilhações da história  houvesse sido levantado. Numa alegoria muito egípcia, um homem disse para mim:  «Outrora nós apanhávamos bolas de cricket no British Club. Agora somos  livres».&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Eles não eram livres, claro. Os  americanos reabasteceram o exército israelita e eles quase perderam tudo outra  vez. Na Palestina, a humilhação de um povo cativo é a política israelita.  Quantos bebés palestinianos morreram em postos de controle israelitas depois de  as suas mães, sangrando e chorando em trabalho de parto prematuros, terem sido  forçadas a parir junto à estrada num posto de controle militar com as luzes de  um hospital à distância? Quantos homens idosos foram forçados a mostrar  obediência a jovens recrutas israelitas? Quantas famílias foram explodidas em  pedaços por F-16 fornecidos pelos americanos e utilizando peças fornecidas pelos  britânicos? &lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;A gravidade das bombas de  Londres, disse um comentarista da BBC, «pode ser medida pelo facto de que elas  marcam os primeiros ataques suicidas na Grã-Bretanha». E quanto ao Iraque? Não  havia bombistas suicidas no Iraque até que Blair e Bush o invadiram. E quanto à  Palestina? Não havia bombistas suicidas na Palestina até que Ariel Sharon, um  criminoso de guerra confirmado patrocinado por Bush e Blair, ter chegado ao  poder. Na “guerra” do Golfo de 1991, as forças americanas e britânicas deixaram  mais de 200.000 iraquianos mortos e feridos e a infra­‑estrutura do seu país  «num estado apocalíptico», segundo as Nações Unidas. O embargo subsequente,  concebido e promovido por fanáticos em Washington e Whitehall, não era diferente  de um cerco medieval. Denis Halliday, o responsável das Nações Unidas designado  para administrar a concessão alimentar de quase­‑fome, classificou—o como  «genocida». &lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Testemunhei as suas  consequências: regiões do sul do Iraque contaminadas com urânio empobrecido e  mini­‑bombas de fragmentação à espera de explodirem. Vi crianças moribundas,  algumas do meio milhão de crianças cujas mortes a UNICEF atribuiu ao embargo —  mortes que a secretária de Estado dos EUA, Madeleine Albright, considerou terem  «valido a pena». No ocidente, isto quase não foi relatado. Por todo o mundo  muçulmano, a amargura era uma presença viva, o seu contágio atingindo muitos  jovens muçulmanos nascidos britânicos.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Em 2001, em vingança pela morte  de 3.000 pessoas nas torres gémeas, mais de 20.000 muçulmanos morreram na  invasão anglo-americana do Afeganistão. Isto foi revelado por Jonathan Steele no  &lt;i&gt;Guardian&lt;/i&gt; londrino e nunca foi notícia, que eu saiba. O ataque ao Iraque  foi o Rubicão, tornando a represália contra Madrid e as bombas de Londres  inteiramente previsíveis: as últimas «em resposta aos massacres perpetrados  pelos britânicos no Iraque e no Afeganistão...», alegou um grupo chamado a  Organização para a al-Qaeda na Europa. Quer a alegação tenha sido ou não  genuína, a razão foi. Bush e Blair queriam uma “guerra ao terror” e  obtiveram­‑na.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Omitido da discussão pública é  que o seu terror de Estado faz a al-Qaeda parecer minúscula em comparação. Mais  de 100.000 homens, mulheres e crianças iraquianos foram mortos, não por  bombistas suicidas, mas pela “coligação” anglo-americana, afirma um estudo  revisto por pares publicado na &lt;i&gt;Lancet&lt;/i&gt;, e amplamente ignorado. &lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;No seu poema “Do Iraque”,  Michael Rosen escreveu: &lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Somos os não encontrados &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Somos não contados &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Não vemos os lares que fizemos  &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Não somos nem mesmo as letras  pequenas ou a parte entre parênteses... &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;porque vivemos longe de si,&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;porque você tem câmaras que  apontam para o outro lado... &lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Imagine, por um momento, que  está na cidade iraquiana de Faluja. É um estado policial americano, como um  vasto gueto encurralado. Desde Abril do ano passado, os hospitais ali têm sido  sujeitos a uma política americana de punição colectiva. Equipas foram atacas por  US marines, médicos foram alvejados, remédios de emergência bloqueados. Crianças  foram assassinadas em frente às suas famílias. &lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Agora imagine o mesmo estado de  coisas imposto aos hospitais de Londres que receberam as vítimas das bombas.  Quando alguém fará este paralelo numa das encenadas “conferências de imprensa”  de Blair, nas quais se lhe permite que se emocione para as câmaras acerca dos  «nossos valores [que] sobreviverão aos deles»? Silêncio não é jornalismo. Em  Faluja, eles conhecem os “nossos valores” demasiado bem. E quando alguém  convidará o obsequioso Bob Geldoff a explicar porque é que o mistificador  “cancelamento da dívida” do seu herói Blair monta a menos do que o dinheiro que  o governo de Blair gasta numa semana a brutalizar o Iraque? &lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;A distorção acerca do “caminho  da alma do Islão” é outra distracção. A Cristandade ultrapassa o Islão pela  morte como um assassino industrial. A causa do terrorismo actual não é nem a  religião nem o ódio pelo “nosso modo de vida”. É política, requerendo uma  solução política. É a injustiça e os duplos padrões, os quais plantam o mais  profundo descontentamento. Isso, e a culpabilidade dos nossos líderes, e as  «câmaras que apontam para o outro lado", constituem o núcleo disto.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Em 19 de Julho, enquanto os  governadores da BBC celebravam a sua reunião geral anual no Television Centre,  um inspirado grupo de produtores britânicos de documentários encontrou-se do  lado de fora dos portões principais e conduziu uma série de novas reportagens da  espécie que você não vê na televisão. Actores representaram famosos repórteres a  fazerem as suas “peças para a câmara”. As “histórias” que relataram incluíram o  alvejar da população civil do Iraque, a aplicação dos Princípios de Nuremberga  ao Iraque, a reescrita ilegal das leis do Iraque pelos EUA e o roubo dos seus  recursos através da privatização, a tortura diária e a humilhação de pessoas  comuns e o fracasso na protecção da herança arqueológica e cultural dos  iraquianos. &lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Blair está a utilizar as bombas  de Londres para esvaziar ainda mais os nossos direitos e os dos outros, tal como  Bush fez nos EUA. O seu objectivo não é a segurança, mas maior controle. A  memória das suas vítimas no Iraque, no Afeganistão, na Palestina e noutros lados  exige a renovação da nossa ira. As tropas devem voltar para casa. Nada menos é  devido àqueles que morreram e sofreram em Londres no dia 7 de Julho,  desnecessariamente, e nada menos é devido àqueles cujas vidas estão marcadas se  esta farsa perdurar.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18040584-112974230477014255?l=johnpilger.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://pilger.carlton.com/print/133474' title='Blair é inepto para ser primeiro-ministro'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112974230477014255'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112974230477014255'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://johnpilger.blogspot.com/2005/07/blair-inepto-para-ser-primeiro_26.html' title='Blair é inepto para ser primeiro-ministro'/><author><name>IA</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18040584.post-112973965970955524</id><published>2005-07-11T17:32:00.000+01:00</published><updated>2005-10-19T17:34:19.716+01:00</updated><title type='text'>Para que não esqueçamos: Estas foram "bombas de Blair"</title><content type='html'>&lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Em toda a cobertura dos  atentados de Londres na semana passada, uma verdade básica lutou por ser ouvida.  Tem sido dita em conversa baixa, educadamente, cautelosamente, como se pudesse  de algum modo desonrar os mortos, em vez de contribuir para a verdade. Embora  não duvidando da atroz desumanidade daqueles que colocaram as bombas (como se  alguém pudesse fazê­‑lo), ninguém deveria duvidar de que estas são “bombas de  Blair”; e não lhe deveria ser permitido evadir-se da sua culpabilidade com mais  um untuoso discurso sobre «o nosso modo de vida». Os bombistas atacaram porque  ele e Bush atacaram o Iraque, tendo sido avisados pelo Comité Conjunto de  Informação de que «de longe a maior ameaça terrorista» a este país seria  «aumentada pela acção militar contra o Iraque».&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Na verdade, esta foi a única  advertência confiável dos serviços de informação britânicos nos preparativos  para a invasão do Iraque. Um comité da Câmara dos Comuns verificou desde então  esta advertência. Tivesse Blair prestado atenção ao invés de conspirar para  enganar a nação afirmando que o Iraque apresentava uma ameaça, os londrinos que  morreram na quinta-feira poderiam hoje estar vivos, assim como dezenas de  milhares de iraquianos inocentes. &lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Há três semanas atrás, um  relatório classificado da CIA revelou que a invasão anglo-americana do Iraque  havia transformado aquele país num ponto focal de terrorismo. Nenhuma das  agências de informação encarava o Iraque como um tal ponto focal antes da  invasão, por muito tirânico que fosse o regime. Pelo contrário, em 2003, a CIA  relatou que o Iraque «não exportava ameaça terrorista para os seus vizinhos» e  que Saddam Hussein era «implacavelmente hostil à Al-Qaeda». &lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;A invasão de Blair e Bush  alterou tudo isto. Ao invadir um país batido e indefeso no coração do mundo  islâmico e árabe, a sua aventura tornou-se auto realizável. A negação disso por  aqueles que apoiaram a invasão insulta a memória de todos aqueles que morreram  como resultado. A irresponsabilidade épica de Blair trouxe os horrores diários  da casa iraquiana para a Grã-Bretanha e ele não é – para parafrasear uma das  poucas questões desafiadoras que lhe foram colocadas antes da invasão (por John  Humphries) – adequado para ser primeiro­‑ministro.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Durante mais de um ano ele  instou os britânicos a “ultrapassarem” a questão do Iraque, e na semana passada  parecia que os seus mestres da manipulação e a boa fortuna haviam juntado as  mãos. O prémio para Londres das Olimpíadas de 2012 criou a ilusão passageira de  que tudo estava bem, apesar dos sujos eventos num distante país. Além disso, a  reunião do G8 na Escócia e a campanha “Fazer da pobreza história” que a  acompanhou e o circo de celebridades serviram como uma cobertura temporária para  o que é o maior escândalo político dos tempos modernos: uma invasão ilegal  concebida em mentiras que, sob o sistema do direito internacional estabelecido  em Nuremberga, representou um “supremo crime de guerra”. &lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Ao longo das últimas duas  semanas, o contraste entre a cobertura do G8, as suas marchas e concertos pop, e  um outro evento “global” foi impressionante. O Tribunal Mundial do Iraque, em  Istambul, não teve praticamente nenhuma cobertura, ainda que a evidência que  produziu, a mais terrífica até à data, tenha sido o espectro silencioso nas  extravagancias de Geldoff. &lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;O tribunal é uma séria  investigação pública internacional acerca da invasão e da ocupação, da espécie  que os governos não ousam efectuar. Os seus peritos, testemunhas oculares, disse  a escritora Arundathi Roy, um dos membros do júri, «demonstram que mesmo aqueles  de nós que têm tentado acompanhar a guerra de perto não estão conscientes de uma  parte dos horrores que foram desencadeados no Iraque». O depoimento mais  chocante foi prestado por Dahr Jamail, um dos melhores repórteres não  incorporados que trabalham no Iraque. Ele descreveu como os hospitais da Faluja  assediada foram sujeitos a uma táctica americana de punição colectiva, com  marines dos EUA a assaltarem equipas do hospital e a impedirem os feridos de  entrarem, e &lt;i&gt;snipers&lt;/i&gt; [atiradores de elite] americanos a dispararem para as  portas e janelas, e remédios e sangue de emergência impedidos de os alcançarem.  Crianças, idosos, foram abatidos em frente às suas famílias, a sangue frio. &lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Imagine por um momento o mesmo  aterrador estado de coisas imposto aos hospitais londrinos que receberam as  vítimas dos atentados de quinta-feira. Inimaginável? Bem, acontece, em nosso  nome, independentemente da supressão de Faluja e de outras atrocidades pela BBC.  Quando é que alguém fará este paralelo numa das “conferências de imprensa”  encenadas nas quais Blair se permite comover perante as câmaras sobre «os nossos  valores [que] sobreviverão aos deles»? O silêncio não é jornalismo. Em Faluja,  eles conhecem «os nossos valores» demasiado bem. &lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Enquanto os dois homens  responsáveis pela carnificina no Iraque, Bush e Blair, estavam lado a lado em  Gleneagles, por que não foi feita a conexão entre a sua fraudulenta “guerra ao  terror” com o atentado em Londres? Quando é que alguém na classe política dirá  que os fumos-e-espelhos de Blair quanto ao “cancelamento da dívida” na melhor  das hipóteses equivale a menos do que o dinheiro que o governo gastou em uma  semana a brutalizar o Iraque, onde a violência britânica e norte­‑americana é a  causa da duplicação da pobreza infantil e da desnutrição desde que Saddam  Hussein foi derrubado (UNICEF)? &lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;A verdade é que o alívio da  dívida que o G8 está a oferecer é letal. As suas “condicionalidades” brutais de  economias cativas ultrapassam quaisquer ténues benefícios. Isto foi tabu durante  a semana do G8, cujo tema não foi tanto fazer da pobreza história, mas silenciar  e pacificar e cooptar a dissidência e a verdade. As ridículas imagens sobre  écrans gigantes atrás de estrelas pop no Hyde Park não incluíam fotos dos  médicos iraquianos assassinados com o sangue a jorrar das suas cabeças, cortadas  pelos &lt;i&gt;snipers&lt;/i&gt; de Bush.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;A vida real tornou-se mais  satírica do que a sátira poderia alguma vez ser. Ali estava Bob Geldoff nas  primeiras páginas ostentando a sua cara sorridente sobre o ombro do sorridente  Blair, o criminoso de guerra e o seu bobo de serviço. Ali estava um heroicamente  esboçado Bono, que celebra homens como Jeffrey Sachs como salvadores dos pobres  do mundo enquanto louvam a “compassiva” “guerra ao terror” de George Bush como  um dos maiores feitos da sua geração; e ali estava Paul Wolfowitz, irradiante e  prometendo fazer da pobreza história: este é o homem que, antes de ser guindado  ao controle do Banco Mundial, era um apologista do regime genocida de Suharto na  Indonésia, que foi um dos arquitectos do golpe “neo-con” de Bush e do banho de  sangue no Iraque e da noção de “guerra sem fim”. Para os políticos, estrelas  pop, líderes da igreja e pessoas educadas que acreditaram em Blair e Gordon  Brown quando eles declararam a sua “grande cruzada moral” contra a pobreza, o  Iraque era um embaraço. A morte de mais de 100.000 iraquianos devido  principalmente ao tiroteio e bombas americanas — um número relatado num estudo  abrangente e examinado por pares antes da publicação em &lt;i&gt;The Lancet&lt;/i&gt; — foi  eclipsado do debate dos media dominantes.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Números não divulgados de entes  queridos estão desaparecidos no Iraque por causa do horror que Bush e Blair  infligiram nessa sociedade. Mas onde colocam as famílias as suas fotografias,  como os afligidos fazem em Londres? Se perguntam nas bases norte­‑americanas,  correm o risco de eles próprios desaparecerem. Nas nossas sociedades com  liberdade de expressão, o imencionável é que «o estado perdeu o juízo e está a  punir demasiadas pessoas inocentes», como escreveu outrora Arthur Miller, «e  assim a evidência tem de ser negada internamente». Não só negada, como  tergiversada por toda uma corte: Geldoff, Bono, Madonna, McCartney e outros,  cujo “Live 8” foi a antítese total do 15 de Fevereiro de 2003 quando dois  milhões de pessoas trouxeram os seus corações e cérebros e mostraram a sua ira  nas ruas de Londres. Blair quase certamente utilizará a atrocidade e a tragédia  da semana passada para esvaziar ainda mais os direitos humanos básicos na  Grã­‑Bretanha, tal como Bush o fez nos Estados Unidos. O objectivo não é a  segurança, mas maior controle. Acima de tudo isto, a memória das suas vítimas,  das “nossas” vítimas, no Iraque exige o retorno da nossa ira. E nada menos é  devido àqueles que morreram e sofreram em Londres na semana passada,  desnecessariamente.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18040584-112973965970955524?l=johnpilger.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://pilger.carlton.com/print/133472' title='Para que não esqueçamos: Estas foram &quot;bombas de Blair&quot;'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112973965970955524'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112973965970955524'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://johnpilger.blogspot.com/2005/07/para-que-no-esqueamos-estas-foram.html' title='Para que não esqueçamos: Estas foram &quot;bombas de Blair&quot;'/><author><name>IA</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18040584.post-112973954742227093</id><published>2005-06-22T17:30:00.000+01:00</published><updated>2005-10-19T17:32:27.426+01:00</updated><title type='text'>A cimeira do G8: uma fraude e um circo</title><content type='html'>&lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;A capa do &lt;i&gt;The Observer&lt;/i&gt;  no dia 12 de Junho anunciava: «Anulados 55 mil milhões de dólares na dívida de  África, “uma vitória para milhões de pessoas”». A «vitória para milhões de  pessoas» é citação de Bob Geldof, que disse, «Amanhã, 280 milhões de africanos  acordarão pela primeira vez nas suas vidas sem vos dever ou a mim um  centavo...». Esse disparate seria de tirar o fôlego se o fôlego do leitor não  tivesse já sido extraído pelos incessantemente sofismas de Geldof, Bono, Blair,  &lt;i&gt;The Observer&lt;/i&gt; e companhia.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;A pilhagem imperial e tragédia  de África foram transformadas num circo em benefício dos chamados líderes do G-8  que irão à Escócia no próximo mês e aqueles de nós que estejam dispostos a ser  distraídos pelos latidos dos cães do circo: os meios de comunicação do  establishment e as suas “celebridades”. A ilusão de uma cruzada  anti­‑establishment conduzida pelas estrelas pop – uma imagem cultivada,  controlada de rebelião – serve para diluir um grande movimento político de  cólera. Em cimeira atrás de cimeira, nem uma só “promessa” significativa do G8  se cumpriu, e a «vitória para milhões de pessoas» não é uma excepção. É uma  fraude – na verdade, um recuo na redução da pobreza em África. Inteiramente  condicionada por viciosos, desacreditados programas económicos impostos pelo  Banco Mundial e pelo FMI, o “pacote” assegurará que os países “escolhidos” se  afundarão ainda mais na pobreza.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Constitui alguma surpresa que  isto seja apoiado por Blair e pelo seu ministro das Finanças, Gordon Brown, e  George Bush; e que mesmo a Casa Branca lhe chame um «marco»? Para eles, é uma  importante fachada, erguida pelos famosos e ingénuos e vazios. Tendo espargido  Blair, Geldof descreve Bush como «apaixonado e sincero» sobre terminar com a  pobreza. Bono chamou a Blair e a Brown «o João e o Paulo da fase do  desenvolvimento global». Por detrás desta fachada, o poder rapace pode  “reordenar” as vidas de milhões a favor de corporações totalitárias e do seu  controlo dos recursos mundiais.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Não há conspiração; o objectivo  não é um segredo. Gordon Brown afirma­‑o em discurso após discurso, que os  jornalistas liberais optam por ignorar, preferindo a versão abreviada das  Finanças. O comunicado do G8 anunciando a«vitória para milhões de pessoas» é  inequívoco. Sob uma secção de título “Propostas do G8 para o cancelamento da  dívida dos HIPC” [HIPC = Heavily Indebted Poor Countries = Países Pobres  Pesadamente Endividados], diz que o alívio da dívida para os países pobres será  concedido apenas se mostrarem «ajustar os seus fluxos de assistência bruta pelo  montante dado»: por outras palavras, a sua ajuda será reduzida pelo mesmo  montante que o alívio da dívida. Por isso, nada ganham. O segundo parágrafo  estabelece que «é essencial» que os países pobres «acelerem o desenvolvimento do  sector privado» e assegurem «a eliminação de impedimentos ao investimento  privado, tanto doméstico como estrangeiro».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Os «55 mil milhões» alegados  pelo &lt;i&gt;The Observer &lt;/i&gt;montam, quando muito, a mil milhões distribuídos por 18  países. Isto será certamente diminuído para metade – providenciando menos de  seis dias de pagamentos da dívida – porque Blair e Brown querem que o FMI pague  a sua parte do “alívio” reavaliando o seu vasto stock de ouro, e o apaixonado e  sincero Bush disse que não. A primeira coisa não mencionável é que o ouro foi  pilhado originalmente de África. A segunda coisa não mencionável é que os  pagamentos da dívida irão aumentar substancialmente a partir do próximo ano,  mais do que duplicando até 2015. Isto significará não uma «vitória para milhões  de pessoas», mas a morte para milhões de pessoas.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;No presente, por cada dólar de  “ajuda” a África, 3 dólares são retirados pelos bancos, instituições e governos  ocidentais, e isso não inclui o lucro repatriado pelas corporações  transnacionais. Considerem o Congo. Trinta e duas corporações, todas elas  sediadas em países do G8, dominam a exploração deste país profundamente  empobrecido, rico em minerais, onde milhões morreram na “causa” de 200 anos de  imperialismo. Na Costa do Marfim, três companhias do G8 controlam 95 por cento  do processamento e exportação de cacau: o principal recurso. Os lucros da  Unilever, uma companhia britânica há muito em África, são um terço superiores ao  PIB de Moçambique. Uma companhia americana, a Monsanto – conhecida pela  engenharia genética – controla 52 por cento das sementes de milho da África do  Sul, o principal género alimentar desse país.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Blair não poderia dar dois  traques pelo povo de África. Ian Taylor da Universidade de St Andrews utilizou a  Lei de Liberdade de Informação para ficar a saber que enquanto Blair estava a  declamar o seu desejo de “fazer da pobreza história”, estava a cortar  secretamente os funcionários e pessoal de África do governo. Ao mesmo tempo, o  seu “departamento para o desenvolvimento internacional” [DpDI; em inglês, DfID]  estava a forçar, pela porta do cavalo, a privatização do abastecimento de água  no Gana para benefício dos investidores britânicos. Este ministério vive pelo  ditado da sua “Unidade para as Parcerias de Negócios”, que é devotada a  encontrar «meios pelos quais o DpDI pode melhorar o ambiente propício para o  investimento produtivo no estrangeiro... contribuir para a operacionalização do  sector financeiro».&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Redução da pobreza? Claro que  não. Uma charada promove a moderna ideologia imperial conhecida como  neoliberalismo, contudo quase nunca é relatado dessa maneira e as conexões  raramente são feitas. No número do &lt;i&gt;The Observer&lt;/i&gt; anunciando «vitória para  milhões de pessoas» foi um tema de notícia secundária que as vendas britânicas  de armas para África tinham passado de mil milhões de dólares. Um dos clientes  das armas britânicas é o Malaui, que gasta mais nos juros da sua dívida do que  em todo o seu orçamento de saúde, apesar&lt;span style=""&gt;   &lt;/span&gt;do facto de 15 por cento da sua população ter SIDA. Gordon Brown gosta de  usar o Malaui como exemplo de porque é que «deveríamos fazer da pobreza  história», contudo o Malaui não receberá um tostão do alívio da «vitória para  milhões de pessoas».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;A charade é um presente para  Blair, que tentará tudo para persuadir o público a “ultrapassar” o terceira  coisa não mencionável: o seu papel no maior escândalo político da nossa era, o  seu crime no Iraque. Apesar de ser essencialmente um oportunista, como as suas  mentiras demonstram, apresenta­‑se a si mesmo como um imperialista kiplinguesco.  A sua “visão para África” é tão paternalista e exploradora como um palco cheio  de estrelas pop brancas (com testemunhos negros agora acrescentados). As suas  referências messiânicas a «abanar o caleidoscópio» das sociedades sobre as quais  pouco entende e «ver as peças cair» traduziu­‑se por sete intervenções violentas  no estrangeiro, mais do que qualquer primeiro ministro britânico durante meio  século. Bob Geldof, um irlandês da sua corte, devidamente armado cavaleiro, nada  disse acerca disto.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Os protestantes que vão à  cimeira do G8 em Gleneagles não devem deixar-se distrair por estes jogos. Se for  necessária inspiração, juntamente com provas de que a acção directa pode  resultar, deveriam olhar para os poderosos movimentos populares da América  Latina contra a &lt;i&gt;locura capitalista total&lt;/i&gt; (loucura capitalista total).  Deveriam olhar para a Bolívia, o país mais pobre da América Latina, onde um  movimento indígena pôs os amigos corporativos de Blair e Bush a fugir, e para a  Venezuela, o único país do mundo onde os dividendos do petróleo foram desviados  para o benefício da maioria, e para o Uruguai e a Argentina, o Equador e o Perú,  e o grande movimento popular dos sem terra do Brazil. Por todo o continente,  pessoas comuns estão a enfrentar a velha ordem patrocinada por Washington. &lt;span style="" lang="ES-TRAD"&gt;«&lt;i&gt;Que se vayan todos!&lt;/i&gt;»  &lt;/span&gt;(Que se vão todos!) dizem as multidões nas ruas.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Muita da propaganda que passa  por notícias na nossa própria sociedade é dada para imobilizar e pacificar as  pessoas e distraí­‑las da ideia de que não podem enfrentar o poder. A actual  tagarelice sobre a Europa, à qual nenhum jornalista dá sentido, é parte disto;  contudo, os votos “não” franceses e holandeses são parte do mesmo movimento da  América Latina, devolver a democracia à sua verdadeira casa: a do poder  responsável perante as pessoas, não perante o “livre mercado” ou as políticas de  guerra de insolentes desenfreados. E isto é apenas um começo.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18040584-112973954742227093?l=johnpilger.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://pilger.carlton.com/print/133469' title='A cimeira do G8: uma fraude e um circo'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112973954742227093'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112973954742227093'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://johnpilger.blogspot.com/2005/06/cimeira-do-g8-uma-fraude-e-um-circo.html' title='A cimeira do G8: uma fraude e um circo'/><author><name>IA</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18040584.post-112973935380337467</id><published>2005-05-26T17:26:00.000+01:00</published><updated>2005-10-19T17:29:13.813+01:00</updated><title type='text'>Cambodja: uma vítima da "ajuda"</title><content type='html'>&lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Visto do ar, parecia não estar  ninguém ali, nenhum movimento, nem mesmo um animal, como se a imensa população  asiática houvesse parado no rio Mekong. Mesmo a colcha de retalhos dos campos de  arroz era quase indiscernível; nada parecia ter sido plantado ou estar a  crescer, excepto a floresta e linhas de altas ervas selvagens. À beira de  aldeias desertas, muitas vezes seguindo um padrão de crateras de bombas, a erva  seguia linhas rectas; fertilizada por composto humano, pelos remanescentes de  milhares e milhares de homens, mulheres e crianças, marcava sepulturas comuns  num país em que até dois milhões de pessoas, ou seja, entre um terço e um quarto  da população, estavam “faltando”. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Este foi o Cambodja que  encontrei há 26 anos atrás, no rastro do Khmer Rouge, cujo domínio assassino foi  seguido por um inferno de bombas americanas. Pouco tempo depois, Jim Howard,  engenheiro sénior e bombeiro da entidade de beneficência britânica Oxfam, chegou  e enviou o seu primeiro telegrama: «Cinquenta a oitenta por cento de destruição  material e humana é a realidade terrível. Cem toneladas de leite por semana  necessárias, por ar e mar, durante os próximos dois meses a começar já, repito,  já».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Então começou uma das mais  arrojadas operações de ajuda do século XX, a qual ultrapassou um embargo  americano e britânico destinado a punir o libertador do Cambodja, o Vietname.  Através da fina engenhosidade e visão política das suas acções e campanhas  internas, a Oxfam salvou e recuperou incontáveis pessoas. Posteriormente, ao  exigir que o ocidente parasse de apoiar o Khmer Rouge no exílio, a Oxfam  incorreu na hostilidade dos governos Thatcher e Reagan e foi ameaçada com a  perda do seu estatuto de entidade caritativa isenta de impostos. Isto era  claramente destinado a servir de advertência às organizações de ajuda  independentes, ou “ONGs”, para que não se tornassem demasiado “radicais”. Muitas  desde então abraçaram uma versão do corporativismo e uma aproximação ao governo  britânico, cujas políticas comerciais neoliberais continuam a ser uma fonte de  muita da pobreza do mundo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Em 27 de Maio, a organização de  vigilância ActionAid publicou um extraordinário relatório de condenação, Real  Aid : uma agenda para fazer a ajuda funcionar. Com a reunião do G8 em  Gleneagles, na Escócia, em Julho, e o governo Blair (e outros governos europeus)  a propagarem o disparate de que está ao lado dos pobres, o relatório revela que  o governo está a inflar em um terço o valor da sua ajuda que já é mínima aos  países pobres. E acrescenta que a maior parte de toda a ajuda ocidental é  realmente “ajuda fantasma”, o que significa que nada tem a ver com a redução da  pobreza.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;O estudo da ActionAid descreve  um regabofe de “assistência técnica” e “consultorias” com preços exagerados, de  carreirismo e contabilização deficiente. Os britânicos frequentemente exageram  os seus números da ajuda (com a inclusão de reduções na dívida); e os EUA atam a  sua ajuda ao comércio e ideologia e aos seus “interesses”. A ajuda real, de  facto, representa apenas 0,1 por cento do rendimento nacional combinado dos  países ricos. Comparado com o “objectivo” mínimo das Nações Unidas de 0,7 por  cento, isto mal chega a umas migalhas. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;O Cambodja é um exemplo  excelente. Apesar de ser um dos países mais pobres do mundo, nunca foi permitido  ao Cambodja que recuperasse do trauma infligido por Richard Nixon, Henry  Kissinger e Pol Pot. Durante a década de 1980, depois de Pol Pot ser expulso  pelos vietnamitas, um embargo americano e britânico tornaram a reconstrução  quase impossível. Ao invés disso, foi inventada uma “resistência” pelos  americanos, com a SAS britânica contratada para treinar os Khmer Rouge em campos  secretos na Tailândia e na Malásia. Em 1990, quando as Nações Unidas finalmente  chegaram ao Cambodja para organizar a “democracia”, isto trouxe corrupção numa  escala sem precedentes, bem como SIDA e “ajuda”. Isto foi deturpado como um  “triunfo” da “comunidade internacional”. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;O Cambodja é hoje uma vítima  desta “ajuda”. Tal como em África, os “doadores” (o ocidente e o Japão)  perpetuaram os mitos de um “caso perdido”: que os cambodjanos não podem fazer  nada por si próprios e que ajuda genuína ao desenvolvimento e capitalismo  predador são compatíveis. Não há símbolo mais adequado para o Cambodja do que as  florescentes oficinas de exploração (&lt;i&gt;sweatshops&lt;/i&gt;) que fabricam bens por  uma fracção do seu preço de retalho no ocidente, fazendo vista grossa a lugares  onde crianças brincam junto a esgotos a céu aberto transmissores de  malária.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Evidentemente, ajuda  falsificada ou “fantasma” e capitalismo rapinante são compatíveis. O relatório  da ActionAid menciona citações de Brad Adams da Human Rights Watch: «Na década  de 1980, havia ali uma T­‑shirt popular que satirizava os anúncios de  recrutamento do Exército dos EUA com o slogan, “Aliste­‑se no exército. Viaje  para terras exóticas e distantes. Encontre pessoas estimulantes e inabituais. E  mate-as”. Neste novo milénio, isto podia ser reformulado: “Aliste-se na  comunidade de ajuda. Viaje para terras exóticas e distantes. Encontre pessoas  estimulantes e inabituais. E ganhe uma fortuna”». &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Cerca da metade de toda a ajuda  ao Cambodja é gasta em “assistência técnica”, ou AT. Entre 1999 e 2003 esta  montou a 1,2 mil milhões de dólares. O que é AT? É uma invasão de “conselheiros  internacionais” com os quais foram gastos mais de 70 milhões de dólares só em  2003. Some-os aos “consultores internacionais”, cada um dos quais custa mais de  159 mil dólares. Em contraste, o custo de um trabalhador genuíno em ajuda  externa numa ONG verdadeiramente independente é menos de 45 mil dólares, e o  custo de recrutar um perito cambodjano é um oitavo disto.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Mais de 740 conselheiros e  peritos estrangeiros ganham aproximadamente tanto quanto 160 mil funcionários  civis cambodjanos, os quais recebem tão pouco como 25 dólares por mês. Em muitos  ministérios, o pagamento de conselheiros estrangeiros excede todo o orçamento  anual. É mais do que o dobro do orçamento do Ministério da Agricultura e quatro  vezes aquele do Ministério da Justiça.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Os trabalhadores estrangeiros  da ajuda queixam-se constantemente acerca da corrupção local, muitas vezes com  razão. Mas eles raramente identificam e medem a sua própria corrupção  legitimizada. «Não tem havido qualquer análise sistemática da efectividade da AT  no Cambodja», afirma a ActionAid. «Responsáveis do governo do Cambodja sugeriram  que isto é porque os doadores não querem reconhecer a ineficácia da sua ajuda».  O Conselho para o Desenvolvimento do Cambodja diz que os estrangeiros criam  sistemas paralelos ao governo. Eles não transferem capacidade. Os peritos apenas  fazem relatórios que ninguém lê... os doadores queixam-se sempre acerca da falta  de recursos humanos [mas] os cambodjanos são seres humanos...»&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;O relatório cita um esquema  para proteger aldeões de inundações no qual está envolvido o Departamento de  Desenvolvimento Internacional britânico. Apesar de ser promovido como “baseado  na comunidade”, três quartos do orçamento estão a ser gastos com consultores  estrangeiros, gabinetes e administração. O Cambodja tem três planos económicos  nacionais distintos, cada um deles concebido por uma agência estrangeira  diferente. Um dos maiores doadores é a agência USAID do governo americano,  notória pelas suas sangrentas intervenções políticas por todo o mundo. A USAID  financia grupos cambodjanos de oposição, “conselheiros de direitos humanos” e  jornais que estão alinhados à ideia de Bush de “boa governação”. Mesmo a ajuda  humanitária mais básica está ligada aos negócios americanos. Os sais de  re­‑hidratação oral, por exemplo, que nos trópicos são essenciais, devem ser  comprados nos Estados Unidos a um preço cinco vezes maior do que o do mesmo  produto fabricado no Cambodja. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Há pessoas boas nas ONGs  estrangeiras no Cambodja, e há um certo número de esquema efectivos. Mas  “parceria” com pessoas locais é uma palavra de que tanto os governos como as  agências de ajuda abusam. Os cambodjanos obtêm o que lhes é dado, tal como  “empréstimos” do Banco Mundial e do FMI com a espécie de condições ultrajantes  que prejudicaram países como a Zâmbia. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Mais de 600 mil cambodjanos  foram mortos por bombas americanas na década de 1970. Como admitiu  posteriormente a CIA, a devastação proporcionou um catalisador para o horror do  Khmer Rouge. Milhares de mortes de crianças foram provocadas posteriormente por  um bloqueio económico apoiado pelo governo britânico.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Vejo que Tony Blair, assim como  locutores e outras celebridades, têm estado a usar a faixa da moda “Tornar a  pobreza história”. É perverso. Tal como aqueles países na África, na Ásia e na  América Latina há muito pilhados em nome dos “interesses” ocidentais, o Cambodja  tem direito a reparações incondicionais a fim de poder atender às necessidades  urgentes do seu povo, não às exigências daqueles que dizem ajudar.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18040584-112973935380337467?l=johnpilger.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://pilger.carlton.com/print/133466' title='Cambodja: uma vítima da &quot;ajuda&quot;'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112973935380337467'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112973935380337467'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://johnpilger.blogspot.com/2005/05/cambodja-uma-vtima-da-ajuda.html' title='Cambodja: uma vítima da &quot;ajuda&quot;'/><author><name>IA</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18040584.post-112973813229139462</id><published>2005-05-07T17:07:00.000+01:00</published><updated>2005-10-19T17:08:52.296+01:00</updated><title type='text'>Trazendo­‑vos as notícias – cortesia da Lei dos Opostos e da Lei do Silêncio</title><content type='html'>&lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Consegue imaginar a BBC ou  outro grande emissor a pedir desculpa a um regime velhaco que pratica o racismo  e a limpeza étnica; que «legalizou efectivamente o uso da tortura» (Amnistia);  que despreza a lei internacional, tendo desafiado centenas de resoluções da ONU,  e construiu um muro de apartheid a despeito do Tribunal Internacional de  Justiça; que demoliu milhares de casas de pessoas e deu aos seus soldados o  direito de assassinar; e cujo líder foi julgado «pessoalmente responsável» pelo  massacre de mais de 2.000 pessoas?&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Consegue imaginar a BBC a pedir  desculpa ao Iraque de Saddam Hussein, ou outros demónios oficiais, por  transmitir uma entrevista não censurada com um corajoso dissidente desse país,  um homem que passou 19 anos na prisão, a maior parte em isolamento? Claro que  não.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Contudo, no mês passado, a BBC  pediu “confidencialmente” desculpa a um regime com tal registo, de modo que o  seu correspondente fosse autorizado a voltar, tendo prometido suportar um  sistema de censura que continua a amordaçar a dissidência. O regime é a Israel  de Ariel Sharon, cujos crimes de guerra, horrível registo de direitos humanos e  ilegalidade duradoura continuam a receber um certificado de dispensa não apenas  do ocidente dominado pelos EUA, mas pelo jornalismo respeitável. O conluio do  governo de Blair com o bando de Sharon é reflectido na cobertura “equilibrada”  da BBC de uma repressão descrita por Nelson Mandela como «a grande questão moral  da nossa era». Simon Wilson, o correspondente obrigado a pedir desculpa por uma  correcta, importante e há muito devida entrevista com Mordechai Vanunu, saberá  melhor no futuro.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Isto quase não é novo. A  pressão aplicada à BBC e a outros emissores pelo “lobby” Israel tem sido tão bem  sucedida que, como revelou um estudo da Universidade de Glasgow, muitos  espectadores das notícias televisivas acreditam que os “colonos” judeus cuja  repressão ilegal e com frequência violenta sobre os palestinianos minou  esperanças de paz real, são de facto palestinianos. O que é novo é a extensão  com que a insidiosa propaganda estatal penetrou em secções dos media cuja  independência foi, até recentemente, aceite por grande parte do público.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Para compreender isto,  aplica­‑se a Lei dos Opostos e a Lei do Silêncio. A Lei dos Opostos pode ser  aplicada a quase qualquer emissor de notícias actualmente. A longamente esperada  morte do Papa é um caso em destaque. Invertendo o rio de baba sobre o Papa – “o  Papa do povo” (quase universal), «o homem que mudou a história» (Bush), «uma  figura cimeira respeitada em todas as fés e nenhuma» (Blair) – têm a verdade.  Este homem profundamente reaccionário deteve a história e destruiu vidas em todo  o mundo com a sua fanática oposição a decências básicas, tais como o controlo de  natalidade. Chamou a isto «abominável», divulgando o discurso, e assim condenou  milhões, desde crianças famintas a bebés nascidos com SIDA. Na América Latina,  humilhou publicamente padres corajosos cuja “preferência pelos pobres” se  atreveu a contrariar a hierarquia medieval que ele defendeu. A alegação de que  ele “deitou abaixo o comunismo” é também o oposto da verdade. Como fiquei a  saber quando fiz reportagem sobre o seu regresso papal à sua nativa Polónia em  1979, a Igreja desse país, cujo conservadorismo ele corporizou, era um  companheiro de intrigas do regime estalinista até que os ventos mudaram.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;A Lei dos Opostos pode ser  aplicada à actual moda ocidental governamental/mediática de salvar África,  conhecida como o Ano de África. A BBC foi o anfitrião de uma conferência sobre  isto, tal como Blair será o anfitrião da cimeira do G8 em Julho com “erradicar a  pobreza de África” como tema. Esta é «a grande oportunidade de a Grã­‑Bretanha»,  escreveu Polly Toynbee no &lt;i&gt;Guardian&lt;/i&gt;, «comprometer os ricos com o alívio da  dívida, a ajuda, o comércio justo, as emissões de carbono e os inválidos da  SIDA». Acrescentou: «Na dívida e no comércio, os Trabalhistas saíram­‑se  bem».&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;O oposto é verdade. Tal como o  resto do mundo empobrecido, os países africanos só se qualificam para o  iluminismo em voga se concordarem em impor ao seu povo as restrições mortais da  Organização Mundial do Comércio, do FMI e do Banco Mundial – tais como a  destruição de tarifas que protegem economias sustentáveis e a privatização dos  recursos naturais como a água. Ao mesmo tempo, são “encorajados” a comprar armas  de companhias de armamento britânicas, especialmente se têm uma guerra civil em  curso ou se existe uma tensão com um vizinho.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;A Lei do Silêncio é aplicada a  crimes cometidos não por demónios oficiais – Saddam, Milosevic e outros – mas  por governos ocidentais. Um correspondente da Australian Broadcasting  Corporation, Eric Campbell, ao promover recentemente um livro das suas  aventuras, descreveu a “cobertura” da guerra do Iraque da emissora. «O satélite  ao vivo é um travesti», disse. «Basicamente, se [os repórteres] estão em  satélite, não viram nada. Ao correspondente são lidas as histórias telegrafadas  e é­‑lhe dito que isso é o que ele tem para dizer no ar – isso é na maioria dos  casos».&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Isto pode ajudar a explicar  porque é que o horror do ataque norte­‑americano a Fallujah ainda tem de ser  reportado pelas outras grandes emissoras. Em contraste, jornalistas  independentes como Dahr Jamail reportaram médicos que descrevem a matança de  civis que portavam bandeiras brancas por marines dos EUA. Isto foi gravado em  vídeo, incluindo o assassinato da maioria de uma família de 12. Uma testemunha  descreveu como a sua mãe foi atingida com um tiro na cabeça e o seu pai no  coração, e como um rapaz de seis anos que estava por cima dos seus pais mortos,  a chorar, foi morto a tiro. Nada disto apareceu na televisão britânica. Quando  interrogado, um porta­‑voz da BBC disse: «A conduta das forças da coligação foi  examinada extensivamente por programas da BBC». Isso é uma falsidade  demonstrável.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;De modo similar, a Lei do  Silêncio aplica­‑se ao provável ataque americano ao Irão. Scott Ritter, o  inspector de armas da ONU que em 1999 revelou que Saddam Hussein não tinha armas  de destruição em massa e foi a partir de então praticamente proscrito, revelou  recentemente que, de acordo com um oficial do Pentágono, o Irão será atacado em  Junho. De novo, ele foi ignorado pela maioria dos media. Enquanto a propaganda  da “democracia está em marcha no Médio Oriente” de Bush e Blair é relatada  acriticamente, a Lei do Silêncio aplica­‑se à campanha do regime de Bush para  subverter e derrubar Hugo Chávez na Venezuela, indubitavelmente o líder mais  vezes democraticamente eleito na América Latina, se não no mundo (nove eleições)  cuja própria “preferência pelos pobres” fez reverter os rendimentos da quarta  maior reserva de petróleo do mundo para a maioria dos venezuelanos.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;No ano passado, fiz uma longa  entrevista com Jeremy Bowen, um repórter da BBC que eu admiro, para um programa  sobre correspondentes de guerra. Embora adivinhasse que o que realmente se  pretendia eram as minhas histórias de proezas jornalísticas na linha da frente,  comecei por descrever como os jornalistas frequentemente produziram propaganda  velada para o poder ocidental – ao aceitar a “nossa” versão ou ao omitir o  desagradável, tais como as atrocidades do terrorismo de estado ocidental: um  grande tabu. Enfatizei que esta censura não era conspiratória, mas  frequentemente inconsciente, mesmo subliminar: tal era o nosso treino e  preparação. O meu contributo não apareceu.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18040584-112973813229139462?l=johnpilger.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://pilger.carlton.com/print/133443' title='Trazendo­‑vos as notícias – cortesia da Lei dos Opostos e da Lei do Silêncio'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112973813229139462'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112973813229139462'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://johnpilger.blogspot.com/2005/05/trazendovos-as-notcias-cortesia-da-lei.html' title='Trazendo­‑vos as notícias – cortesia da Lei dos Opostos e da Lei do Silêncio'/><author><name>IA</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18040584.post-112973802993881628</id><published>2005-04-21T17:05:00.000+01:00</published><updated>2005-10-19T17:07:09.943+01:00</updated><title type='text'>Um absurdo na Grã-Bretanha: persuadir as pessoas de que têm uma escolha política</title><content type='html'>&lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Está em curso uma pressão  familiar, ainda que desesperada, para convencer o povo britânico de que os  principais partidos políticos lhes oferece uma escolha democrática na eleição  geral de 5 de Maio. Este demonstrável absurdo tornou­‑se hilariante quando Tony  Blair, líder de um dos mais asquerosos e violentos regimes de extrema direita de  que há memória, anunciou a existência de «uma suja campanha da extrema direita»  para derrotá-lo. Se ao menos isto fosse divertido... Se ao menos fosse possível  ler os tributos “ah, mas” a um “bem sucedido” governo trabalhista sem partir uma  costela. Se apenas fosse possível ler os instigadores da guerra a lamentarem a  “apatia” do eleitorado britânico sem que o riso seja ultrapassado pela urgência  em vomitar.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;A verdade pode ser subvertida,  mas para milhões de britânicos decentes a subversão está ultrapassada, e a  verdade foi revelada. Por isso, eles têm de agradecer a Blair. No dia 5 de Maio  eles farão silenciosamente greve contra um sistema corrupto e não democrático,  tal como o fizeram na última eleição, produzindo a mais baixa taxa de  comparecimento desde que há direito de voto, incluindo cerca de um terço em  algumas secções eleitorais. Outros ficarão sob uma pressão extraordinária para  pôr de lado considerações de moralidade básica e votar por este “bem sucedido”  governo Blair. Eles — permita-me isto por você — deverão estar conscientes do  que isto significará para os seus semelhantes.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Ao votar por Blair, você  passeará sobre os cadáveres de pelo menos 100.000 pessoas, a maior parte delas  mulheres, crianças e idosos inocentes, abatidas pelas forças opressoras enviadas  por Blair e Bush, sem provocação e em desafio ao direito internacional, a um  país indefeso. Essa estimativa conservadora é a conclusão de um estudo  anglo-americano revisto pelos pares, publicado no jornal médico britânico  &lt;i&gt;The&lt;/i&gt; &lt;i&gt;Lancet&lt;/i&gt;. Trata-se do mais confiável vislumbre que temos da  carnificina criminosa causada por Blair e Bush no Iraque, e está a ser omitida  nesta “campanha” eleitoral. &lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Ao votar por Blair você estará  a fazer orelhas moucas às lágrimas de incontáveis crianças iraquianas  estraçalhadas pelas bombas de fragmentação britânicas e envenenadas por  explosões tóxicas de urânio empobrecido. Estas vítimas invisíveis de Blair e  Bush — incluindo mulheres iraquianas que desenvolveram um raro “câncer da  gravidez”, e crianças com leucemia inexplicada — não farão parte das suas  preocupações. Segundo um dos peritos militares que limparam o Kuwait após a  Guerra do Golfo de 1991, Blair e Bush criaram «outro Hiroshima» em partes do  Iraque. Você estará a votar para endossar isso.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Ao votar por Blair, você estará  a voltar as costas às centenas de milhares de crianças abandonadas à fome no  Iraque pela sua invasão e a de Bush. Em 30 de Março, a Comissão sobre Direitos  Humanos das Nações Unidas foi informada de que as taxas de desnutrição entre  crianças iraquianas com idade inferior a cinco anos havia quase duplicado desde  a invasão — o dobro do número de crianças famintas sob Saddam Hussein. O autor  do relatório à comissão, Jean Ziegler, um especialista da ONU sobre a fome,  afirmou que a culpa cabe à “coligação”.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Ao votar por Blair, você estará  a confirmar que os mentirosos triunfam. Blair é um mentiroso numa escala tão  épica que mesmo aqueles que ainda o protegem com eufemismos parlamentares, como  Robin Cook («Ele sabia perfeitamente bem o que estava a fazer. Penso que havia  uma falta de sinceridade») e o &lt;i&gt;Guardian&lt;/i&gt; e a &lt;i&gt;BBC&lt;/i&gt;, agora lutam para  aprimorar o seu perjúrio.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Examine-se a sua mentira mais  recente. No dia 13 Março, Jonathan Dimbleby perguntou a Blair sobre o memorando  de David Manning que veio à luz do dia, no qual Manning, o conselheiro de  política externa do primeiro-ministro, confirmava a Blair em Março de 2002 que  assegurara aos americanos que «você não mudaria de posição no seu apoio à  mudança de regime». Blair mentiu a Dimbleby dizendo que «realmente não dissera  aquilo como uma matéria de facto». Manning «[tornou] claro que o desenvolvimento  de ADMs [armas de destruição em massa] em infracção a resoluções das Nações  Unidas não mais seria tolerado».&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;A seguir estão as palavras que  Manning escreveu a Blair: «Eu disse [a Condoleezza Rice] que você não mudaria de  posição no seu apoio à mudança de regime mas você tinha de gerir uma imprensa,  um parlamento e uma opinião pública que eram muito diferentes [de] qualquer  coisa nos Estados Unidos». Não há qualquer menção, nada, acerca de resoluções  das Nações Unidas, ou armas de destruição em massa. &lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Ao votar por Blair, você  convidará a mais mentiras acerca de sustos terroristas na Grã-Bretanha de modo  que leis totalitárias possam ser promulgadas. «Tenho um horrível sentimento de  que nos estamos a afundar num Estado policial», disse George Churchill­‑Coleman,  o antigo chefe do esquadrão anti-terrorista da Scotland Yard. Tal como as falsas  razões para os tanques de Blair em torno de Heathrow na véspera da maior  demonstração anti­‑guerra da história britânica, assim qualquer coisa, qualquer  susto, qualquer detenção, qualquer “controle da ordem”, será possível.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Ao votar por Blair, você cairá  nas manipulações, no mito, do social reformismo e “realizações económicas” do  seu governo. A proibição da caça à raposa e a redução da idade da maioridade gay  são distracções políticas e mediáticas que nada contribuem para proteger uma  democracia social de ser despojada de liberdades antigas, tais como aquelas  inscritas na Magna Carta.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;A propaganda sensacionalista do  “boom” e do “crescimento” na Grã­‑Bretanha foram booms para os ricos e não para  as pessoas comuns. Com escassa atenção dos media, o governo Blair transferiu  serviços públicos no valor de milhares de milhões de libras para mãos privadas  sob o &lt;i&gt;private finance initiative&lt;/i&gt; (PFI). As “taxas” [“&lt;i&gt;fees&lt;/i&gt;”], ou  pagamentos por fora [&lt;i&gt;rake-off&lt;/i&gt;], para projectos PFI em 2006-2007 serão da  ordem dos 6,3 mil milhões de libras, mais do que o custo de muitos dos  projectos: um acto histórico de pirataria corporativa. Nem tão pouco está o novo  trabalhismo a “apoiar” o Serviço Nacional de Saúde e sim a privatizá-lo na  calada; em 2006-2007 os contratos privados aumentarão 150 por cento. Sob o  tesoureiro Gordon Brown, a Grã-Bretanha tem a distinção de ter criado mais da  metade dos paraísos fiscais do mundo, de modo que os semelhantes de Rupert  Murdoch sejam capazes de pagar impostos mínimos. “Crescimento” tem significado o  crescimento rápido do fosso entre ricos e pobres. O pagamento aos executivos de  topo aumentou 500 por cento ao passo que o crescimento médio dos rendimentos é  45 por cento.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Ao contrário das alegações de  Blair e Brown, a pobreza entre adultos em idade de trabalhar e sem filhos está a  aumentar. Em 2002-2003, o último ano para o qual há números disponíveis, 12,4  milhões de pessoas, ou 22 por cento da população, estavam a viver na pobreza.  Quanto ao mito do quase pleno emprego, a destreza deste governo em manipular  constantemente números permitiu, por exemplo, que os centros de emprego  reclassificassem trabalhadores como doentes de longo prazo ou incapacitados a  fim de cumprir objectivos de “redução” de desemprego. Tem de facto havido um  boom — em empregos inseguros, a tempo parcial e temporários, com poucos direitos  e fracas condições. Há 8,8 milhões de trabalhadores aprisionados neste  semi­‑mundo, muitos dos quais ficam felizes por obterem um par de dias de  trabalho pago por semana. Para britânicos das camadas médias, que acreditam  serem beneficiários do “boom”, há o espectro do endividamento pessoal — o qual,  sob os trabalhistas, está a crescer à taxa de 15 milhões de libras por hora, até  mesmo mais rapidamente do que nos EUA.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Pouco disto vem à tona para  discussão. Em 2005 temos uma eleição, não política; uma corte dos media, não  debate crítico. A verdadeira política é acerca de toda a humanidade, e da nossa  responsabilidade por aqueles que cometem crimes em nosso nome. Nem a reverência  pela santidade de um voto falsificado ou por uma falsa escolha — ou o menor mal  de um inexistente, sentimental, Partido Trabalhista pré­‑Blair — alterará isso.  Devemos essa verdade ao povo do Iraque, pelo menos.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18040584-112973802993881628?l=johnpilger.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://www.johnpilger.com/print/133445' title='Um absurdo na Grã-Bretanha: persuadir as pessoas de que têm uma escolha política'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112973802993881628'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112973802993881628'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://johnpilger.blogspot.com/2005/04/um-absurdo-na-gr-bretanha-persuadir-as.html' title='Um absurdo na Grã-Bretanha: persuadir as pessoas de que têm uma escolha política'/><author><name>IA</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18040584.post-112973789956247716</id><published>2005-04-14T17:01:00.000+01:00</published><updated>2005-10-19T18:26:29.796+01:00</updated><title type='text'>A queda de Saigão 1975: o relato de uma testemunha *</title><content type='html'>&lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Saigão, Abril de 1975. Ao  alvorecer eu estava acordado, estendido sob o meu colchão nos ladrilhos do chão,  fitando a minha cama apoiada contra a janela de estilo francês. A cama devia  servir para me proteger de estilhaços de vidro; mas se o hotel fosse atacado com  foguetes, a cama seguramente cairia sobre mim. Morto pela queda de uma cama:  isso de algum modo fazia sentido nisto, o último acto da mais longa e sinistra  farsa: uma guerra que sempre foi desnecessária, frequentemente atroz e que tinha  posto termo às vidas de três milhões de pessoas, deixando petrificada a sua  terra outrora generosa.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;A campanha há muita esperada,  dos legatários de Ho Chi Minh, para reunificar o Vietname tinha começado por  fim, mais de 20 anos depois da divisão “temporária” imposta em Genebra. No dia  de ano novo de 1975, o Exército Popular do Vietname (PAVN [nas siglas em  inglês]) circundou a capital da província de Phuoc Binh, a 75 milhas de Saigão;  uma semana mais tarde, a cidade era deles. Quang Tri, a sul da zona  desmilitarizada, e Phan Rang seguiram­‑se, e depois Bat Me Thout, Hue, Danang e  Qui Nhnon em sucessão rápida e com pouco derramar de sangue. Danang, em tempos a  maior base militar do mundo, foi tomada por uma dúzias de quadros da Frente de  Libertação do Vietname (a NLF, conhecido como o Vietcong pelos americanos)  acenando lenços brancos da traseira de um camião. Um fotografia da United Press  de um americano socando um “aliado” sul vietnamita em cheio na cara enquanto o  vietnamita tentava subir a bordo do último voo americano de Nha Trang para  Saigão detinha um certo simbolismo do que tinha acontecido antes.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Em meados de Abril, o fim  estava à vista à medida que a batalha por Xuan Loc se desenrolava 30 milhas a  noroeste de Saigão, a qual estava já ela própria cercada por tantas como 15  divisões do PAVN armadas com artilharia e mísseis térmicos. Em 20 de Abril, Xuan  Loc foi capturada pelo PAVN. Só Saigão restava.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Entre as fileiras de refugiados  que fugiam do combate estavam soldados amargados do exército do regime de Saigão  apoiado pelos EUA, cujo presidente e comandante­‑em­‑chefe, o general Thieu,  tinha reconhecido a sua derrota ao voar para Taiwan com uma fortuna em ouro. Em  27 de Abril, o general&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;Duong Van  (“Grande”) Minh foi eleito presidente pela Assembleia Nacional, com instruções  para encontrar um caminho para a paz. Tinha sido o “Grande” Minh quem, em 1963,  tinha ajudado a derrubar o ditador Ngo Dinh Diem e tinha procurado, com os seus  colegas oficiais, negociar um acordo de paz com o NLF. Quando os americanos  souberam disto despacharam Minh do cargo, e a guerra prosseguiu.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Eram agora oito horas;  apressei­‑me para a Praça Som Lam para beber um café urgentemente necessário.  Saigão tinha estado sob ataque de foguetes por duas noites. Um foguete tinha  cortado uma banda através de meio acre de casas minúsculas e empacotadas muito  juntas em Cholom, o bairro chinês, e a tempestade de fogo que se seguiu tinha  arrasado tudo. Havia pessoas que se mantinham de pé imóveis, como num retrato,  olhando para o ferro contorcido que era tudo o que restava das suas casas. Havia  poucos repórteres; os mísseis de ontem eram notícia, os primeiros a cair sobre  Saigão em uma década; os foguetes de hoje não eram. Um fotógrafo francês  cambaleava por entre o metal fundido, soluçando; puxou o meu braço e conduziu-me  a uma pira que tinha sido uma cozinha.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Perto havia uma criança, de  aproximadamente cinco anos, que ainda vivia. A pele do seu peito estava aberta  como uma página; os seus braços estavam estraçalhados e as suas mãos estavam  petrificadas à sua frente, uma voltada para baixo, outra voltada para cima. A  sua face ainda era reconhecível: tinha bochechas rechonchudas e olhos castanhos,  embora a sua boca estivesse queimada e os lábios tivessem desaparecido  completamente. Um polícia mantinha a mãe longe dela. Um escuteiro, com uma  braçadeira da cruz vermelha, remexeu o metal, arfou e tapou a sua própria cara.  O fotógrafo francês e eu ajoelhamo-nos ao lado dela e tentamos levantar­‑lhe a  cabeça, mas o cabelo dela estava preso ao ferro por argamassa transformada em  cera pelo calor. Esperámos meia hora, aprisionados neste incubo, mesmerizados  por um pequeno rosto, tentando dar­‑lhe água, até um maqueiro chegar.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;A seguir aos ataques, o  embaixador americano, Graham Martin, apareceu na televisão de Saigão e prometeu  que os Estados Unidos não sairiam do Vietname. Disse: «Eu, o embaixador  americano, não vou fugir a meio da noite. Qualquer um de vocês pode vir a minha  casa e verificar por si próprio que não fiz as minhas malas. Dou­­­‑lhes a minha  palavra». Último pró­‑cônsul americano do continente asiático, Martin era um  homem irascível e de vontade forte em privado. Também estava muito doente; a sua  pele estava escavada e coberta de pontos cinzentos de longos meses de pneumonia;  os seus discursos eram pesados e frequentemente embaciados pelos remédios que  tomava. Fumava continuamente, e as conversas com ele seriam interrompidas por  extensos ataques de tosse.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Descrever Graham Martin como um  falcão seria atribuir a essa ave qualidades de ferocidade que não tem. Durante  semanas tinha dito a Washington que o Vietname do Sul poderia sobreviver com um  “anel de ferro” em redor de Saigão suprido por B-52s voando em estafeta. Mas  Martin não podia ignorar completamente o que via; ele sabia que era sua tarefa,  e sua tarefa somente, presidir ao fim de um império que em tempos reclamara dois  terços da Indochina, pelo qual o seu próprio filho tinha morrido, nove anos  antes. Na embaixada americana, uma árvore, um dos muitos tamarindos imponentes  plantados pelos franceses um século antes, dominava o relvado e o jardim fora da  casa principal. O outro único espaço suficientemente grande para um helicóptero  aterrar tinha a piscina no meio dele, e o heliporto no telhado da embaixada fora  concebido apenas para os pequenos helicópteros Huey. Se uma evacuação de  helicóptero fosse requerida, apenas os helicópteros Chinook e Jolly Green Giant  dos marines seriam capazes de trasladar grandes quantidades de pessoas para a  Sétima Frota, 30 milhas ao largo, no decurso de um dia. A árvore era o último  bastião de Graham Martin. Tinha dito ao seu pessoal que assim que a árvore  caísse, o prestígio dos Estados Unidos cairia com ela, e ele não queria ter nada  a ver com isso.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Tom Polgar era a cabeça da  estação da CIA. Ao contrário de muitos dos seus predecessores, estava  inusitadamente bem informado e desesperava manifestamente com a teimosia do  embaixador. Quando Thieu se fechou&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;no  bunker abaixo do palácio presidencial por três dias e meio, recusando  demitir­‑se ou mesmo atender chamadas telefónicas, foi Polgar, juntamente com o  embaixador francês, Jean­‑Marie Merrillon, quem finalmente persuadiu Graham  Martin que devia intervir. Para Martin, a queda do presidente Thieu tinha­‑se  tornado como o corte da árvore da embaixada: uma questão de orgulho e de “face”,  para ele e para a América. O governo dos Estados Unidos tinha­‑se solenemente  comprometido com Thieu e o Estado do sul que tinha inventado; disse  frequentemente que o seu próprio filho tinha morrido para que o “Vietname do  Sul” de Thieu pudesse permanecer “livre”. Em 28 de Abril, a NLF ergueu uma  bandeira na ponte de Newport, a três milhas do centro da cidade. A monção tinha  chegado cedo e Saigon encontrava­‑se sob um céu de nuvens cinzentas; além do  aeroporto arcos longos e arqueados de relâmpagos e trovões chegavam em pequenas  salvas enquanto o presidente Minh se preparava para se dirigir ao que restava da  sua “república”. Permaneceu ao fundo do grande salão no palácio presidencial,  cheio de candelabros e de brocados de ouro, e falou com hesitação, como se mesmo  estivesse a fazer uma oração sem esperança. Falou sobre «os nossos soldados que  lutam com vigor» e apenas, pareceu, como um pensamento secundário apelou a um  cessar­‑fogo e a negociações. Quando acabou de falar, uma sucessão de aplausos  cobriu as suas últimas palavras; a guerra estava a terminar com um sentido fino  de teatro.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Caminhei rapidamente ao longo  de Tu Do, a principal rua da cidade, enquanto os relâmpagos se encaminhavam para  o centro da cidade. Meia dúzia de lojas tinham fechado desde o dia anterior,  tendo os seus donos saído para a pista de bowling e ginásio em Dodge City, o  nome de código para o velho centro de comando norte­‑americano no aeroporto de  Tan Son Nhut, onde pagaram uma consideravelmente por um lugar na fila de espera.  O alfaiate indiano do n.º 24 de Tu Do, “Austin’s Fine Clothes”, estava a contar  demoradamente os seus dólares e a amaldiçoar o seu rádio por não conseguir  apanhar as notícias da BBC World Service. Conhecia o alfaiate da Austin’s há  muito tempo, e a nossa relação tinha sido sempre de murmúrios e piadas furtivas,  envolvendo a passagem de uma nota verde, que era manuseada com os dedos,  dobrada, examinada e posta contra a luz, e a recepção de um saco cheio com as  melhores piastras vietnamitas britânicas (a maior exportação da Grã­‑Bretanha  para o Sul do Vietname eram notas de banco).&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;O trovão pulverizava a cidade  enquanto o alfaiate contava o seu dinheiro; tinha pelo menos 5.000 dólares na  gaveta, os ganhos do dia e da véspera, e o seu passaporte indiano projectava­‑se  do bolso da sua camisa. «Os comunistas respeitam os passaportes», disse, dando  palmadinhas no seu sem saber o que eles respeitavam. Disse que Saigão não cairia  pelo menos durante um mês, o que provocou o riso do seu assistente vietnamita,  que zumbia na sua máquina de costura por trás da cortina.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;O trovão tinha um novo som,  seco e metálico. Era fogo de armas. A cidade parecia estar a explodir com armas  de todo o tipo: armas pequenas, mosteiros, baterias anti­­aéreas. «Acho que  estamos a ser bombardeados», disse o alfaiate, que interrompeu a sua contagem  apenas para aumentar o volume do seu rádio, que estava sintonizado para a árida  hora de ouro das velhas canções, da Voz da América. Durante a meia hora seguinte  a própria loja parecia ser um alvo e eu assegurei­‑me que havia duas paredes  entre mim e a rua. O alfaiate, contudo, permanecia no seu posto e contava os  seus dólares enquanto a Voz da América tocava &lt;i&gt;Cherry Pink and Apple Blossom  White&lt;/i&gt;, que mal se ouvia acima do tiroteio. Era uma canção profundamente  tonta, mas cantei­‑a juntamente com o alfaiate, e provavelmente nunca esquecerei  as palavras. Num canto afastado, como um pássaro ferido, uma mulher vietnamita  idosa agarrava-se à parede, chorando e rezando. Um pau de incenso e uma caixa de  fósforos jaziam no chão à sua frente; não conseguia esfregar os fósforos porque  todo o seu corpo tremia de medo. Depois de várias tentativas fui capaz de  acendê­‑lo para ela, só então percebendo a intensidade do meu próprio medo.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;O barulho forte, incluído o  trovejar, parou, e havia então apenas um crepitar de pequenas armas de fogo.  «Graças aos senhores que nos bombardearam», disse o alfaiate, «o preço acaba de  subir mil piastras». Abriu as persianas de aço, olhou para fora e disse: «Ok,  corra!»&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Parecia que toda Saigão corria,  em espasmos de pânico controlado, silencioso. As minhas próprias pernas  derretiam, mas andaram como nunca tinham andado antes, e ganharam nova vida com  a irrupção de disparos à saída do café Bo Da. Um polícia militar, apoiado em  ambos os joelhos, varria o outro lado da rua, levando as pessoas a deitar-se ou  cair; ninguém gritava. Uma empregada de bar do Hotel Miramar, usando saltos  altos, colidiu com a caleira, ferindo gravemente as suas pernas e face. Ficou  deitada quieta, segurando a bolsa sobre a nuca. Na esquina afastada, oposta ao  Hotel Caravelle e à saída de uma galeria especializada em horríveis pinturas  juvenis instantâneas, um polícia pulverizada o céu com a sua espingarda M-16.  Havia um homem deitado ao seu lado, com a bicicleta afivelada em torno de  si.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Saigão estava agora a “cair”  perante os nossos olhos: a Saigão engordada e alimentada intravenosamente pelos  Estados Unidos, então declarada um caso terminal; capital da única sociedade  consumista do mundo que nada produzia; quartel­‑general do quarto maior exército  do mundo, o ARVN, cujos soldados estavam agora a desertar ao ritmo de mil por  dia; e centro de um império que, ao contrário do império prévio dos franceses  que vieram para pilhar, nada esperava dos seus súbditos, nem borracha nem arroz  nem tesouros (não havia petróleo), apenas aceitação dos seus “interesses  estratégicos” e gratidão pelas suas manifestações asiáticas: Coca­‑Cola e  Napalm.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;À uma da manhã, Graham Martin  convocou uma reunião dos funcionários superiores da embaixada para anunciar que  tinha falado com Henry Kissinger, que lhe tinha dito que o embaixador sovético  em Washington, Anatoly Dobrynin, tinha prometida passar a sua (de Kissinger)  mensagem a Hanoi pedindo um acordo negociado com o governo do presidente Minh.  Martin disse que Kissinger esperava que os russos poderiam organizar isto. Disse  que queria que a evacuação por avião de asa fixa continuasse tanto tempo quanto  possível, talvez por 24 horas. Pouco passava das quatro horas da manhã quando  montes de foguetes caíram sobre o aeroporto Tan Son Nhut, seguidos por uma  barragem de artilharia pesada. A espera tinha terminado; a batlha por Saigão  tinha começado. O sol ergueu-se como um fundo vermelho esbatido para os rastros  dos projécteis.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Um helicóptero armado explodiu  e caiu lentamente, com as suas luzes ainda piscando. A leste, nos subúrbios,  havia fogo de morteiro, o que significava que a NLF estava na própria Saigão,  movendo­­‑se em linha quase recta para a embaixada. Um encontro às seis da manhã  entre Martin e os seus funcionários superiores foi, disse um dos participantes,  «um desastre». Todos, excepto Martin, concordavam que deviam começar a evacuação  imediatamente. Martin disse não, não «fugiria», e anunciou para horror geral que  guiaria o carro ele próprio para Tan Son Nhut a fim avaliar a situação  pessoalmente. Havia pouco mais do que uma suspeita entre o pessoal da embaixada  de que o último procônsul do império poderia, poderia só, ter planos para  incendiar Roma. Quando a reunião terminou em confusão, Polgar ordenou que o  grande tamarindo fosse abatido.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Os cortadores de árvores  reuniram­‑se, como homens da Marlboro um pouco gordos. Estes eram os homens que  fariam cair o grande tamarindo; um grupo considerável de funcionários da CIA,  antigos homens das forças especiais (os boinas verdes) e uma variedade de  antigos soldados fornecidos por duas companhias com base na Califórnia para  proteger a embaixada. Empunhavam armas que poderiam deliciar os coleccionadores,  incluindo metralhadoras e pistolas adornadas e obsoletas, e uma variedade de  facas. Contudo, compartilhavam de uma característica: caminhavam com um ar de  superioridade que era puro cowboy: pernas ligeiramente arqueadas, mão direita  livre ao longo do flanco, com os dedos virados para dentro e de vez em quando  dando palmadinhas no coldre. Estavam munidos de machados e serras eléctricas, e  as secretárias da embaixada traziam­‑lhes cerveja e sanduíches. Cortavam a  árvore do embaixador sem o consentimento do embaixador.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Ao mesmo tempo, uma frota de  carros e camiões tinha estacionado no mercado no exterior do Jardim Botânico e  do Jardim Zoológico, e rapidamente descarregaram a sua carga: bifes congelados,  costelas de porco, sumo de laranja, grandes jarros de pickles e cerejas  maraschino, caixotes de manteiga de feijão enlatada e manteiga de amendoim  Chunkie, bolos Sara Lee, cerveja Budweiser, Seven­‑Up, pastilha elástica  Wrigley, cigarros com ponta de plástico Have-A-Tampa, e mais, tudo isso pilhado  do comissariado de Saigão, que tinha sido abandonado pouco depois de uma unidade  de sapa da NLF ter entrado em fila indiana através da porta das traseiras. Para  os habitantes Saigão, roubar dos seus mentores e patronos tinha­‑se tornado algo  como uma obrigação cultural, e havia uma atmosfera carnavalesca e muita alegria  quando os bifes mais macios eram vendidos&lt;span style=""&gt;   &lt;/span&gt;por alguns centavos. Uma carrinha descarregou uma máquina de lavar­ louça  e um refrigerador de água foi vendido rapidamente e levado num triciclo; a&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;máquina de lavar­ louça era da marca Blue  Swan e na sua caixa estava o lema da Blue Swan: «Só o melhor está certo para os  nossos clientes». A máquina de lavar­ louça foi tirada da sua caixa e deixada na  rua. Duas horas depois ainda lá estava, não vendida e despida de peças vitais,  um monumento desolado à indústria do consumo no Vietname.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Saigão estava agora sob um  recolher obrigatório de 24 horas, mas havia gente nas ruas, e alguns deles eram  soldados da 18ª Divisão do ARVN que tinha combatido bem em Xuan Loc, na Estrada  Um. Tínhamos estado à espera deles e aguardando os primeiros sinais da sua raiva  à medida que viam os norte­‑americanos a preparar­‑se para deixá­‑los à sua  sorte. Nessa manhã, quando primeiro apareceram no centro da cidade, eles  meramente ficaram de olho nos estrangeiros, ou os roubaram, ou dispararam para o  ar para aliviar a sua frustração.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Caminhei de volta para o Hotel  Caravelle onde encontraria Sandy Gall da Independent Television News (ITN); ele  e eu éramos os “directores da evacuação” para a Imprensa NPT [TCN Press, em  inglês], o que queria dizer Nacionais de Países Terceiros, o que queria dizer  qualquer um que não fosse norte­‑americano ou vietnamita. Durante alguns dias  Gall e eu tínhamo­‑nos preocupado com a tarefa supremamente excêntrica de tentar  organizar aqueles representantes da imprensa britânica, canadiana, italiana,  alemã, espanhola, argentina, brasileira, holandesa e japonesa que queriam ser  evacuados. A embaixada norte­‑americana tinha distribuído uma brochura de 15  páginas chamada SAFE, nome curto de “Standard Instruction and Advice to  Civilians in na Emergency”. A brochura incluía um mapa de Saigão assinalando  «áreas de reunião onde um helicóptero o recolherá». Havia uma página intercalada  que dizia: «Note o sinal de evacuação. Não revele a outro pessoal. Quando a  evacuação for ordenada, o código será lido na Rádio das Forças Americanas. O  código é: A TEMPERATURA EM SAIGÃO É DE 112 GRAUS E ESTÁ A AUMENTAR. ISTO SERÁ  SEGUIDO PELA APRESENTAÇÃO DE I’M DREAMING A WHITE CHRISTMAS».&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Os jornalistas japoneses  estavam preocupados por não serem capazes de reconhecer a melodia e indagaram se  alguém poderia cantá­‑la para eles. No Caravelle, Gall e eu tínhamos nomeado  directores de andar que, ao primeiro sinal de «yuletide snow» em Saigão, se  assegurariam que jornalistas que estivessem enfermos, surdos, a dormir,  confinados numa casa­ de ­banho ou a uma relação, não seriam deixados para trás.  Havia mais do que um módico interesse pessoal neste arranjo; eu tinha, e tenho,  uma angústia que me fez chegar atrasado a praticamente qualquer evento sério na  minha vida.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Dois avião Hércules C-130 da  base da força aérea de Clark nas Filipinas voavam sobre Tan Son Nhut.  Ordenaram­‑lhes que não aterrassem. Batedores enviados para o perímetro do  aeroporto relataram que dois pelotões de infantaria da PAVN tinham reforçado os  sapadores no cemitério a uma milha de distância; um piloto sul­‑vietnamita tinha  aterrado o seu caça F-5 na pista e tinha­‑o abandonado com o seu motor ligado; e  um jipe carregado do ARVN arremetia contra um dos seus C-130 enquanto tentava  descolar. «Há uns três mil civis em pânico na pista», disse o general Homer  Smith na VHF. «A situação parece fora de controle».&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Graham Martin, sozinho no seu  escritório, viu a árvore cair e ouviu o seu chefe da estação da CIA gritar  “madeiraaaa!” Quando Kissinger telefonou pouco depois, em concordância com a  decisão do presidente Ford de que o embaixador norte­‑americano devia tomar a  decisão final sobre a evacuação, ouviu pacientemente um exausto e aflito Graham  Martin. Às 10:43 da manhã, foi dada a ordem para «avançar com a Opção Quatro» (a  evacuação de helicóptero; as outras opções teriam envolvido evacuação por mar ou  por ar). Mas Martin permaneceu firme na crença de que havia “tempo ainda” para  negociar um “acordo honrado”.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;O Caravelle esvaziou­‑se sem o  conhecimento da Junta de Direcção não oficial dos NPT. Ninguém me disse. Bing  Crosby não tinha cantado no meu rádio. Quando me levantei, os quartos pareciam o  Marie Celeste [1], com roupas, papéis, escovas de dentes abandonados. Corri para  o meu quarto, recolhi a minha máquina de escrever, o rádio e as notas e meti­‑os  dentro de um pequeno saco; o resto deixei. Dois empregados de quarto chegaram e  viram o meu pânico frenético, estupidificados e ligeiramente receosos. Um  perguntou­: «Está de saída, senhor?» Eu disse que sim, numa maneira de dizer.  «Mas a sua roupa para lavar só voltará à noite, senhor». Tentei não olhar para  ele. «Por favor...fique com ela...e também tudo o resto que vê». Pus um monte de  piastras nas suas mãos, sabendo que estava a comprar a sua deferência face à  minha saída sem graça. Após nove anos, que maneira de sair. Mas que eu queria  sair, não havia dúvida; já tinha tido a minha conta da guerra.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Lá fora, a praça Lam Son estava  vazia, excepto por alguns soldados do ARVN encostados nos portais e na sarjeta.  Um deles caminhou vigorosamente por Tu Do acima, gritando para mim; estava  embriagado. Tirou o seu revólver do coldre, pousou­‑o num braço trémulo, apontou  e disparou. A bala passou por cima da minha cabeça enquanto corria. Uma multidão  estava a pressionar no portão da embaixada norte­‑americana; alguns eram  meramente os curiosos que tinham vindo ver o Dunquerque aéreo dos  norte­‑americanos, mas havia muitos que agarravam as áridas barras, rogavam à  guarda de marines para os deixar entrar e acenavam com papéis selados com cera e  cartas de responsáveis norte­‑americanos. Um ancião tinha uma carta de um  sargento que há muito tempo tinha dirigido o bar no clube de oficiais da Força  Aérea em Pleiku. O ancião costumava lavar pratos lá, e a sua nota do sargento,  datada de 5 de Junho de 1967, dizia: «O sr. Nha, o portador desta carta, serviu  fielmente a causa da liberdade na República do Vietname». O Sr. Nha também  apresentou uma estrela de Ranger do Texas de brinquedo que um dos pilotos em  Pleiku lhe tinha dado. Acenou a carta e a estrela de Ranger do Texas de  brinquedo ao guarda dos marines que estava a gritar à multidão. «Agora por favor  não entrem em pânico... por favor!» Tanto quanto se podiam lembrar, a estas  pessoas, que trabalharam para os norte­‑americanos, tinha­‑lhes sido dito para  temerem os comunistas; agora estavam a dizer­‑lhes, com os comunistas no seu  quintal, que não deviam entrar em pânico.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;O ancião tentou deslizar pela  abertura no portão e foi empurrado para o chão pelo marine que lhes estava a  dizer para não entrarem em pânico. Ele levantou­‑se, tentou outra vez e foi  placado por um segundo marine que o impeliu para fora com a coronha da sua  carabina e arremessou o crachá de Ranger do Texas sobre as cabeças da  multidão.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Dentro do recinto da embaixada  os marines e os cowboys estavam em pé em torno do tronco do grande tamarindo.  «OK, digam­‑me o que vamos fazer acerca deste bastardo inamovível?» disse um dos  cowboys para o seu walkie­‑talkie. «Tem calma, Jed», veio uma resposta  inaudível, «só tu e os rapazes abaixem­‑na pelo menos 30 centímetros, para que  haja espaço para as hélices. E Jed, remove essas aparas, ou de certeza vão ser  sugadas para os motores». Assim, os marines e os cowboys continuaram a brandir  os seus machados no tronco, mas com tal crescente frustração e incompetência que  os seus cortes se tornaram num entretenimento tanto para aqueles que estavam  dentro como para os que estavam fora no portão, e para os sorridentes guardas  franceses no alto muro da embaixada francesa ao lado.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Há na linguagem vietnamita, que  é muito dada à poesia e à ironia, um ditado que diz que «só quando a casa arde é  se vê o focinho dos ratos». Aqui estava o Dr. Phan Quang Dan, antigo adjunto do  primeiro­‑ministro e ministro responsável pela segurança social e a pela  reinstalação de refugiados, um homem visto por Washington e pelo embaixador  Martin como a encarnação do verdadeiro espírito nacionalista do Vietname do Sul.  Um anti­‑comunista obssessivo que estava constantemente a fazer discursos  exortando os seus compatriotas a levantar­‑se e lutar, o Dr. Phan Quang Dan  estava acompanhado pela sua esposa roliça que sufocava sob um casaco de peles e  por um pelotão de carregadores de malas cujas malas nunca saíam da sua  vigilância. A “gente bonita” de Saigão também estava ali, incluindo aqueles  jovens de idade militar cujos pais ricos tinham pago grandes subornos a fim de  os manter fora do exército. Embora estivessem alistados como soldados ao serviço  de alguma unidade, nunca se tinham apresentado ao serviço e os seus oficiais de  comando muito provavelmente metiam ao bolso os seus salários. Eram chamadas  “soldados fantasma” e continuaram a levar uma boa vida em Saigão: nos cafés, nas  suas Hondas, na borda da piscina do Círculo Desportivo, enquanto os filhos dos  pobres lutavam e morriam em Quang Tri, Na Loc, e todos os outros lugares.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;«Prestem atenção, sou eu...  deixem­‑me entrar, por favor... muito obrigado...olá, sou eu!». A voz aguda  atrás da multidão fora do portão pertencia ao tenente­‑general Dang Van Quang,  encarado pelos seus concidadãos e por muitos norte­‑americanos como um dos  maiores e ricos especuladores no Vietname do sul. O guarda dos marines tinha uma  lista de pessoas que poderia deixar entrar, e o general Quang estava nela. Com  grande cuidado, o guarda ajudou o general Quang, que era muito gordo, a passar  sobre as barras de 4,5 metros e depois recuperaram as suas três malas Samsonite.  O general estava tão aliviado por estar dentro que se afastou, deixando o seu  filho de 20 anos a lutar desesperadamente na multidão. Havia dois maços de  dólares que saíam do bolso do peito do casaco do general. Quando lhos apontaram,  empurrou-os de volta para dentro, e riu­‑se. Para os norte­‑americanos, o  general Quang era conhecido como “Risinhos” e “General Gorducha”. Entre os  norte­‑americanos no recinto da embaixada havia um espírito festivo.  Acocoravam­‑se no relvado à volta da piscina com champanhe em baldes de gelo  pilhados do restaurante da embaixada, e divertiam­‑se à grande; um homem com um  chapéu de cowboy pulverizou espuma noutro e havia cantigas joviais por dois  mecânicos de avião, Frank e Elmer. Uma e outra vez cantaram ao ritmo da melodia  “The camp town races”.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;Nós voltamos a casa como  pássaros da liberdade&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;&lt;span style="" lang="EN-GB"&gt;Doo dah, doo dah;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;Não voltamos a casa em sacos de  plástico,&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style="" lang="EN-GB"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Oh doo dah day.&lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;«Foi aqui que cheguei ao fim de  dez anos», disse Warren Parker quase em lágrimas. «Vê aquele homem ali? É um  oficial da Polícia Nacional... não é melhor do que um torturador». Warren Parker  tinha sido, até essa manhã, cônsul dos Estados Unidos em My Tho, no Delta, onde  me tinha encontrado com ele uma semana antes. Era um homem pacato, quase tímido,  que tinha passado 10 anos no Vietname tentando “aconselhar” os vietnamitas e  interrogando­‑se porque é que muitos deles não pareciam querer o seu conselho.  Ele e eu furamos para entrar no restaurante ao lado da piscina passando por um  homem que dizia «Vietnamitas aqui não, vietnamitas não», onde saqueámos uma  garrafa fresca de vinho Taylor New York, rosa e doce. Os copos já tinham ido,  por isso bebemos da garrafa. «Digo‑lhe uma coisa», disse no seu suave acento da  Georgia, «se alguma vez houve um momento da verdade para mim, é hoje. Todos  estes anos estive lá, fazendo um trabalho para o meu país e por este país, e  hoje tudo o que posso ver é que fomos bem sucedidos em separar todas as boas  pessoas da escumalha, e nós ficamos com a escumalha».&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Às 15:15, Graham Martin saiu a  passos largos do elevador da embaixada, através da sala de entrada, entrando no  recinto. Os grandes helicópteros, os Jolly Green Giants, ainda não tinham  chegado e o toco do tamarindo não estava visivelmente mais curto, apesar dos  furiosos cortes e serrações dos marines e cowboys. O cadillac de Martin estava à  sua espera e, com pessoal da embaixada olhando em choque, o cadillac dirigiu­‑se  para o portão, que estava agora sob cerco. O marine no portão não podia  acreditar no que os seus olhos viam. O cadillac parou, o marine levantou os seus  braços no ar e o cadillac inverteu a marcha. O embaixador saiu e irrompeu,  passando pelo toco e pelos cowboys. «Vou caminhar uma vez mais para a minha  residência», exclamou. «Caminharei livremente nesta cidade. Deixarei o Vietname  quando o presidente me disser para o deixar». Deixou a embaixada por uma entrada  lateral, forçou a sua passagem por entre a multidão e caminhou os quatro  quarteirões até à sua casa. Uma hora e meia mais tarde regressou com o seu  poodle, Nitnoy, e o seu empregado doméstico vietnamita.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Quando o primeiro helicóptero  Chinook fez a sua precária aterragem, as suas hélices talharam uma árvore, e os  ramos quebrados soavam como disparos. «Baixem­‑se! Baixem­‑se!», gritou um cabo,  sob o efeito de methedrine [uma metanfetamina pura], à linha de pessoas  agachadas contra a parede, esperando a sua vez para serem evacuadas, até que um  oficial veio e o acalmou. A capacidade do helicóptero era 50, mas levantava com  70. A perícia do piloto tirava o fôlego enquanto subia verticalmente a 60  metros, com balas silvando contra as hélices e documentos rasgados da embaixada  revoando no ar. Contudo, nem todos os documentos da embaixada estavam rasgados e  alguns foram deixados no recinto em sacos de plástico abertos. Tenho um deles.  Está datado de 25 de Maio de 1969 e nele se pode ler: «Top Secret (...)  memorando de John Paul Vann, contrainsurreição (...) 900 casas na província de  Chau Doe foram destruídas por ataques aéreos americanos sem provas de que um só  inimigo tenha sido morto. A destruição desta aldeola por fogo americano amigo é  um acontecimento que será sempre lembrado e nunca perdoado pela população  sobrevivente...»&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Do agitado incinerador no  telhado da embaixada chovia dinheiro. Era difícil acreditar nos meus olhos. O  irreal e o real fundiam­‑se. Do céu vinham notas de 20, 50 e 100 dólares. Muitas  estavam queimadas; algumas não estavam. Os vietnamitas que esperavam em torno da  piscina não podiam acreditar nos seus olhos; antigos ministros e generais e  torturadores lutavam pela sua indemnização por despedimento que vinha do céu. Um  funcionário da embaixada disse que mais de cinco milhões de dólares estavam a  ser queimados. «Todos os cofres da embaixada foram esvaziados e fechados de  novo», disse um funcionário, «para enganar os &lt;i&gt;gooks&lt;/i&gt; quando tivermos  partido».&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Pelo menos um milhar de pessoas  estavam ainda no interior da embaixada, esperando ser evacuadas, embora a  maioria da celebridades, como “Risinhos” Quang, tenham entrado nos primeiros  helicópteros; os restantes esperavam passivamente, como que atordoados. Dentro  da embaixada propriamente dita havia espuma de champanhe sobre as secretárias  polidas, enquanto vários dentre o pessoal da embaixada tentavam sistematicamente  destruir os seus próprios gabinetes: espatifando refrigeradores de água,  esvaziando garrafas de uísque nas carpetes, arrancando fotografias das paredes.  Num escritório do terceiro andar uma fotografia do falecido presidente Johnson  foi atirada para um cesto de papéis, enquanto uma citação emoldurada de Lawrence  da Arábia foi deixada na parede. A citação dizia: «É melhor deixá­‑los fazer  imperfeitamente, do que fazê­‑lo perfeitamente tu próprio, pois é o seu país, a  sua guerra, e o teu tempo é curto».&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;A meia-noite aproximava­‑se. O  recinto da embaixada estava iluminado pelos faróis de carros da embaixada, e os  Jolly Green Giant levavam agora 90 pessoas cada um. Martin Garrett, o chefe de  segurança, juntou todos os americanos que restavam. O vietnamitas que esperavam  sentiram o que se estava a passar e um coronel dos marines apareceu para lhes  assegurar que o embaixador Martin tinha dado a sua palavra de que seria o último  a partir. Era uma mentira, evidentemente. Eram 02:30 de 30 de Abril quando  Kissinger telefonou a Martin e lhe disse para terminar a evacuação às 03:45.  Meia hora depois Martin apareceu com uma pasta, uma mala e a bandeira americana  dobrada num saco. Subiu em silêncio ao sexto andar onde um helicóptero esperava.  «Lady Ace 09 está no ar com Code Two». “Code Two” era o código para um  embaixador norte­‑americano. O rápido anúncio no circuito restrito queria dizer  que a invasão norte­‑americana da Indochina tinha terminado. Enquanto o seu  helicóptero sobrevoava a Estrada Um, o embaixador podia ver as luzes dos camiões  do Exército Popular do Vietname, esperando.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Os últimos marines chegaram ao  telhado e dispararam latas de gás lacrimejante para a escadaria. Podiam ouvir os  vidros a quebrar e as tentativas desesperadas dos seus antigos aliados para  forçar a abertura dos cofres vazios. Os marines estavam exaustos e a começar a  entrar em pânico; o último helicóptero ainda tinha de chegar e já passava bem da  alvorada. Três horas mais tarde, quando o sol abrasava uma cidade expectante,  tanques arvorando as cores da NLF entraram no centro de Saigão. As suas  tripulações jubilantes não mostraram ameaça, nem dispararam um único tiro. Foram  corteses e estavam estupidificados; um deles desceu, abriu um mapa sobre o seu  tanque e perguntou a transeuntes espantados, «Por favor, dirijam­‑nos para o  palácio presidencial. Não conhecemos Saigão, não temos estado aqui há algum  tempo». Os tanques passaram ruidosamente pela praça Lam Som, ao longo de Tu Do,  subiram passando pela catedral e, após terem feito uma pausa para que a bandeira  revolucionária nas suas torras pudesse apanhar a brisa, bateram contra os  portões ornados do palácio presidencial onde o “Grande” Mihn e o seu governo  estavam à espera para se renderem. Nas ruas lá fora, botas e uniformes jaziam em  pilhas arrumadas onde soldados do ARVN se tinham despido deles e se tinham  fundido com a multidão. Não houve “banho de sangue”, como aqueles que pouco  sabiam acerca dos vietnamitas tinham predito. Com o invasor expulso, este país  extraordinário era de novo uma nação, como a conferência de Genebra tinha dito  que tinha direito há tantos anos perdidos. A mais longa guerra do século 20  tinha terminado.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;______&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;* Resumo de John Pilger,  &lt;i&gt;Heroes&lt;/i&gt;, Vintage Books, Londres; publicado pela primeira vez em 1975.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;[1] O Marie Celeste foi um  bergantim do século dezanove, encontrado à deriva sem tripulação, sem sinais de  violência ou qualquer outra explicação plausível,&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;perto da costa de Portugal, em 1872. Para  mais pormenores ver Mathias Carvalho, O mistério do Marie Celeste.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18040584-112973789956247716?l=johnpilger.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://pilger.carlton.com/print/133444' title='A queda de Saigão 1975: o relato de uma testemunha *'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112973789956247716'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112973789956247716'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://johnpilger.blogspot.com/2005/04/queda-de-saigo-1975-o-relato-de-uma.html' title='A queda de Saigão 1975: o relato de uma testemunha *'/><author><name>IA</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18040584.post-112973765742500589</id><published>2005-03-17T16:59:00.000Z</published><updated>2005-10-19T17:00:57.430+01:00</updated><title type='text'>Outro sangue nas suas mãos</title><content type='html'>&lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Enquanto os defensores da  aventura assassina de Bush e Blair no Iraque vêem um “forro de prata” nos  pseudo­‑acontecimentos do Médio Oriente, os verdadeiros acontecimentos na  Colômbia iluminam a natureza universal da sua “missão”. Os últimos contam­‑nos  uma história horrenda que, se se qualificasse como notícia, seria provavelmente  reportada como uma tragédia cujas vítimas «pagaram o preço da cocaína com  sangue». Foi assim que o &lt;i&gt;London Observer&lt;/i&gt; em 13 de Fevereiro representou o  sofrimento da Colômbia, o que é típico da maior parte da imprensa  norte­‑americana e europeia, com um ministro dos negócios estrangeiros  assegurando­‑nos que as mágoas da Colômbia podiam todas ser atribuídas às  drogas; e que o presidente da Colômbia «educado em Oxford», Alvaro Uribe, estava  a «tentar dominar os elementos fora­‑da­‑lei do exército»; além disso, o governo  britânico estava a ajudá­‑lo na sua nobre causa. Quanto ao envolvimento militar  colossal dos Estados Unidos na Colômbia, conhecido como “Plano Colômbia”, cujas  despesas se situam logo atrás dos milhões despendidos no Iraque e em Israel,  esse era meramente «controverso» e «apontado a erradicar o comércio [das  drogas]...». Quanto a Bill Rammel, o subsecretário do ministro dos negócios  estrangeiros responsável, parece, pela maior parte do planeta, o &lt;i&gt;Observer&lt;/i&gt;  informou que ele tinha identificado uma questão moral na Colômbia. Para as  classes humanitárias inglesas, disse Busy Bill, fungar cocaína «devia ser  socialmente tão tabu como beber uma garrafa de vinho sul­­‑africano durante o  &lt;i&gt;apartheid&lt;/i&gt;».&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Busy Bill esteve em Pyongyang  não há muito tempo, dizendo aos norte­‑coreanos que não estava certo que eles  tivessem armas nucleares. Que o seu próprio governo estivesse armado até aos  dentes com armas nucleares era, evidentemente, irrelevante. Antes disso, Busy  Bill dizia­‑me, numa entrevista no Ministério dos Negócios Estrangeiros, que as  ilhas Chagos no Oceano Índico, cuja população inteira tinha sido brutalmente e  ilegalmente expulsa da sua terra natal por governos britânicos, não poderia  voltar porque estariam sob o risco mortal devido à «subida do mar». Quando o  maremoto atacou no Dia de Santo Estêvão, poupou as Chagos – como os  norte­‑americanos sabiam que aconteceria: foi por isso que conspiraram com os  britânicos para expulsar os habitantes e construir uma imensa base militar no  que a marinha dos EUA chama «as soberbas, seguras e excepcionais condições  ambientais» em Diego Garcia, a ilha principal.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Deixemos Busy Bill por um  momento e voltemos à Colômbia. Em 21 de Fevereiro, segundo testemunhas, soldados  da 17ª Brigada do Exército Colombiano entraram na Comunidade de Paz de San José  de Apartado, no noroeste do país. A comunidade não tem alianças políticas e é  internacionalmente famosa e “protegida” pelo Tribunal Inter­‑americano dos  Direitos Humanos. De acordo com as declarações das testemunhas, os soldados  sequestraram e assassinaram oito civis, incluindo três jovens crianças e uma  rapariga adolescente, que foram retalhados até à morte com &lt;i&gt;machetes&lt;/i&gt;.  Entre eles estavam Luis Eduardo Guerra, o chefe da comunidade, a sua companheira  Bellanira e o seu filho Deiner; Guerra era admirado como um notável humanitário  e conciliador. Desde 1997, a sua gente sofreu mais de 130 assassinatos; não  houve condenações.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;As Nações Unidas exigiram uma  investigação; os Estados Unidos exigiram uma investigação; e assim o fez o  Ministério dos Negócios Estrangeiros. Se o passado for um guia, os últimos dois  estarão confiantes de que este último horror se dissipe e a fachada da Colômbia  possa ser erguida de novo. Pois tal como Bush e Blair estão ensopados de sangue  no Iraque, também o estão na Colômbia.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;O exército e a polícia da  Colômbia têm o pior registro de direitos humanos no hemisfério ocidental. Que o  governo de Uribe «educado em Oxford» seja algo melhor que o dos seus  predecessores e que as drogas por si sós sejam a causa de mais de 20.000  assassinatos em cada ano é uma ficção promovida em Washington e Londres. Ninguém  duvida que as FARC, o grupo de guerrilha de base camponesa, traficaram cocaína,  mas a esmagadora maioria do comércio de drogas e da violência na Colômbia são da  responsabilidade do Estado, dos seus militares e para­militares, financiados e  treinados, directamente e indirectamente, pelos governos norte­‑americano e  britânico. Além disso, o tema da cocaína é uma distracção: o combustível do  conflito, não a causa. As vítimas são pessoas como Luis Eduardo Guerra e a sua  família, e activistas sindicais, professores, defensores da reforma agrária,  indígenas e chefes camponeses que trabalham para promover a justiça social e  económica e os direitos humanos. No seu estudo sobre a política externa  britânica, &lt;i&gt;Unpeople&lt;/i&gt;, o historiador Mark Curtis escreveu: «A guerra na  Colômbia é essencialmente sobre o controlo dos recursos numa sociedade  profundamente injusta: a elite, especialmente os grandes proprietários,  controlam a maioria da riqueza enquanto a maioria da população vive na pobreza.  O papel básico do Estado é marginalizar as forças populares e assegurar que os  recursos da Colômbia – nomeadamente o petróleo – permaneçam nas mãos certas. A  estratégia [estado­‑unidense e britânica] é apoiar isto... A “guerra às drogas”  é uma cobertura».&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Esquadrões da morte ligados aos  governos colombianos têm sido tão bem sucedidos em expulsar as pessoas das suas  quintas que 76 por cento da terra é agora controlada por uma elite de menos de  três por cento da população. Dadas as ligações íntimas entre os militares e os  paramilitares, diz Douglas Stokes da Universidade de Aberystwyth, «a ajuda  militar dos EUA vai directamente para as maiores redes terroristas em toda a  Colômbia, que traficam cocaína para o mercado dos EUA para financiar as suas  actividades».&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;O governo de Blair, juntamente  com outros governos europeus pressionados pelos Estados Unidos, recusa­‑se a  dizer exactamente onde a maioria dos milhões de libras de “ajuda relacionada com  a droga” dos seus contribuintes à Colômbia acaba. «Não damos detalhes de todo o  apoio», diz Bill Rammel, «nem de unidades específicas a quem fornecemos  assistência, pois fazê­‑lo poderia reduzir a sua eficácia e potencialmente pôr  em risco o pessoal do Reino Unido envolvido». Percebemos o seu sentido. O seu  predecessor, Keith Vaz, era menos tímido. «Devemos dar tanto apoio quanto  possível ao governo do presidente Pastrana», disse em Janeiro de 2000. Leiam os  relatórios sobre a ligações assassinas do regime de Pastrana e certamente  perceberão o seu sentido. Quanto a Uribe, a propaganda do governo de Blair é que  ele tem um currículo «impressionante» na «contenção do crime e da violência».  Querem dizer que permitiu à polícia colombiana, aos militares e aos  paramilitares “pacificar” as cidades e fazer secções da classe média colombiana  sentirem­‑se mais seguras. Ninguém vê o que eles fazem fora dos subúrbios. No  primeiro ano de Uribe como presidente, houve quase 7.000 assassinatos políticos  e “desaparecimentos”, pior do que a média durante os quatro anos de  Pastrana.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Reflectindo a linha da União  Europeia inspirada nos norte­‑americanos, Rammel tem vindo a promover o regime  de Uribe, e as suas omissões são muitas, tais como o facto de os químicos  utilizados em transformar coca em cocaína virem todos dos EUA e da Europa, e que  significativos investimentos britânicos no petróleo e violações dos direitos  humanos são dois lados da mesma moeda, com a BP protegida pelo exército  colombiano, e a companhia do oleoduto, na qual é grande accionista, investigada  pelos suas reportadas ligações com uma notória brigada do exército. É tal a  ameaça patrocinada pelo Estado na Colômbia que organizações não governamentais  britânicas, juntamente com as suas parceiras colombianas, estão sob constante  risco. «Instamos regularmente o governo colombiano», diz Busy Bill, «a apoiar e  proteger o seu trabalho...».&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Os assassinos de Luis Eduardo  Guerra e outros sete, incluindo crianças, devem estar a tremer.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18040584-112973765742500589?l=johnpilger.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://pilger.carlton.com/print/133426' title='Outro sangue nas suas mãos'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112973765742500589'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112973765742500589'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://johnpilger.blogspot.com/2005/03/outro-sangue-nas-suas-mos.html' title='Outro sangue nas suas mãos'/><author><name>IA</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18040584.post-112973754669781363</id><published>2005-03-03T16:57:00.000Z</published><updated>2005-10-19T16:59:06.706+01:00</updated><title type='text'>Proteger um regime com sangue nas suas mãos</title><content type='html'>&lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Há quase oito anos atrás, o  coro do liberalismo britânico celebrou a nova era. Tony Blair, escreveu o  pensador liberal Hugo Young, «quer criar um mundo que nenhum de nós conheceu»,  um mundo em que «a ideologia se rendeu inteiramente aos “valores” [e onde] não  há vacas sagradas... nem limites fossilizados no terreno sobre o qual a mente  poderia estender­‑se em busca de uma melhor Grã­‑Bretanha». As mentes  embrutecidas estenderam­‑se até longe. Num artigo de estilo  mais­‑harmonioso­‑do­‑que­‑tú para o &lt;i&gt;The Guardian&lt;/i&gt;, Martin Kette declarou  Blair, de modo hilariante, um australiano honorário. «Ele não tem receio do  passado», escreveu. «Não é intimidado pela classe. Ele é um meritocrata, um  fazedor... Está simplesmente feliz fazendo a sua própria história... Seria bom  pensar que um dia estas fossem pensadas como características britânicas,  também». O antigo deputado do Partido Trabalhista, Roy Hattersley, descreveu um  dos regimes mais ideológicos na história moderna britânica como «puro dogma»;  Blair estava a «levar a política para fora da política». «Adeus, xenofobia», foi  a manchete pós­‑eleitoral do &lt;i&gt;Observer&lt;/i&gt;, e «O Ministério dos Negócios  Estrangeiros diz, Olá mundo, lembram­‑se de nós?». O governo de Blair, disse o  jornal, reivindicará «novas regras mundiais sobre direitos humanos» e  implementará «duros novos limites sobre vendas de armas».&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Façamos uma pausa para  considerar a verdade. Quando Blair comprovadamente mentiu sobre armas de  destruição em massa para ajudar um regime extremista a lançar um ataque não  provocado ao Iraque, um país indefeso, a vice­‑conselheira jurídica do  Ministério dos Negócios Estrangeiros, Elizabeth Wilmshurst, demitiu­‑se,  chamando­­‑lhe, correctamente, um «crime de agressão». O sangue derramado por  mais de 100.000 civis mortos e 300.000 feridos é dela e nossa testemunha. Agora  considerem os «duros novos limites sobre vendas de armas». Um estudo da  ActionAid revela que o governo de Blair vendeu armas a 14 países africanos  empobrecidos onde existe um conflito interno. O povo de Aceh, arrasado pelo  maremoto do ano passado, tem sido aterrorizado por aviões de combate Hawk,  metralhadoras e munições fornecidos por britânicos. A Grã­‑Bretanha é o líder  mundial na exportação de armas ligeiras, mesmo de urânio empobrecido.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Quase tudo sobre um regime  Blair era desconhecido antes de ser eleito. A devoção típica de Vichy para com  Washington era desconhecida: leiam os seus discursos sobre uma “nova ordem  liderada pelos Estados Unidos”. A sua devoção para com Rupert Murdoch, que o  transportou de avião à volta do mundo em primeira classe, era desconhecida. A  sua devoção para com uma economia thatcheriana neoliberal extrema era  desconhecida, soletrada em &lt;i&gt;The Blair Revolution: can new Labour deliver?&lt;/i&gt;  de Peter Mandelson e Roger Liddle, na qual as «forças económicas» da  Grã­‑Bretanha são enumeradas como sendo as empresas multinacionais, a indústria  «aeroespacial» (armas) e «a preeminência da City de Londres». O seu desprezo de  classe pelos pobres era conhecido; os seus ataques pré­‑eleitorais às mães  solteiras passaram rapidamente a lei, assistido pela maioria das suas novas,  oportunistas deputadas femininas.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Aqueles que tentam proteger  Blair e “andar para a frente” em relação ao Iraque referem­‑se à redução da  pobreza como um dos seus “feitos”. Na verdade, a pobreza em famílias sem filhos  no RU atingiu níveis recorde sob Blair, até 13 por cento – e um número maior do  que sob Margaret Thatcher e John Major. Um certo PC­‑ismo, assim como a  tempestade sobre baixar a idade de consentimento &lt;i&gt;gay&lt;/i&gt;, ajudam à ilusão de  um governo trabalhista que, se não se tivesse alinhado com o horrível Bush,  seria celebrado como “progressista”. Digam isso ao povo de um país longínquo,  mais de metade do qual são crianças, cujas vidas foram devastadas pelo fanático  Blair e a sua corte de defensores. Leiam a declaração robótica de Hoon sobre o  uso de bombas de fragmentação – como as mães iraquianas iriam um dia estar  «agradecidas» pelo uso de bombas que mataram as suas crianças – e as cartas do  Ministério da Defesa ao público que mentem sobre urânio empobrecido e o seu  efeito Hiroshima. O silêncio daqueles que se vêem a si próprios como comissários  deste país e a classe liberal, respeitável, moral da Europa é bastante  repugnante.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Numa peça soberba no &lt;i&gt;The  Guardian&lt;/i&gt; (24 de Fevereiro) [1], Victoria Brittain perguntou: «Como pode ser  que nenhuma figura pública principal na Europa tenha denunciado [o regime de  tortura sistemática de Bush]?» Ela aponta que os Documentos da Tortura [&lt;i&gt;The  Torture Papers&lt;/i&gt;] [2] – mais de 1.200 páginas de memorandos e relatórios  governamentais, editados na Universidade de Nova Iorque – mostram tortura  sistemática, aprovada e dirigida de cima. Tal é o regime de um homem com quem  Blair «partilha valores». Pensei nisto quando me apercebi do corrente debate na  Igreja de Inglaterra sobre a “fractura” causada pelo “tema” do casamento  &lt;i&gt;gay&lt;/i&gt;. Comparem isso com o “tema” da matança de dezenas de milhares de  pessoas inocentes, sobre o qual nem uma só palavra é ouvida daqueles que afirmam  que a coragem moral é uma divindade. Leiam o relato árido do Dr. Salam Ismael,  que levou ajuda a Fallujah em Janeiro. Ele descreve a provação de uma rapariga  de 17 anos, Hudda Fawzi. O pai dela abriu a porta a marines dos EUA que o  mataram a ele e a um amigo a tiro, depois balearam a sua irmã mais velha,  tendo­‑a espancado até perder os sentidos, depois destruíram a mobília da  família. Pessoas feridas foram arrastadas das suas casas e atropeladas por  tanques; uma clínica foi destruída por mísseis. «Tornou­‑se claro para nós»,  escreveu Ismael, «que estávamos a assistir às consequências de um massacre, de  uma carnificina a sangue­‑frio de civis desamparados e indefesos».&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Não surpreende que o governo de  Blair tenha recusado a Ismael nova permissão para visitar e falar livremente na  Grã­‑Bretanha. O seu testemunho, e o de muitas outras testemunhas fidedignas, é  conhecido e temido. Em Abril último, o comando dos EUA concordou que pode bem  ter massacrado até 600 pessoas em Fallujah. Quando um ouvinte perguntou a Judy  Swallow, apresentadora do programa Newshour do BBC World Service, porque é que a  BBC continuou a suprimir a verdade, Swallow enviou este email para um colega:  «Valha­‑me deus, Mike – tratamos deste género de coisas ou ignorámo­­­‑las?» Na  página web da BBC, ela descreve a Newshour como «expondo a injustiça e as  mentiras desafiantes». O silêncio quase nunca é rompido por aqueles que são  pagos para “expor a injustiça e as mentiras desafiantes”, quanto mais dizer a  verdade. No Channel 5, um elemento do público, Neil Coppendale de  Shoreham-by­‑Sea, confrontou Blair com esta pergunta: «Tendo em conta que  dezenas de milhares de homens, mulheres e crianças inocentes morreram como  resultado da invasão do Iraque, como dorme à noite, Sr. Blair?» Quando é que um  jornalista, um com acesso privilegiado a Blair, alguma vez pergunta isso? Pela  sua parte, o homem de Downing Street da BBC, Andrew Marr (aparentemente  juntamente com a sua esposa), e o seu colega do programa Today, James Naughtie,  estiveram na casa de campo do primeiro­­­‑ministro, Chequers, para jantar com o  assassino Blair. Foi Marr quem, na queda de Bagdade, disse aos espectadores que  Blair tinha «dito que seriam capazes de tomar Bagdade sem um banho de sangue, e  no fim os iraquianos estariam celebrando, e em ambos estes pontos provou­‑se  conclusivamente que ele estava certo». E foi Naughtie quem desempenhou um papel  principal no British American Project, estabelecido por Ronald Reagan para  encontrar uma “geração sucessora” à daqueles que propagavam a guerra fria em  nome dos Estados Unidos.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Se a vergonha não tem lugar na  que é chamada “vida pública”, então o resto de nós devia quebrar o silêncio por  eles. &lt;i&gt;The Guardian&lt;/i&gt; diz que o eleitorado está “zangado” com Blair.  Zangado? Que palavra tão gentil. Apoiar Blair, na sua propaganda e na sua  desdenhosa necessidade de outro mandato, é apoiar o assassínio em massa.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style="" lang="EN-GB"&gt;__________&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style="" lang="EN-GB"&gt;[1] Victoria Brittain, &lt;a href="http://www.guardian.co.uk/comment/story/0,3604,1423861,00.html"&gt;Why are we  welcoming this torturer?&lt;/a&gt;, The Guardian, 24/02/2005 (n. do  IA).&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style="" lang="EN-GB"&gt;[2] &lt;a href="http://www.cambridge.org/uk/catalogue/print.asp?isbn=0521853249&amp;amp;print=y"&gt;The  Torture Papers&lt;/a&gt;, Cambridge University Press (n. do IA).&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18040584-112973754669781363?l=johnpilger.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://pilger.carlton.com/print/133424' title='Proteger um regime com sangue nas suas mãos'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112973754669781363'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112973754669781363'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://johnpilger.blogspot.com/2005/03/proteger-um-regime-com-sangue-nas-suas.html' title='Proteger um regime com sangue nas suas mãos'/><author><name>IA</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18040584.post-112973738793624291</id><published>2005-02-17T16:54:00.000Z</published><updated>2005-10-19T16:56:27.940+01:00</updated><title type='text'>A luta pela memória nas sociedades livres</title><content type='html'>&lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Como funciona o controle de  pensamento em sociedades que se dizem livres? Porque é que jornalistas famosos  são tão ansiosos, quase como um reflexo, por minimizar a culpabilidade de  líderes políticos tais como Bush e Blair que partilham a responsabilidade pelo  ataque não provocado a um povo indefeso, por levar a devastação à sua terra e  por matar pelo menos 100.000 pessoas, a maior parte delas civis, tendo procurado  justificar este crime atroz com mentiras comprovadas? Porque é que um repórter  da BBC descreve a invasão do Iraque como «uma vingança de Blair»? Porque é que  as emissoras de rádio e TV nunca associaram os Estados britânico e americano ao  terrorismo? Porque é que tais comunicadores privilegiados, com acesso ilimitado  aos factos, alinharam-se para descrever uma eleição não observada, não  verificada, ilegítima, cinicamente manipulada, efectuada sob uma ocupação  brutal, como “democrática” e com o imaculado propósito de ser “livre e  justa”?&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Será que eles não lêem a  história? Ou estará a história que sabem, ou preferem saber, sujeita a tal  amnésia e omissão que produz uma visão do mundo através de um espelho moral  unilateral? Não há qualquer sugestão de conspiração. Este espelho de uma só face  assegura que a maior parte da humanidade seja encarada em termos da sua  utilidade para “nós”, a sua desejabilidade ou dispensabilidade, o seu mérito ou  demérito: por exemplo: a noção de curdos “bons” no Iraque e curdos “maus” na  Turquia. A assunção infalível de que “nós” no ocidente dominante temos padrões  morais superiores a “eles”. Um dos “seus” ditadores (muitas vezes um antigo  cliente nosso, como Saddam Hussein) mata milhares de pessoas e é declarado um  monstro, um segundo Hitler. Quando um dos nossos líderes faz o mesmo, é  encarado, na pior das hipóteses como Blair, em termos shakespearianos. Aqueles  que matam pessoas com carros bombas são “terroristas”; aqueles que matam muito  mais pessoas com bombas de fragmentação são os nobres ocupantes de um  “pântano”.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;A amnésia histórica pode  difundir-se rapidamente. Apenas dez anos após a guerra do Vietname, que eu  cobri, um inquérito de opinião pública nos Estados Unidos revelou que um terço  dos americanos não podia recordar-se de qual o lado que o seu governo havia  apoiado. Isto demonstrou o poder insidioso da propaganda dominante, de que a  guerra era essencialmente um conflito de “bons” vietnamitas contra “maus”  vietnamitas, no qual os americanos foram “envolvidos”, levando a democracia ao  povo do Vietname do sul que enfrentava uma “ameaça comunista”. Tais suposições  falsas e desonestas permeiam a cobertura dos media, com excepções honrosas. A  verdade é que a mais prolongada guerra do século XX foi uma guerra travada  contra o Vietname, o norte e o sul, comunista e não comunista, pela América. Foi  uma invasão não provocada da sua pátria e das suas vida, tal como a invasão do  Iraque. A amnésia assegura que, enquanto as relativamente poucas mortes dos  invasores são constantemente reconhecidas, as mortes dos mais de cinco milhões  de vietnamitas são remetidas ao esquecimento.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Quais são as raízes disto?  Certamente, a “cultura popular”, especialmente filmes de Hollywood, pode  determinar o que e quão pouco nos lembramos. A educação selectiva em idade  precoce desempenha a mesma tarefa. Enviaram-me um guia de revisão para  estudantes da história mundial moderna, amplamente utilizado, acerca do Vietname  e da guerra fria. O seu conteúdo é aprendido por estudantes de 14 a 16 anos nas  escolas britânicas que se preparam para o crítico exame GCSE. Ele informa o seu  entendimento de um período histórico fundamental, o qual deverá influenciar o  modo como compreenderão as notícias de hoje do Iraque e alhures. &lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;É chocante. Ele afirma que sob  o acordo de Genebra de 1954: «o Vietname estava repartido no norte comunista e  no sul democrático». Numa só frase, a verdade é despachada. A declaração final  da conferência de Genebra dividiu o Vietname «temporariamente» até que eleições  nacionais livres fossem efectuadas na data de 26 de Julho de 1956. Havia pouca  dúvida de que Ho Chi Minh venceria e formaria o primeiro governo  democraticamente eleito do Vietname. O presidente Einsenhower certamente não  tinha dúvida quanto a isto. «Nunca conversei com uma pessoa conhecedora dos  assuntos indochineses», escreveu ele, «que não concordasse em que... oitenta por  cento da população teria votado pelo comunista Ho Chi Minh como seu líder».&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Não só os Estados Unidos se  recusaram a permitir à ONU que administrasse as eleições acordadas dois anos  depois, como o “democrático” regime no sul foi uma invenção. Um dos inventores,  o responsável da CIA Ralph McGehee, descreve no seu livro magistral &lt;i&gt;Deadly  Deceits &lt;/i&gt;[Enganos Fatais] como um brutal mandarim expatriado, Ngo Dinh Diem,  foi importado de Nova Jersey para ser “presidente” e um governo impostor foi  colocado no poder. «Foi ordenado à CIA», escreveu ele, «sustentar tal ilusão  através da propaganda [colocada nos media]». &lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Eleições falsificadas foram  arranjadas, saudadas no ocidente como «livres e justas», com responsáveis  americanos a fabricarem «um comparecimento de 83 por cento apesar do terror  Vietcong». O guia não alude a nada disto, nem tão pouco que “os terroristas”,  aos quais os americanos chamavam Vietcong, eram também vietnamitas sulistas a  defenderem a sua pátria contra a invasão americana e cuja resistência era  popular. Por Vietname, leia-se Iraque.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;O tom deste panfleto é o do  “nosso” ponto de vista. Não há a noção de que existiu um movimento de libertação  nacional do Vietname, simplesmente “uma ameaça comunista”, simplesmente a  propaganda de que «os EUA estavam aterrorizados por muitos outros países poderem  tornar-se comunistas e ajudarem a URSS — eles não queriam ser suplantados em  número», simplesmente que o presidente Johnson «estava determinado a manter o  Vietname do Sul livre de comunistas» (ênfase no original). Este prosseguiu  rapidamente para a Ofensiva do Tet em 1968, a qual «acabou na perda de milhares  de vidas americanas – 14 mil em 1969 – a maior parte foram jovens». Não há  qualquer menção aos milhões de vidas vietnamitas também perdidas na ofensiva. E  a América meramente começou «uma campanha de bombardeamento»: não há menção da  maior tonelagem de bombas já despejada na história da guerra, de uma estratégia  militar que foi deliberadamente concebida com o fim de forçar milhões de pessoas  a abandonarem os seus lares, e aos produtos químicos utilizados de uma maneira  que alterou profundamente o ambiente e a ordem genética, deixando uma terra  outrora generosa quase arruinada.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Este guia de revisão reflecte  os viezes e distorções dos manuais oficiais, tais como o prestigioso manual de  Oxford e Cambridge, utilizado por todo o mundo como modelo. A sua secção da  guerra fria refere-se ao “expansionismo” soviético e à “difusão” do comunismo;  não há uma palavra acerca da “difusão” da América rapace. Uma das suas “questões  chave” é: «Quão efectivamente os EUA contiveram a difusão do comunismo?» O bem  versus o mal para mentes não orientadas.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;«Caramba, montes de coisas para  você aprender aqui...» dizem os autores do guia de revisão, «então aprenda agora  mesmo». Caramba, o império britânico não existiu; não há nada sobre as atrozes  guerras coloniais que foram modelos para a potência sucessora, a América, na  Indonésia, Vietname, Chile, El Salvador, Nicarágua, para nomear apenas umas  poucas ao longo do rastro de sangue da moderna história imperial, da qual o  Iraque é a mais recente.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;E agora o Irão? Os tambores da  guerra já começaram. Quantas mais pessoas inocentes têm de morrer antes que  aqueles que filtram o passado e o presente despertem para a sua responsabilidade  moral de proteger a nossa memória e as vidas de seres humanos?&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18040584-112973738793624291?l=johnpilger.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://pilger.carlton.com/print/133423' title='A luta pela memória nas sociedades livres'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112973738793624291'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112973738793624291'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://johnpilger.blogspot.com/2005/02/luta-pela-memria-nas-sociedades-livres.html' title='A luta pela memória nas sociedades livres'/><author><name>IA</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18040584.post-112973719591967843</id><published>2005-02-03T16:50:00.000Z</published><updated>2005-10-19T16:53:51.860+01:00</updated><title type='text'>Austrália: O adoecimento da democracia</title><content type='html'>&lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Os mitos nacionais habitualmente são em parte verdade. Na Austrália, o mito de uma sociedade igualitária, ou das “oportunidades justas” [“&lt;i&gt;fair go&lt;/i&gt;”], tem uma história extraordinária. Muito antes da maior parte do mundo, a Austrália tinha um salário mínimo, uma semana de 35 horas, benefícios para a infância e o voto para as mulheres. A urna eleitoral secreta foi inventada na Austrália. Na década de 1960, os australianos podiam orgulhar-se do mais igualitário diferencial de rendimento pessoal do mundo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Hoje, estas são verdades esquecidas, subversivas. Quando às escolas é ordenado hastear a bandeira (com a Union Jack ao alto, ainda a mofar de nós), é destacada a estória piegas de soldados australianos a morrerem sem motivo em Gallipoli a mando de um mestre imperial, juntamente com um mal disfarçado colonialismo e racismo velados. Auto-promovida como um bastião dos direitos humanos, a Austrália tornou­‑se uma mostra da sua negação e degradação. Muitos australianos estão conscientes disto, no mínimo aqueles que encheram um pequeno teatro em Sidney a 26 de Janeiro, o “Dia da Austrália”, o qual celebra a expulsão dos aborígenes pelos britânicos em 1770. A notável peça de Stephen Sewell, &lt;i&gt;Myth, Propaganda and Disaster in Nazi  Germany and Contemporary America&lt;/i&gt;, foi apresentada no Stables Theatre.  Inspirada em parte em &lt;i&gt;O Processo&lt;/i&gt;, de Franz Kafka, ela desnuda a fachada democrática da América de Bush — «se quiser ver a América, olhe nos olhos dos seus prisioneiros», diz um dos personagens principais. O poder predador vestido como democracia, e o medo e silêncio dos seus privilegiados — nomeadamente académicos — são o tema de Sewell e algo que raramente é discutido em público na Austrália.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Quando a peça terminou, um advogado, Stephen Hopper, levantou-se e falou. Foi como se um longo silêncio houvesse sido rompido. Hopper é o advogado de Mamdouh Habib, um de dois australianos aprisionados na Baía de Guantanamo [1]. Ele descreveu o sofrimento e a tortura de Habib, primeiro no Egipto onde fora “entregue” pelos americanos depois de o terem sequestrado no Paquistão. Numa prisão apoiada pela CIA no Egipto, ele foi suspenso do tecto apenas com um cano electrificado para apoiar-se. «Ele apoiava­‑se e levava um choque ou pendurava-se dolorosamente nos seus braços até que entrava em colapso», disse Hopper. Foi vendado e trancado em salas que foram inundadas com água e carregadas de electricidade. Na Baía de Guantanamo, os guardas trouxeram uma prostituta que «ficou nua por cima do seu corpo, enquanto estava atado no chão, e menstruou sobre ele». Fotografias da esposa de Habib e dos seus quatro filhos foram desfiguradas. «Os americanos, na sua sabedoria, retiraram as cabeças das fotos», afirmou Hopper, «aumentaram­‑nas e sobrepuseram-nas com as cabeças de animais e a seguir afixaram-nas sobre as paredes da sala de interrogatório. [Disseram-lhe]: “É uma vergonha que tenhamos de matar a tua família”». Sabemos destas atrocidades desde os primeiros relatos dos prisioneiros britânicos. O que é diferente aqui é que nenhum governo que se considera democrático colaborou tão completamente com o regime de Guantanamo como aquele de John Howard. Stephen Hopper descreveu como um oficial australiano ficou ao lado de Habib enquanto este era torturado pelos americanos e arrastado para um avião; há provas documentadas disto.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;O procurador geral australiano, Philip Ruddock, afirma que nada sabia disto. Ruddock caluniou implacavelmente Habib e o outro prisioneiro australiano, David Hicks, como suspeitos terroristas quando nem um átomo de prova fora produzido. Foi só quando parecia que o Supremo Tribunal americano examinaria o seu caso que Habib foi apressadamente enviado para casa. Gareth Peirce, que representa os britânicos em Guantanamo, contou-me: «O facto de David Hicks estar diante de uma comissão militar deve­‑se inteiramente ao facto de o governo australiano nada fazer por ele». Mesmo o advogado militar americano de Hicks afirma que o seu “julgamento”, com as suas vagas acusações de conspiração, é uma farsa. Mas Ruddock, cujo trabalho é resistir ao abuso de liberdades nos termos da lei, permitiu que uma caricatura de processo judicial fosse utilizada brutalmente contra cidadãos australianos. Tendo colocado Habib sob vigilância constante e impedindo-o de deixar o país, ele agora está a tentar impedi­‑lo de falar publicamente acerca das coisas grotescas que lhe fizeram. O que é claro é que este político sórdido teme a verdade que Habib agora é livre para contar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;É um medo que é reflectido  fielmente pela maior parte dos media australianos. O &lt;i&gt;Sidney Morning Herald  &lt;/i&gt;permitiu vergonhosamente a um propagandista israelita, Ted Lapkin, dizer que Habid, um homem inocente sob qualquer sistema legal decente, havia «pago o preço das suas acções com encarceramento pela autoridades americanas». Um importante comentador “liberal”, Michelle Grattan, descreveu Habib, que está claramente atingido pelo abusos sofridos, como tendo «entrado na categoria de celebridade» e diz que ele «não pode razoavelmente queixar­‑se sobre [permanecer sob vigilância] por parte das autoridades australianas». Não é nada surpreendente que, segundo Reporters sans Frontières, a imprensa australiana se classifique em 41º lugar no índice de liberdade da imprensa mundial, com o seu servilismo para com o poder apenas à frente de Estados autocráticos e totalitários. Tal como aqueles na peça de Sewell, muitos jornalistas australianos permanecem silenciosos (tal como a maior parte dos académicos australianos; posso recordar­‑me apenas de três que falam abertamente de forma regular). Alguns dos mais proeminentes jornalistas formam uma corte de adoradores de um primeiro­‑ministro que ultrapassou Blair quanto a mentiras e está a ultrapassar o seu mentor Bush em Washington quanto ao desprezo demonstrado pelos direitos humanos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Sob Howard e Ruddock, a Austrália construiu o seu próprio Gulag no Pacífico, aprisionando por trás de arame farpado iraquianos e outros que fogem de ditaduras. Estas pessoas inocentes são mantidas em alguns dos mais isolados lugares da Terra, incluindo a Ilha Manus e Nauru. Entre elas incluem-se crianças. Um refugiado de Cachemira, Peter Qasim, foi preso durante aproximadamente sete anos. O responsável do Grupo de Trabalho das Nações Unidas sobre Detenção Arbitrária (UN Working Group on Arbitrary Detention), Louis Joinet, que já fez mais de 40 inspecções de lugares de detenção obrigatórios por todo o mundo, afirma que nunca viu pior abuso dos direitos humanos do que na Austrália. Os primeiros australianos experimentaram isto por longo tempo. Sob o governo de Howard, o apoio aos serviços de saúde e jurídicos destinados aos aborígenes diminuíram. Na New South Wales ocidental a expectativa de vida para os aborígenes homens é de 33 anos; a Austrália é o único país desenvolvido que consta numa “lista da vergonha” das Nações Unidas de países que não debelaram a tracoma, uma cegueira evitável que afecta sobretudo crianças aborígenes, e que é uma doença da pobreza.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Há seis anos atrás, entrevistei Ruddock quando ele era o ministro federal responsável por assegurar que australianos negros altivos não embaraçariam o governo durante as Olimpíadas de Sidney. Perguntei-lhe: «Como é que se sente ao receber relatórios da Amnistia sobre a violação de direitos humanos com a palavra “Austrália” escrita no topo, tais como “Aborígenes ainda estão a morrer na prisão e sob custódia policial a níveis que podem equivaler a tratamento cruel, desumano e degradante”?» A sorrir, ele replicou: «Por que será que eles utilizam a palavra “podem”?»&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;A terra das oportunidades  justas merece algo melhor do que crueldade desdenhosa.&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;_________&lt;/p&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;[1] Ler no IA: Bob Burton, &lt;a href="http://infoalternativa.fateback.com/mundo/mundo046.htm"&gt;De acusado em  Guantánamo a acusador&lt;/a&gt;, 17/01/2005.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18040584-112973719591967843?l=johnpilger.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://www.johnpilger.com/print/133408' title='Austrália: O adoecimento da democracia'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112973719591967843'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112973719591967843'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://johnpilger.blogspot.com/2005/02/austrlia-o-adoecimento-da-democracia.html' title='Austrália: O adoecimento da democracia'/><author><name>IA</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18040584.post-112973705002804357</id><published>2005-01-20T16:49:00.000Z</published><updated>2005-10-19T16:50:50.033+01:00</updated><title type='text'>Não devíamos nunca esquecer a Birmânia</title><content type='html'>&lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Tentei telefonar­‑lhe noutro  dia. Ainda tenho um número que ela me deu, para o qual podia telefonar  infrequentemente e trocar umas palavras. Foi infrutífero tentar desta vez; o  sinal sonoro rápido do outro lado foi um eco da sua opressão kafkaesca. O  isolamento de Aung San Suu Kyi é agora completo, no décimo ano da sua detenção.  A última vez que consegui contactá­‑la, perguntei­‑lhe o que se estava a passar  fora da sua casa. «Oh, a rua está bloqueada e há soldados em toda a rua... para  minha própria segurança, claro!»&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Agradeceu­‑me pelos livros que  lhe enviei, levados em mão pela clandestinidade que agora luta para manter o  contacto. «Foi uma alegria ler bastante outra vez», disse. Tinha­‑lhe enviado  uma colecção do seu favorito T. S. Elliot, bem como a novela política de  Jonathan Coe, &lt;i&gt;What a Carve Up!&lt;/i&gt;, cuja ironia gentil deve ter parecido  estranha na Rangoon sob regime militar. Contou­‑me que saboreava as biografias  daqueles que também tinham sofrido o isolamento: Mandela, Sakharov. Pouco chegou  a ela desde então, e não se sabe se ainda tem o velho rádio Grundig de onda  curta. O regime removeu agora os seus guardas pessoais de segurança do seu  recinto junto ao lago Inya. Tendo torturado e assassinado os seus aliados mais  próximos, devem acreditar que, se o mundo olhar para o outro lado, podem  fazer­‑lhe o mesmo.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;«Para os media, a Birmânia  raramente está na moda», disse­‑me. «Mas o que é importante lembrar numa luta  como a nossa é que perdura, quer o foco incida nela ou não, e não podem fazê­‑la  voltar atrás». Para alguém tão sozinho, estas são palavras salutares;  recomendo­‑as aos que perdem a força de vontade quando a sua participação numa  manifestação falha em parar uma invasão. Afortunadamente, Aung San Suu Kyi e o  movimento de democracia que lidera são apoiados por uma tenaz rede de  solidariedade em todo o mundo; estou em dívida para com John Jackson e Yvette  Mahon da Burma Campaign UK por nunca nos deixarem esquecer que, se o  frequentemente degradado grito da democracia significa alguma coisa, o seu  verdadeiro teste é a Birmânia. No presente número de &lt;i&gt;Metta&lt;/i&gt;, o jornal da  campanha, Desmond Tutu relembra­‑nos que Aung San Suu Kyi e o seu partido, a  Liga Nacional para a Democracia, ganhou 82 por cento dos assentos parlamentares  na eleição de 1990 na Birmânia, o sinal para uma junta militar caçar, prender,  torturar e assassinar os vitoriosos, e escravizar grande parte da nação. «Suu  Kyi e o povo da Birmânia», escreve Tutu, «não pediram que uma coalizão militar  invadisse o seu país. Pediram simplesmente um máximo de pressão diplomática e  económica contra os brutais ditadores da Birmânia».&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Como a resposta do público ao  tsunami e à invasão do Iraque mostrou, a divisão que mais rapidamente cresce no  mundo é entre as pessoas e aqueles no poder que alegam agir moralmente em seu  nome. A Birmânia exemplifica isto. Tomemos a política repugnante da União  Europeia. Claramente com um olho no seu vasto mercado asiático, a EU, promotora  dos “direitos humanos” quando o preço é adequado, apaziguou vergonhosamente a  junta birmanesa. Considerem o que se passa hoje na Birmânia. A violação é usada  como uma arma do estado contra mulheres e crianças étnicas. O trabalho forçado  está disseminado, descrito pela Organização Internacional do Trabalho da ONU  como um «crime contra a humanidade». A junta detém mais de 1350 prisioneiros  políticos, muitos dos quais são rotineiramente torturados. Tanto como um milhão  de pessoas foram forçadas a abandonar as suas terras. Metade do orçamento  nacional é gasto num exército guerreiro e brutal cujo único inimigo é o seu  próprio povo, enquanto quase nada é gasto em saúde; um em cada dez bebés  birmaneses morrem durante a infância. E a verdadeira líder, eleita numa vitória  esmagadora, está encarcerada, levantando­‑se às quatro horas todas as manhãs par  meditar nessa injustiça épica.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Entretanto, a UE escora o  regime ao aumentar as importações, no valor de cerca de 4 mil milhões de dólares  entre 1998 e 2002. Em Outubro último, a quinta cimeira do Encontro Ásia­‑Europa  (ASEM) foi realizada em Hanói e assistida por representantes da junta pela  primeira vez. Em vez de anunciar um boicote, os europeus apareceram e nada  disseram. Ou melhor, o presidente da França, Jacques Chirac, disse que esperava  que sanções mais fortes não fossem necessárias porque «atingirão as pessoas mais  pobres». No lugar de “pessoas mais pobres” leiam Total Oil Company, em parte  propriedade do governo francês, o maior investidor estrangeiro na Birmânia, onde  a infra­‑estrutura de estradas e caminhos­‑de­‑ferro da companhia de petróleo  têm sido há muito objecto de alegações de trabalho forçado. Os euros da Total  permitem à junta reequipar o seu estado de terror. «Nenhum dos funcionários da  UE que encontrei», diz John Jackson, «nega que o investimento estrangeiro e a  despesa militar estão intimamente ligados na Birmânia. Na semana em que o regime  recebeu o seu primeiro pagamento por gás a ser canalizado para a Tailândia de um  campo de gás operado pela Total Oil, fez um pagamento de 130 milhões de dólares  por conta de dez jactos de combate MiG­‑29».&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Jackson aponta para a farsa das  actuais sanções da UE. Depois de tantos como 100 dos apoiantes de Suu Kyi terem  sido espancados publicamente até à morte por soldados em 2003, a UE estendeu a  sua interdição de visto à junta e a Alemanha congelou não menos do que 86 euros  dos bens birmaneses com base na Alemanha. Em contraste, e através da acção  directa, a campanha internacional conseguiu obter grandes desinvestimentos, tais  como da Premier Oil, da Heineken, da PepsiCo, da British Home Stores. A corrente  “lista suja” de investidores inclui as companhias de petróleo Total e Unocal, a  Rolls­‑Royce, a Lloyd’s de Londres e as chamadas companhias de viagens  &lt;i&gt;prestige&lt;/i&gt; como Bales, Road to Mandalay e Orient Express. O popular guia da  Lonely Planet é um desafio na lista. A Lonely Planet fez há muito tempo uma  figura triste ao alegar, nas palavras de um dos seus escritores, que a Birmânia  está «melhor» hoje, e que apesar da junta ser «abominável», «a prisão política,  a tortura» e «o serviço civil involuntário ao estado» não são novos e «têm  andado por aí há séculos».&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Digam isso às pessoas de Pagan,  a antiga capital, que costumava ter uma população de 4.000. Tendo-lhes sido  dadas algumas semanas para sair, as suas casas foram arrasadas com bulldozers e  foram obrigadas a caminhar com as armas apontadas até um buraco sem água que é  um poço de pó no Verão, e lamacento no Inverno. A sua espoliação foi para abrir  caminho aos turistas estrangeiros. «Darei as boas vindas a turistas e  investidores», disse Aung San Suu Kyi, «quando formos livres». Há uma abundância  de provas de que o turismo estrangeiro beneficiou o regime, não o povo birmanês,  e que muita da infra­‑estrutura turística foi construída com «serviço civil  involuntário», um eufemismo idiota para trabalho forçado ou completamente  escravo.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Filmando secretamente na  Birmânia há nove anos, encontrei o que poderia ser um cenário da Inglaterra de  Dickens. Perto da cidade de Tavoy, no sul, grupos de pessoas estavam a construir  um viaduto de caminho­‑de­‑ferro, guardadas por soldados. Estes eram  trabalhadores escravos, e muitos eram crianças. Observei uma rapariga pequena  num longo vestido azul lutar para empunhar uma enxada maior do que ela, cair  para trás exausta, com dores, segurando o seu ombro. «Que idade tens?»,  perguntei­‑lhe. «Onze», foi a resposta.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Tal como não devíamos esquecer  as pessoas de Fallujah e Najaf e Bagdade, e Ramallah e Gaza, também não devíamos  esquecer esta rapariguinha, e o seu povo, e a sua líder, que pedem os mais  básicos direitos e merecem o nosso apoio.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;A página web da Burma Action  Campaign é &lt;a href="http://www.burmacampaign.org.uk/"&gt;www.burmacampaign.org.uk&lt;/a&gt;.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18040584-112973705002804357?l=johnpilger.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://www.johnpilger.com/print/133406' title='Não devíamos nunca esquecer a Birmânia'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112973705002804357'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112973705002804357'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://johnpilger.blogspot.com/2005/01/no-devamos-nunca-esquecer-birmnia.html' title='Não devíamos nunca esquecer a Birmânia'/><author><name>IA</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18040584.post-112973694476621246</id><published>2005-01-06T16:46:00.000Z</published><updated>2005-10-19T16:49:04.773+01:00</updated><title type='text'>O outro tsunami, fabricado pelo homem</title><content type='html'>&lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Os cruzados ocidentais, os  Estados Unidos e a Grã-Bretanha, estão a dar às vítimas do tsunami uma ajuda  inferior ao custo de um bombardeiro Stealth ou de uma semana da sangrenta  ocupação do Iraque. O gasto com a festa que se aproxima da tomada de posse de  George Bush reconstruiria grande parte da linha costeira do Sri Lanka. Bush e  Blair aumentaram as suas primeiras gotas de “ajuda” só quando ficou claro que  pessoas de todo o mundo estavam espontaneamente a oferecer milhões e se  anunciava um problema de relações públicas. A actual contribuição “generosa”  &lt;span style=""&gt; &lt;/span&gt;do governo de Blair é um dezasseis avos  dos 800 milhões de libras que gastou com o bombardeamento do Iraque antes da  invasão e cerca de um vigésimo da doação de 1000 milhões de libras, conhecida  como empréstimo suave [&lt;i&gt;soft loan&lt;/i&gt;], aos militares indonésios a fim de que  pudessem adquirir caças-bombardeiros Hawk.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Em 24 de Novembro, um mês antes  do abalo do tsunami, o governo Blair deu o seu apoio a uma feira de armas em  Djakarta «concebida para ir ao encontro de uma necessidade urgente das forças  armadas [indonésias] de reverem as suas capacidades de defesa», relatou o  &lt;i&gt;Jakarta Post&lt;/i&gt;. Os militares indonésios, responsáveis pelo genocídio em  Timor Leste, mataram mais de 20.000 civis e “insurrectos” em Aceh. Entre os  expositores na feira de armas estava a Rolls Royce, fabricante dos motores para  os Hawks, os quais, juntamente com os veículos blindados Scorpion, as  metralhadoras e as munições fornecidos pela Grã-Bretanha, estavam a aterrorizar  e a matar o povo em Aceh até ao dia em que o tsunami devastou a  província.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;O governo australiano,  actualmente a cobrir­‑se de glória com a sua modesta resposta ao desastre  histórico acontecido aos seus vizinhos asiáticos, treinou secretamente as forças  especiais da Indonésia, Kopassus, cujas atrocidades em Aceh estão bem  documentadas. Isto está em conformidade com os 40 anos de apoio australiano à  opressão na Indonésia, notavelmente com a sua devoção ao ditador Suharto  enquanto as suas tropas massacravam um terço da população de Timor Leste. O  governo de John Howard — notório pelo seu aprisionamento de crianças que  procuravam asilo — está actualmente a desafiar o direito marítimo internacional  ao negar a Timor Leste o que lhe é devido em royalties do petróleo e do gás,  cujo valor monta a 8 mil milhões de dólares. Sem esta receita, Timor Leste, o  país mais pobre do mundo, não pode construir escolas, hospitais e estradas ou  proporcionar trabalho aos seus jovens, 90 por cento dos quais estão  desempregados.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;A hipocrisia, o narcisismo e a  propaganda de ludibrio dos senhores do mundo e do seus apaniguados estão em  perseguição cerrada. Abundam superlativos quanto às suas intenções humanitárias  enquanto a divisão da humanidade entre vítimas valiosas e não valiosas domina o  noticiário. As vítimas de um grande desastre natural são valiosas (embora não se  saiba por quanto tempo) ao passo que as vítimas dos desastres imperiais  fabricados pelo homem são sem valor e frequentemente não mencionáveis. De algum  modo, os repórteres não podem induzir-se a si próprios a relatar o que está a  acontecer em Aceh, apoiado pelo “nosso” governo. Este espelho moral que só  reflecte um lado permite-nos ignorar um rastro de destruição e carnificina que  constitui um outro tsunami. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Considerem as agruras do  Afeganistão, onde a água limpa é desconhecida e a morte de recém­‑nascidos é  comum. Na conferência do Partido Trabalhista em 2001, Tony Blair anunciou a sua  famosa cruzada para “reordenar o mundo” com a promessa: «Ao povo afegão,  assumimos este compromisso, nós não viraremos as costas... trabalharemos  convosco para assegurar [que se encontra um caminho] para sair da pobreza que é  a vossa miserável existência». O governo Blair tinha acabado tomar parte na  conquista do Afeganistão, na qual morreram tantos como 20.000 civis. Em todas as  grandes crises humanitárias de que se tem memória, nenhum país sofreu mais e  nenhum foi menos ajudado. Apenas 3 por cento de toda a ajuda internacional gasta  no Afeganistão foi para a reconstrução, 84 por cento é para a “coligação”  conduzida pelos militares dos EUA e o resto são migalhas para ajuda de  emergência. Aquilo que é muitas vezes apresentado como rendimento da  reconstrução é investimento privado, tais como os 35 milhões de dólares que  financiarão um proposto hotel de cinco estrelas, sobretudo para estrangeiros. Um  conselheiro do ministro dos assuntos rurais em Cabul contou-me que o seu governo  recebera menos de 20 por cento da ajuda prometida ao Afeganistão. «Nós não temos  sequer dinheiro suficiente para pagar salários, quanto mais planos de  reconstrução», disse ele. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;A razão, naturalmente que não  falada, é que os afegãos estão entre as vítimas menos valiosas. Quando um  helicóptero americano canhoneou repetidamente uma remota aldeia rural, matando  até 93 civis, um oficial do Pentágono foi levado a declarar: «As pessoas ali  estão mortas porque nós quisemos que elas morressem». &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Tornei-me agudamente consciente  deste outro tsunami quando cobri o Camboja em 1979. Após uma década de  bombardeamento americano e de barbaridades de Pol Pot, o Camboja jazia tão  prostrado como Aceh está hoje. A doença somava­‑se à fome e o povo sofria um  trauma colectivo que poucos podiam explicar. Contudo, durante nove meses após o  colapso do regime do Khmer Vermelho não chegou qualquer ajuda efectiva de  governos ocidentais. Ao invés disso, um embargo ocidental apoiado pela China foi  imposto ao Camboja, negando­‑lhe virtualmente toda a maquinaria de recuperação e  assistência. O problema para os cambojanos era que os seus libertadores, os  vietnamitas, tinham vindo do lado errado da guerra fria, tendo recentemente  expulsado os americanos da sua pátria. Aquilo tornava­‑os vítimas não valiosas,  e descartáveis.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Um semelhante, amplamente  silenciado cerco foi imposto ao Iraque durante a década de 1990 e intensificado  durante a “libertação” anglo-americana. Em Setembro último, a Unicef relatou que  a desnutrição entre as crianças iraquianas havia duplicado sob a ocupação. A  mortalidade infantil está agora ao nível do Burundi, mais elevada do que no  Haiti e no Uganda. Há pobreza lancinante e uma escassez crónica de remédios. Os  casos de cancro estão a aumentar rapidamente, especialmente cancro da mama; a  poluição radioactiva está generalizada. Mais de 700 escolas estão danificadas  por bombardeamentos. Dos milhares de milhões que se disse terem sido afectados à  reconstrução no Iraque, apenas 29 milhões de dólares foram gastos, a maior parte  dos quais com mercenários a protegerem estrangeiros. Pouco disto é notícia no  ocidente.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Este outro tsunami é em escala  mundial, provocando 24.000 mortes a cada dia devido à pobreza, à dívida e à  divisão que são os produtos de uma superculto chamado neoliberalismo. Isto foi  reconhecido pelas Nações Unidas em 1991 quando convocou uma conferência dos  Estados mais ricos em Paris com o objectivo de implementar um “programa de  acção” para resgatar as nações mais pobres do mundo. Uma década depois, todos os  compromissos assumidos pelos governos ocidentais foram virtualmente rompidos,  tornando disparate [&lt;i&gt;waffle&lt;/i&gt;] do chanceler (tesoureiro) britânico Gordon  Brown acerca de o G8 “partilhar o sonho britânico” de acabar com a pobreza nisso  mesmo — um disparate [&lt;i&gt;waffle&lt;/i&gt;]. Nenhum governo honrou a “linha de base”  das Nações Unidas e concedeu uns miseráveis 0,7 por cento ou mais do seu  rendimento nacional à ajuda além­‑mar. A Grã­‑Bretanha dá apenas 0,34 por cento,  tornando o seu “departamento de ajuda internacional” uma piada de mau gosto. Os  EUA dão 0,15 por cento, a percentagem mais baixa de qualquer Estado  industrial.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Em grande medida invisível e  não imaginável pelos ocidentais, milhões de pessoas sabem que as suas vidas  foram declaradas supérfluas. Quando tarifas e subsídios a alimentos e  combustível são eliminados sob um &lt;i&gt;diktat&lt;/i&gt; do FMI, pequenos agricultores e  camponeses sem terra sabem que enfrentam o desastre, razão porque os suicídios  entre agricultores são epidémicos. Somente os ricos, diz a Organização Mundial  de Comércio, podem proteger as suas indústrias e agricultura internas; somente  eles têm o direito de subsidiar exportações de carne, cereais e açúcar e fazer  &lt;i&gt;dumping&lt;/i&gt; deles nos países pobres a preços artificialmente baixos,  destruindo assim meios de vida e vidas. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;A Indonésia, outrora descrita  pelo Banco Mundial como «um aluno modelo da economia global», é um caso  evidente. Muitos daqueles levados à morte em Sumatra no &lt;i&gt;Boxing Day &lt;/i&gt;foram  desapropriados pelas políticas do FMI. A Indonésia tem uma dívida impagável de  100 mil milhões de dólares. O World Resources Institute diz que o tributo deste  tsunami fabricado pelo homem atinge 13­‑18 milhões de mortes de crianças por ano  em todo o mundo; ou 12 milhões de crianças abaixo da idade de cinco anos,  segundo um Relatório de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas. «Se 100  milhões foram mortos nas guerra formais do século XX», escreveu o cientista  social australiano Michael McKinley, «por que são eles privilegiados em  compreensão em relação ao tributo [de mortes] anual de crianças devido aos  programas de ajustamento estrutural desde 1982?».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Que o sistema que provoca isto  tenha a democracia como o seu grito de guerra é uma zombaria que os povos de  todo o mundo cada vez entendem melhor. É este conhecimento em ascensão,  consciência mesmo, que proporciona mais do que esperança. Desde que os cruzados  em Washington e Londres malbarataram a simpatia mundial pelas vítimas do 11 de  Setembro de 2001 a fim de acelerar a sua campanha de dominação, avança uma  inteligência pública crítica e encara os semelhantes a Blair e Bush como  mentirosos e as suas acções culpáveis como crimes. A presente efusão de ajuda às  vítimas do tsunami entre pessoas comuns no ocidente é uma recuperação  espectacular das políticas de comunidade, moralidade e internacionalismo negadas  pelos governos e pela propaganda corporativa. Ao ouvir turistas retornando de  países abalados, dominados pela gratidão pelo modo gentil e expansivo como  alguns dos mais pobres entre os pobres lhes deram abrigo e cuidaram deles,  ouve-se a antítese das “políticas” que só cuidam dos avarentos. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;«A mostra mais espectacular de  moralidade pública que o mundo já viu», foi como a escritora Arundhati Roy  descreveu a cólera anti-guerra que sacudiu o mundo há quase dois anos atrás. Um  estudo francês estima agora que 35 milhões de pessoas se manifestaram naquele  dia de Fevereiro [de 2003] e afirma que nunca houve nada como isso; e que era  apenas o princípio.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Isto não é retórica; a  renovação humana não é um fenómeno, é ao invés a continuação de uma luta que por  vezes pode parecer estar congelada, mas é uma semente por baixo da neve.  Tome­‑se a América Latina, há muito declarada invisível e supérflua no ocidente.  «Os latino­‑americanos foram treinados para a impotência», escreveu noutro dia  Eduardo Galeano. «Uma pedagogia transmitida desde tempos coloniais, ensinada por  soldados violentos, professores timoratos e frades fatalistas, enraizou nas  nossas almas a crença de que a realidade é intocável e que tudo o que podemos  fazer é engolir em silêncio as desgraças que cada dia nos traz». Galeano estava  a celebrar o renascimento da democracia real na sua pátria, o Uruguai, onde o  povo votou “contra o medo”, contra a privatização e seu cortejo de indecências.  Na Venezuela, as eleições municipais e estaduais de Outubro marcaram a nona  vitória democrática do único governo do mundo que partilha a sua riqueza  petrolífera com os mais pobres do seu povo. No Chile, o último dos militares  fascistas apoiados pelos governos ocidentais, nomeadamente Thatcher, estão a ser  processados por forças democráticas revitalizadas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Estas forças são parte de um  movimento contra a desigualdade e a pobreza e a guerra que se tem levantado nos  últimos seis anos, e é mais diverso, mais empreendedor, mais internacionalista e  mais tolerante para com as diferenças do que qualquer coisa que tenha conhecido  na minha vida. É um movimento livre do fardo de um liberalismo ocidental que  acredita representar uma forma superior de vida; os mais sábios sabem que isto é  colonialismo com outro nome. Os mais sábios também sabem que assim como a  conquista do Iraque está a desconjuntar­‑se, assim também todo o sistema de  dominação e empobrecimento poderá igualmente desfazer-se.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18040584-112973694476621246?l=johnpilger.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://pilger.carlton.com/print/133404' title='O outro tsunami, fabricado pelo homem'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112973694476621246'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112973694476621246'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://johnpilger.blogspot.com/2005/01/o-outro-tsunami-fabricado-pelo-homem.html' title='O outro tsunami, fabricado pelo homem'/><author><name>IA</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18040584.post-112973676318626281</id><published>2004-12-08T16:43:00.000Z</published><updated>2005-10-19T16:46:03.196+01:00</updated><title type='text'>Quão silenciosos estão os invasores "humanitários" do Kosovo?</title><content type='html'>&lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Silenciados pela evidência da  catástrofe anglo-americana no Iraque, os responsáveis da guerra “humanitária”  internacional deviam ser chamados a prestar contas pela sua já bastante  esquecida cruzada no Kosovo, o modelo para a «marcha progressiva de libertação»  de Tony Blair. Assim como o Iraque está a ser despedaçado pelas forças  imperialistas, também o foi a Jugoslávia, o estado multi-étnico que foi o único  a rejeitar ambos os lados durante a guerra fria. &lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Mentiras tão grandes quanto as  de Bush e Blair foram propaladas por Clinton e Blair na sua preparação da  opinião pública para o ataque ilegal e não provocado àquele país europeu. Tais  como as fabricadas para a invasão do Iraque, a cobertura dos media na primavera  de 1999 foi uma série de justificações fraudulentas, a começar pela declaração  do secretário da Defesa americano William Cohen de que «verificamos agora que  desapareceram cerca de 100 mil homens em idade de prestar serviço militar  [albaneses]... podem ter sido assassinados». David Scheffer, o embaixador  itinerante dos Estados Unidos para os crimes de guerra, anunciou que podiam ter  sido mortos «225 mil homens de etnia albanesa com idades compreendidas entre os  14 e os 59 anos». Blair invocou o Holocausto e «o espírito da Segunda Guerra  Mundial». A imprensa inglesa seguiu o seu exemplo. «Fuga do genocídio», dizia o  Daily Mail. «Ecos do Holocausto», faziam coro o Sun e o Mirror. &lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Em Junho de 1999, terminado o  bombardeamento, equipas internacionais de medicina legal iniciaram uma  investigação minuciosa no Kosovo. O FBI americano chegou para investigar aquilo  a que se chamou «o maior cenário de guerra da história forense do FBI». Algumas  semanas mais tarde, não tendo encontrado uma única vala comum, o FBI voltou para  casa. A equipa forense espanhola também voltou para casa, tendo-se o seu chefe  queixado irritado de que ele e os seus colegas tinham sido envolvidos numa  «pirueta semântica pelas máquinas de propaganda da guerra, pois não encontrámos  nenhuma – nem uma única – vala comum».&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Em Novembro de 1999, o Wall  Street Journal publicou os resultados da sua própria investigação, desmentindo  «a obsessão das valas comuns». Em vez dos «gigantescos campos de morte que  alguns investigadores estavam à espera de encontrar... o padrão é de mortes  isoladas [a maioria] em áreas onde o Exército de Libertação do Kosovo  separatista entrara em acção». O Journal concluiu que a Nato avançou com a sua  denúncia dos campos de morte sérvios quando «viu os corpos de imprensa exaustos  inclinar-se para a história contrária: civis mortos pelas bombas da Nato»... A  guerra no Kosovo foi «cruel, amarga, selvagem; genocídio não foi». &lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Um ano depois, o Tribunal  Internacional de Crimes de Guerra, um organismo criado pela própria Nato,  anunciava que a contagem final dos cadáveres encontrados nas "valas comuns" no  Kosovo era de 2788. Este número incluía combatentes de ambos os lados assim como  sérvios e ciganos assassinados pelo Exército de Libertação do Kosovo albanês.  Tal como as inventadas armas de destruição maciça do Iraque, os números usados  pelos governos americano e inglês e repetidos pelos jornalistas foram invenções  – juntamente com os “campos de violação” sérvios e as declarações de Clinton e  de Blair de que a Nato nunca bombardeou civis deliberadamente. &lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Com o nome de código de “Fase  Três”, os alvos civis da Nato englobavam transportes públicos, hospitais,  escolas, museus e igrejas. Durante o ataque, James Bissel, o embaixador  canadiano em Belgrado, disse: «Era do conhecimento público que a Nato avançou  para a Fase Três [depois de algumas semanas]. De outro modo, não estariam a  bombardear pontes aos domingos à tarde e mercados ao ar livre».&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Os clientes da Nato eram o  Exército de Libertação do Kosovo (ELK). Sete anos antes, o ELK fora classificado  pelo Departamento de Estado como uma organização terrorista em ligação com a Al  Qaida. Agora, os criminosos do ELK eram festejados; o secretário dos Negócios  Estrangeiros Robin Cook autorizou-os a ligarem-lhe para o seu telemóvel. «Os  albaneses do Kosovo manipularam-nos a seu bel-prazer», escreveu o comandante da  ONU nos Balcãs, Major General Lewis MacKenzie, em Abril passado. «Subsidiámos e  apoiámos indirectamente a sua violenta campanha em prol de um Kosovo etnicamente  puro. Nunca os censurámos por terem sido os responsáveis da violência no  princípio dos anos 90 e continuamos hoje a apresentá­‑los como vítimas apesar  das provas em contrário». &lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;O despoletar do bombardeamento  da Jugoslávia foi, segundo a Nato, a recusa da delegação sérvia em assinar a  conferência de paz de Rambouillet. O que ficou por dizer foi que o acordo de  Rambouillet tinha um Anexo B secreto, que a delegação de Madeleine Albright  inserira à última hora. Este exigia a ocupação militar de toda a Jugoslávia, um  país com amargas recordações da ocupação nazi. Tal como Lord Gilbert, o ministro  dos Negócios Estrangeiros, admitiu mais tarde perante uma comissão da defesa  eleita da Câmara dos Comuns, o Anexo B foi inserido deliberadamente para  provocar a rejeição do governo de Belgrado. Quando caíram as primeiras bombas, o  parlamento eleito em Belgrado, que incluía alguns dos mais ferozes opositores a  Milosevic, rejeitou-o por esmagadora maioria.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Igualmente revelador era o  capítulo que tratava exclusivamente da economia do Kosovo. Reclamava uma  «economia de livre mercado» e a privatização de todos os bens estatais. Como o  escritor dos balcãs Neil Clark assinalou, «o problema da Jugoslávia... era ser a  última economia no centro-sul da Europa a não estar colonizada pelo capital  ocidental. As “empresas de propriedade social”, a forma de auto-gestão dos  trabalhadores lançada sob Tito, ainda predominavam. A Jugoslávia tinha na posse  pública o petróleo, a exploração mineira, as indústrias de automóveis e de  tabaco, e 75 por cento da indústria era de propriedade estatal ou social». &lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Na cimeira de Davos [1] dos  líderes neoliberais em 1999, Blair acusou Belgrado, não pela sua gestão no  Kosovo, mas pela sua incapacidade para adoptar inteiramente a «reforma  económica». Na campanha de bombardeamento que se seguiu, foram mais alvejadas as  companhias estatais do que as instalações militares. A destruição pela Nato de  apenas 14 tanques jugoslavos pode ser comparada com o bombardeamento de 372  centros industriais, incluindo a fábrica de automóveis Zastava, que deixou sem  trabalho centenas de milhares de pessoas. «Não foi bombardeada nenhuma fábrica  estrangeira ou privada», escreveu Clark. &lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Erguida sobre os caboucos desta  sólida mentira, o Kosovo de hoje é um «mercado livre» de droga e prostituição,  violento, administrado criminosamente pelas Nações Unidas. Mais de 200 mil  sérvios, ciganos, bósnios, turcos, croatas e judeus foram limpos etnicamente  pelo KLA sob o olhar das forças da Nato. Os pelotões de ataque do KLA  incendiaram, pilharam ou demoliram 85 igrejas e mosteiros ortodoxos, segundo as  Nações Unidas. Os tribunais são venais. «Mataste a tiro a avó de um sérvio, com  89 anos de idade?» gozava um funcionário dos narcóticos das Nações Unidas.  «Ainda bem para ti. Sai da cadeia».&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Embora a Resolução 1244 do  Conselho de Segurança reconheça Kosovo como sendo parte integrante da  Jugoslávia, e não autorize a administração das Nações Unidas a vender o que quer  que seja, as companhias multinacionais estão a receber ofertas de aluguer por 10  e 15 anos das indústrias e recursos locais da província, incluindo as enormes  minas Trepca, uma das jazidas minerais mais ricas do mundo [2]. Depois de Hitler  as ter conquistado em 1940, as minas forneceram às fábricas de munições alemãs  40 por cento do seu chumbo. A fiscalizar esta «futura democracia» (Blair)  espoliada, sanguinária e agora quase etnicamente pura, estão 4.000 soldados  americanos no Campo Bondsteel, uma base permanente com 314 hectares.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Entretanto, o julgamento de  Milosevic desenrola-se como uma farsa, parecido com o simulacro de um julgamento  precedente em Haia: o dos líbios acusados da explosão de Lockerbie. Milosevic  era um bruto; foi também um banqueiro considerado anteriormente como o homem do  ocidente que deveria implementar as «reformas económicas» em consonância com as  exigências do FMI, do Banco Mundial e da Comunidade Europeia; para sua desgraça,  recusou abdicar da soberania. O império não espera nada menos.&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;_________&lt;/p&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;[1] O Fórum Económico Mundial  realiza-se anualmente em Davos, na Suíça. Reúne dirigentes das empresas mais  ricas do mundo, dirigentes políticos nacionais e alguns intelectuais e  jornalistas seleccionados (N.T.)&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;[2] Ler a respeito no IA: Neil  Clark, &lt;a href="http://infoalternativa.fateback.com/europa%5Ce001.htm"&gt;Despojos de  uma outra guerra&lt;/a&gt;.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18040584-112973676318626281?l=johnpilger.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://pilger.carlton.com/print/133403' title='Quão silenciosos estão os invasores &quot;humanitários&quot; do Kosovo?'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112973676318626281'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112973676318626281'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://johnpilger.blogspot.com/2004/12/quo-silenciosos-esto-os-invasores.html' title='Quão silenciosos estão os invasores &quot;humanitários&quot; do Kosovo?'/><author><name>IA</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18040584.post-112973594902793942</id><published>2004-11-11T16:28:00.000Z</published><updated>2005-10-19T16:32:29.036+01:00</updated><title type='text'>Faluja, as eleições dos EUA e o 11/Set: uma questão de normalizar o impensável</title><content type='html'>&lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-weight: bold; font-family: verdana;"&gt;O importante ensaio de Edward  S. Herman, &lt;i&gt;A Banalidade do Mal&lt;/i&gt;, nunca pareceu mais adequado. «Fazer  coisas terríveis de um modo organizado e sistemático repousa na “normalização”»,  escreveu Herman. «Há habitualmente uma divisão de trabalho no fazer e no  racionalizar o impensável, com a brutalização e morte directas feitas por um  conjunto de indivíduos... outros trabalhando para melhorar a tecnologia (um  melhor crematório a gás, um napalm mais adesivo e com queima mais prolongada,  bombas de fragmentação que penetram a carne em padrões difíceis de detectar). É  função dos peritos, e dos media de referência, normalizar o impensável para o  público em geral. &lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-weight: bold; font-family: verdana;"&gt;Hoje (6 de Novembro), na Radio  4, um repórter da BBC em Bagdade referiu-se ao ataque em preparação à cidade de  Faluja como “perigoso” e “muito perigoso” para os americanos. Ao ser questionado  acerca dos civis ele disse, de modo tranquilizador, que os marines dos EU  estavam «a avançar com um alto-falante» dizendo às pessoas para saírem. Ele  omitiu dizer que dezenas de milhares de pessoas ficariam na cidade. Mencionou de  passagem o «mais intenso bombardeamento» da cidade sem qualquer sugestão do seu  significado para as pessoas debaixo das bombas. &lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-weight: bold; font-family: verdana;"&gt;Quanto aos defensores, aqueles  iraquianos que resistem numa cidade que desafiou heroicamente Saddam Hussein,  eles eram meros «insurrectos enfiados na cidade», como se fossem um corpo  estranho, uma forma menor de vida a ser «varrida» (&lt;i&gt;The Guardian&lt;/i&gt;): um  terreno adequado para “caçadores de ratos”, que é a expressão que outro repórter  da BBC nos disse ser utilizada pela Guarda Negra (&lt;i&gt;Black Watch&lt;/i&gt;) britânica.  Segundo um oficial superior britânico, os americanos vêem os iraquianos como  &lt;i&gt;untermenschen&lt;/i&gt;, um termo utilizado por Hitler no &lt;i&gt;Mein Kampf &lt;/i&gt;para  descrever judeus, romenos e eslavos como sub­‑humanos. Foi assim que o exército  nazi colocou cidades russas sob cerco, massacrando combatentes e não-combatentes  de igual modo. &lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-weight: bold; font-family: verdana;"&gt;Normalizar crimes coloniais  como o ataque a Faluja requer tal racismo, unindo a nossa imaginação ao “outro”.  O tema das reportagens é que os “insurrectos” são conduzidos por sinistros  estrangeiros da espécie que decapita pessoas: por exemplo, Musab al-Zarqawi, um  jordaniano que se diz ser o “chefe operacional” da Al-Qaeda no Iraque. Isto é o  que os americanos dizem; é também a mentira mais recente de Blair ao parlamento.  Contém as vezes que isto foi papagueado diante de uma câmara, para nós ouvirmos.  Nenhuma ironia é observada no facto de que os estrangeiros no Iraque são  esmagadoramente americanos e, segundo todas as indicações, odiados. Estas  indicações vêm de organizações de inquéritos aparentemente críveis, uma das  quais estima que dos 2700 ataques mensais da resistência, seis podem ser  creditados ao infame al-Zarqawi. &lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-weight: bold; font-family: verdana;"&gt;Numa &lt;a href="http://tribunaliraque.no.sapo.pt/faluja.htm"&gt;carta enviada a 14 de Outubro  a Kofi Annan&lt;/a&gt;, o Conselho Shura de Faluja, que administra a cidade, afirma:  «Em Faluja, [os americanos] inventaram um novo alvo vago: al-Zarqawi. Quase um  ano decorreu desde que eles criaram este novo pretexto e sempre que destroem  casas, mesquitas, restaurantes e matam crianças e mulheres dizem: “Lançámos uma  operação com êxito contra al-Zarqawi”. O povo de Faluja assegura que esta  pessoa, se ela existe, não está em Faluja... e não temos ligações a quaisquer  grupos que apoiem comportamento tão desumano. Apelamos a si e urgimos as Nações  Unidas [a impedirem] o novo massacre que os americanos e o governo fantoche  estão a planear começar em breve em Faluja, bem como em muitas partes do país».  Nem uma palavra acerca disto foi relatada nos media de referência [mainstream]  da Grã-Bretanha e dos EUA. &lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-weight: bold; font-family: verdana;"&gt;«O que será preciso para  sacudi-los do seu silêncio enganador?» perguntou em Abril o dramaturgo Ronan  Bennett, depois de os marines dos EU, num acto de vingança colectiva pela morte  de quatro mercenários americanos, terem morto mais de 600 pessoas em Faluja,  número esse que nunca foi desmentido. Então, tal como agora, eles utilizaram o  feroz poder de fogo da artilharia dos AC-130 e dos caça­‑bombardeiros F-16 e das  bombas de 500 libras (227 kg) contra tugúrios. Eles incineraram crianças; os  seus franco­‑atiradores (&lt;i&gt;snipers&lt;/i&gt;) jactaram-se de matar qualquer um, tal  como o fizeram os franco­‑atiradores em Sarajevo. &lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-weight: bold; font-family: verdana;"&gt;Bennett referia-se à legião de  silenciosos deputados trabalhistas que se sentam no fundo do parlamento, com  honrosas excepções, e os lobotomizados ministros júnior (lembram-se de Chris  Mullin?). Ele poderia ter acrescentado aqueles jornalistas que se esforçam de  todas as maneiras por proteger o “nosso” lado, que normalizam o impensável ao  não fazerem o mínimo gesto perante a imoralidade e a criminalidade  demonstráveis. Naturalmente, ficar chocado com o que “nós” fazemos é perigoso,  porque isto pode levar a um entendimento mais vasto da razão porque “nós”  estamos ali e do sofrimento que “nós” causamos não só aos iraquianos como também  em muitas partes do mundo onde o terrorismo da al-Qaeda é diminuto em comparação  com o nosso. Não há nada ilícito neste encobrimento; ele acontece à luz do dia.  O exemplo recente mais gritante seguiu-se ao anúncio, em 29 de Outubro, pela  prestigiosa revista científica Lancet, de um estudo no qual estimava que 100.000  iraquianos haviam morrido como resultado da invasão anglo-americana. Oitenta e  quatro por cento das mortes foram causadas pelas acções dos americanos e dos  britânicos, e 95 por cento destas foram mortas por ataques aéreos e fogo de  artilharia, a maior parte das quais eram mulheres e crianças. &lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-weight: bold; font-family: verdana;"&gt;Os editores do excelente  MediaLens observaram a pressa – não, a corrida – para adoçar esta notícia  chocante com “cepticismo” e silêncio (&lt;a href="http://medialens.org/"&gt;mediaLens.org&lt;/a&gt;). Eles relataram que, em 2 de  Novembro, o relatório do Lancet fora ignorado pelo &lt;i&gt;Observer&lt;/i&gt;,  &lt;i&gt;Telegraph&lt;/i&gt;, &lt;i&gt;Sunday Telegraph&lt;/i&gt;, &lt;i&gt;Financial Times&lt;/i&gt;, &lt;i&gt;Star&lt;/i&gt;,  &lt;i&gt;Sun&lt;/i&gt; e muitos outros. A BBC estruturou o relato em termos de “dúvidas” do  governo e o noticiário do Channel 4 apresentou um trabalho alinhavado com base  em informações da Downing Street. Com uma excepção, a nenhum dos cientistas que  compilou este relato rigorosamente revisto por outros cientistas foi pedido que  consubstanciasse o seu trabalho até dez dias depois, quando o pró-guerra  &lt;i&gt;Observer&lt;/i&gt; publicou uma entrevista com o editor do Lancet, tergiversando  tanto que parecia estar a “responder aos seus críticos”. David Edwards, editor  do MediaLens, pediu aos investigadores para responder às críticas dos media; a  sua meticulosa demolição pode ser vista em &lt;a href="http://www.medialens.org/"&gt;www.medialens.org&lt;/a&gt; no alerta de 2 de  Novembro. Nada disto foi publicado no media de referência [&lt;i&gt;mainstream&lt;/i&gt;].  Assim, o facto impensável de que “nós” nos havíamos engajado em tal carnificina  foi suprimido – normalizado. Isto recorda a supressão da morte de mais de um  milhão de iraquianos, incluindo meio milhão de crianças abaixo dos cinco anos,  em resultado do embargo conduzido pelos anglo-americanos. &lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-weight: bold; font-family: verdana;"&gt;Em contraste, não há qualquer  questionamento dos media quanto à metodologia do Tribunal Especial Iraquiano, o  qual anunciou que sepulturas em massa contêm 300.000 vítimas de Saddam Hussein.  O Tribunal Especial, um produto do regime &lt;i&gt;quisling&lt;/i&gt; de Bagdade, é dirigido  pelos americanos; cientistas respeitados nada querem ter a ver com ele. Não há  questionamento daquilo a que a BBC chama «primeiras eleições democráticas do  Iraque». Não há relatos acerca de como os americanos assumiram o controle do  processo eleitoral com dois decretos aprovados em Junho que permitem a uma  “comissão eleitoral” eliminar partidos de que Washington não goste. A revista  Time relata que a CIA está a comprar os seus candidatos preferidos, o que é a  maneira como a agência conserta eleições por todo o mundo. Quando ou se as  eleições tiverem lugar, seremos submergidos por clichés acerca da nobreza do  acto de votar, enquanto os fantoches da América são “democraticamente”  escolhidos. &lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-weight: bold; font-family: verdana;"&gt;O modelo para isto foi a  “cobertura” da eleição presidencial americana, um vendaval de trivialidades a  normalizarem o impensável de que o que se verificou a 2 de Novembro não foi a  democracia em acção. Com apenas uma excepção, nenhum membro do rebanho de sábios  vindos de Londres descreveu o circo de Bush e de Kerry como a maquinação de  pouco mais do que 1 por cento da população, os ultra­‑ricos e poderosos que  controlam e administram uma economia de guerra permanente. Que os perdedores não  foram somente os democratas, mas sim a vasta maioria dos americanos, sem  importar em quem votaram, era algo imencionável. &lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-weight: bold; font-family: verdana;"&gt;Ninguém relatou que John Kerry,  ao contrastar a “guerra ao terror” com o desastroso ataque de Bush ao Iraque,  simplesmente explorou a desconfiança pública em relação à invasão a fim de  construir apoio à dominação americana por todo o mundo. «Não estou a falar em  abandonar [o Iraque]», disse Kerry. «Estou a falar em vencer!». Assim, tanto ele  como Bush mudaram a agenda ainda mais para a direita, de modo que milhões de  democratas anti-guerra pudessem ser persuadidos de que os EUA tinham «a  responsabilidade de acabar a tarefa» para que não houvesse o “caos”. A questão  na campanha presidencial era nem Bush nem Kerry, mas uma economia de guerra  destinada a conquistar o exterior e a efectuar divisão económica interna. O  silêncio sobre isto foi completo, tanto na América como aqui. &lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-weight: bold; font-family: verdana;"&gt;Bush venceu apelando, com mais  proficiência do que Kerry, ao medo de uma mal definida ameaça. Como foi ele  capaz de normalizar esta paranóia? Vamos olhar para o passado recente. A seguir  ao fim da guerra fria, a elite americana – republicanos e democratas – estava a  ter grande dificuldade em convencer o público de que os milhares de milhões de  dólares gastos na economia de guerra não deveriam ser desviados para um  “dividendo da paz”. Uma maioria de americanos recusava-se a acreditar que ainda  houvesse uma “ameaça” tão poderosa como a ameaça vermelha. Isto não impediu Bill  Clinton de enviar ao Congresso o maior orçamento de “defesa” da história para  apoiar uma estratégia do Pentágono denominada «dominância de pleno espectro». Em  11 de Setembro de 2001 foi dado um nome a essa ameaça: Islão. &lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-weight: bold; font-family: verdana;"&gt;Ao viajar recentemente a  Philadelphia deparei-me com o Relatório Kean do Congresso sobre o 11 de  Setembro, à venda na prateleira das livraria. «Quantos você tem para vender?»  perguntei. «Um ou dois», foi a resposta. «Isto vai desaparecer logo». Todavia,  este modesto livro de capa azul é uma revelação. Tal como o relatório Butler no  Reino Unido, que pormenoriza toda a evidência incriminatória do amanhamento da  inteligência feito por Blair antes da invasão do Iraque, e a seguir retirou as  suas luvas e concluiu que ninguém era responsável, da mesma forma o relatório  Kean torna dolorosamente claro o que realmente aconteceu, e a seguir deixa de  tirar as conclusões que o fitam na cara. É um supremo acto de normalizar o  impensável. Isto não é surpreendente, pois as conclusões são vulcânicas. &lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-weight: bold; font-family: verdana;"&gt;A mais importante prova para a  Comissão 11/Set veio do general Ralph Eberhart, comandante da North American  Aerospace Defence Command (Norad). «Os caças a jacto da força aérea podiam ter  interceptado aviões de carreira sequestrados a correrem em direcção ao World  Trade Center e ao Pentágono», disse ele, «se ao menos os controladores de  tráfego aéreo houvessem pedido ajuda 13 minutos mais cedo... Nós teríamos sido  capazes de derrubar todos os três... todos os quatro deles». &lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-weight: bold; font-family: verdana;"&gt;Por que é que isto não  aconteceu? &lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-weight: bold; font-family: verdana;"&gt;O relatório Kean torna claro  que «a defesa do espaço aéreo americano no 11/Set não foi conduzida de acordo  com o treinamento pré-existente e com os protocolos... Se um sequestro fosse  confirmado, os procedimentos determinavam ao coordenador do sequestro o dever de  contactar o National Military Command Center (NMCC)... O NMCC pediria então a  aprovação do gabinete do secretário da Defesa para proporcionar assistência  militar...» Singularmente, isto não aconteceu. Foi dito à comissão, pelo  vice-administrador da Autoridade Federal de Aviação, que não havia razão para o  procedimento não estar a operar naquela manhã. «De acordo com os meus 30 anos de  experiência...» disse Monte Belger, «o NMCC estava na rede e a ouvir tudo em  tempo real ... Posso afirmar-lhe que vivi dúzias de sequestros... e eles estavam  sempre a ouvir com todos os outros». Mas nesta ocasião, eles não estavam. O  relatório Kean diz que o NMCC nunca foi informado. Porquê? Mais uma vez,  singularmente, todas as linhas de comunicação falharam, foi dito à comissão  pelas altas patentes militares da América. Donald Rumsfeld, secretário da  Defesa, não podia ser encontrado, e quando ele finalmente falou com Bush uma  hora e meia mais tarde, foi, diz o relatório Kean, «uma chamada breve na qual o  assunto da autoridade para derrubar não foi discutido». Em resultado disso, os  comandantes do Norad foram «deixados no escuro acerca do que era a sua  missão».&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-weight: bold; font-family: verdana;"&gt;O relatório revela que a única  parte do sistema de comando, anteriormente à prova de falhas, que funcionou  estava na Casa Branca, onde o vice-presidente Cheney estava no controle efectivo  naquele dia, e em contacto estreito com o NMCC. Porque é que ele nada fez acerca  dos primeiros dois aviões sequestrados? Porque é que o NMCC, a ligação vital,  esteve silencioso pela primeira na sua existência? Kean ostentosamente recusa-se  a falar disto. Naturalmente, podia ser devido à mais extraordinária combinação  de coincidências. Ou não podia. Em Julho de 2001, num documento de informação  &lt;i&gt;top secret &lt;/i&gt;preparado para Bush lia-se: «Nós [a CIA e o FBI] acreditamos  que OBL [Osama Bin Laden] lançará um ataque terrorista significativo contra os  interesses dos EUA e/ou de Israel nas próximas semanas. O ataque será  espectacular e concebido para infligir baixas em massa contra instalações ou  interesses americanos. Os preparativos do ataque foram efectuados. O ataque  ocorrerá com pequena ou nenhuma advertência».&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-weight: bold; font-family: verdana;"&gt;Na tarde do 11 de Setembro,  Donald Rumfeld, tendo deixado de actuar contra aqueles que haviam acabado de  atacar os Estados Unidos, disse aos seus ajudantes para porem em movimento um  ataque ao Iraque - quando a evidência era não existente. Dezoito meses depois, a  invasão do Iraque, não provocada e baseada em mentiras agora documentadas, teve  lugar. Este crime épico é o maior escândalo político do nosso tempo, o último  capítulo na longa história do século XX de conquistas ocidentais de outras  terras e dos seus recursos. Se permitirmos que isto seja normalizado, se  recusarmos questionar e investigar as agendas escondidas e o inexplicável poder  secreto das estruturas no coração dos governos “democráticos” e se permitirmos  que o povo de Faluja seja esmagado em nosso nome, nós renunciaremos tanto à  democracia como à humanidade.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18040584-112973594902793942?l=johnpilger.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://www.johnpilger.com/print/133391' title='Faluja, as eleições dos EUA e o 11/Set: uma questão de normalizar o impensável'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112973594902793942'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112973594902793942'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://johnpilger.blogspot.com/2004/11/faluja-as-eleies-dos-eua-e-o-11set-uma.html' title='Faluja, as eleições dos EUA e o 11/Set: uma questão de normalizar o impensável'/><author><name>IA</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18040584.post-112973570547079190</id><published>2004-10-26T16:26:00.000+01:00</published><updated>2005-10-19T16:28:25.476+01:00</updated><title type='text'>Haverá uma guerra contra o mundo após 2 de Novembro?</title><content type='html'>&lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-weight: bold; font-family: verdana;"&gt;Há algo surrealista em visitar  os Estados Unidos nos últimos dias da campanha presidencial. Se George W. Bush  ganhar, segundo um cientista com que me encontrei, o qual escapou da Europa  dominada pelos nazis, os EUA entregarão muitos dos seus enfeites democráticos e  sucumbirão aos seus impulsos totalitários. Se John Kerry vencer, segundo a maior  parte dos eleitores democratas, o único mandato que terá é que ele não é  Bush.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-weight: bold; font-family: verdana;"&gt;Nunca tantas mãos liberais  foram tão forçadas sobre um candidato cujas únicas declarações memoráveis é de  que aspira a ser outro Bush. Veja-se o Irão. Uma das conselheiras de segurança  nacional de Kerry, Susan Rice, acusou Bush de “permanecer de lado enquanto o  programa nuclear do Irão avançava”. Não há nem um fragmento de evidência de que  o Irão esteja a desenvolver armas nucleares, mas Kerry está a juntar-se ao mesmo  frenesim orquestrado que conduziu à invasão do Iraque. Tendo principiado a sua  campanha a prometer mais 40 mil soldados para o Iraque, diz-se que ele tem um  “plano secreto para acabar a guerra” o qual prevê uma retirada em quatro anos.  Isto é um eco de Richard Nixon, que na campanha presidencial de 1968 prometeu um  “plano secreto” para acabar com a guerra no Vietname. Uma vez no gabinete, ele  acelerou a carnificina e a guerra arrastou-se por mais seis anos e meio. Para  Kerry, tal como para Nixon, a mensagem é que não é um fraco. Nada na sua  campanha ou na sua carreira sugere que ele não continuará, e mesmo  intensificará, a “guerra ao terror”, a qual é agora santificada como uma cruzada  de americanismo tal como aquela contra o comunismo. Nenhum presidente democrata  se esquivou a tal tarefa: John Kennedy na guerra fria, Lyndon Johnson no  Vietname. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-weight: bold; font-family: verdana;"&gt;Isto representa um grande  perigo para todos nós, mas não se permite que nada disto interfira na campanha  ou na “cobertura” dos media. Numa sociedade supostamente livre e aberta, o grau  de censura por omissão é estarrecedor. O &lt;i&gt;New York Times&lt;/i&gt;, o porta-bandeira  liberal do país, tendo-se recuperado de um suave ataque de contrição pela sua  falha abjecta em desafiar as mentiras de Bush sobre o Iraque, tem estado a  publicar polegadas de coluna sobre o-que-houve-de-errado na “libertação” daquele  país. Ele culpa erros: equívocos tácticos, falhas de inteligência. Mas nem uma  palavra sugere que a invasão foi uma conquista colonial, deliberada como  qualquer outra, e que sessenta anos de direito internacional fazem disto “o  supremo crime de guerra”, para citar os juizes de Nuremberg. Nem uma palavra  sugere que a carnificina americana da população do Iraque foi e é uma atrocidade  sistemática, na qual a tortura de prisioneiros em Abu Ghraib foi um simples  reflexo. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-weight: bold; font-family: verdana;"&gt;A atrocidade em curso na cidade  de Faluja, na qual tropas britânicas, contra a opinião do povo britânico, vão  ser acessórias, é um bom exemplo. Para os políticos e jornalistas americanos –  há umas poucas excepções honrosas – os US marines estão a preparar-se para mais  uma das suas “batalhas”. O seu último ataque contra Faluja, em Abril,  proporcionou uma visão prévia. Tanques de quarenta toneladas e helicópteros  armados foram utilizados contra bairros de casebres. Aviões despejaram bombas de  500 libras (226,5 kg), atiradores de elite (&lt;i&gt;snipers&lt;/i&gt;) mataram pessoas  idosas, mulheres e crianças, ambulâncias foram alvejadas. Os marines fecharam o  único hospital numa cidade de 300 mil habitantes durante mais de duas semanas,  de modo a que pudessem utilizá-lo como posição militar. Quando se estimou que  eles tivessem abatido 600 pessoas, não houve qualquer desmentido. Isto foi mais  do que todas as vítimas das bombas suicidas no ano anterior. Nem tão pouco eles  negaram que a sua barbaridade era uma vingança pela morte de quatro mercenários  americanos na cidade; conduzidos por cowboys confessos, eles são especialistas  em vingança. John Kerry nada disse; os media relataram a atrocidade como “uma  operação militar”, contra “militantes estrangeiros” e “insurrectos”, nunca  contra civis e iraquianos a defenderem os seus lares e a sua pátria. Além disso,  o povo americano está quase totalmente inconsciente de que os marines foram  expulsos de Faluja através de combates de rua heróicos. Os americanos permanecem  inconscientes, também, da pirataria que decorre da aventura assassina do seu  governo. Quem na vida pública pergunta o paradeiro dos 18,46 mil milhões de  dólares que o Congresso americano aprovou para a reconstrução e a ajuda  humanitária ao Iraque? Como relata a Unicef, a maior parte dos hospitais estão  privados até mesmo de analgésicos, e a desnutrição aguda entre crianças duplicou  desde a “libertação”. De facto, menos de 29 milhões de dólares foram atribuídos,  a maior parte disto a firmas de segurança britânicas, com os seus criminosos  ex-SAS e veteranos do apartheid da África do Sul. Onde está o resto deste  dinheiro que deveria estar ajudando a salvar vidas? O não-fraco Kerry não ousa  perguntar. Nem tão pouco ele ou qualquer pessoa com um perfil público perguntam  porque o povo do Iraque foi forçado a pagar, desde a queda de Saddam, quase 80  milhões de dólares aos EUA e à Grã-Bretanha como “reparações”. Mesmo Israel  recebeu uma fortuna incontável em dinheiro do petróleo iraquiano como  compensação pelas suas “perdas de turismo” nas Colinas de Golan – parte da Síria  que ocupa ilegalmente. Quanto ao petróleo, tal palavra é imencionável na  competição pelo mais poderoso emprego do mundo. A resistência, na sua campanha  de sabotagem económica, tem tido tanto êxito que o oleoduto vital que transporta  petróleo para o Mediterrâneo turco foi explodido 37 vezes. Os terminais no sul  estão sob ataque constante, fechando efectivamente todas as exportações de  petróleo bruto e ameaçando economias nacionais. O facto de que o mundo possa ter  perdido o petróleo iraquiano é envolto no mesmo silêncio que assegura&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;que os americanos têm uma escassa ideia da  natureza e da escala da permissividade para derramar sangue conduzida em seu  nome. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-weight: bold; font-family: verdana;"&gt;O silêncio mais duradouro é o  que protege o sistema produtor destes eventos catastróficos. Ou seja, o  americanismo, apesar de não ousar dizer o seu nome, o que é estranho pois o seu  oposto, o anti-americanismo, tem há muito sido exibido com êxito como uma  expressão pejorativa, uma resposta que dá para tudo em análises críticas do  sistema imperial e dos seus mitos. O americanismo, a ideologia, tem significado  democracia interna, para alguns, e uma guerra à democracia no exterior. Da  Guatemala ao Irão, do Chile à Nicarágua, à luta pela liberdade na África do Sul,  nos dias presentes na Venezuela, o terrorismo de Estado americano, licenciado  tanto pelas administrações republicanas como democratas, combateu democratas e  patrocinou totalitários. A maior parte das sociedades atacadas ou subvertidas de  outra forma pelo poder americano são fracas e sem defesa, e há uma lógica nisto.  Se um pequeno país tivesse êxito em tornar-se livre e estabelecer o seu próprio  caminho de desenvolvimento, então o seu bom exemplo para os outros tornar-se-ia  uma ameaça para Washington. E as graves intenções por trás disto? Madeleine  Albright, a secretária de Estado de Bill Clinton, disse certa vez nas Nações  Unidas que os EUA tinham direito ao «uso unilateral do poder» para assegurar  «acesso não inibido a mercados chave, abastecimento de energia e recursos  estratégicos». Ou como Colin Powell, o risível Bushita promovido pelos media a  liberal, colocou há mais de uma década: «Quero ser o valentão (&lt;i&gt;bully&lt;/i&gt;) do  bairro». Os imperialistas da Grã-Bretanha acreditavam exactamente nisso, e ainda  acreditam, só que a linguagem é discreta.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-weight: bold; font-family: verdana;"&gt;É por isso que os povos de todo  o mundo, cuja consciência sobre estes assuntos se tem­ elevado agudamente nos  últimos poucos anos, são “anti-americanos”. Isto nada tem a ver com as pessoas  comuns dos Estados Unidos, que agora observam um capitalismo darwiniano consumir  as suas liberdades reais e lendárias e reduzir o “mercado livre” a uma  liquidação em saldos de activos públicos. É notável, se não inspirador, que  tantos rejeitem a lavagem cerebral baseada na classe e na raça, principiada na  infância, e que esse sistema baseado numa classe e raça se chame “o sonho  americano”. O que acontecerá se o pesadelo no Iraque prosseguir? Talvez aqueles  milhões de americanos preocupados, que actualmente estão paralisados pelo desejo  de se livrarem de Bush a qualquer preço, se desvencilhem da sua ambivalência,  sem se importar com quem vence em 2 de Novembro. Será, então, que despertará um  gigante, tal como aconteceu durante a campanha dos direitos civis e a guerra do  Vietname e o grande movimento pelo congelamento de armas nucleares? Devemos  confiar que sim; a alternativa é uma guerra ao mundo.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18040584-112973570547079190?l=johnpilger.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://pilger.carlton.com/print/133387' title='Haverá uma guerra contra o mundo após 2 de Novembro?'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112973570547079190'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112973570547079190'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://johnpilger.blogspot.com/2004/10/haver-uma-guerra-contra-o-mundo-aps-2.html' title='Haverá uma guerra contra o mundo após 2 de Novembro?'/><author><name>IA</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18040584.post-112973558026045343</id><published>2004-10-13T16:23:00.000+01:00</published><updated>2005-10-19T16:26:20.266+01:00</updated><title type='text'>Quando a verdade é substituída pelo silêncio, o silêncio é uma mentira</title><content type='html'>&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: Verdana;"&gt;Em  Outubro de 1999 visitei um hospital com crianças a morrerem em Bagdade em  companhia de Denis Halliday, que no ano anterior renunciara ao cargo de  assistente do secretário-geral das Nações Unidas. «Através das Nações Unidas  estamos a travar uma guerra contra o povo do Iraque. Estamos a atingir civis.  Pior, estamos a atingir crianças... O que dizer disto tudo?», perguntou  ele.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: Verdana;"&gt;Halliday  estivera 34 anos na ONU. Como funcionário internacional muito respeitado no  campo de «ajudar as pessoas, não prejudicá-las», como ele coloca, ele fora  enviado ao Iraque para pôr em execução o programa petróleo por alimentos, o qual  posteriormente denunciou como uma impostura. «Estou a renunciar», escreveu,  «porque a política de sanções económicas está a destruir toda uma inteira  sociedade. Cinco mil crianças estão a morrer todos os meses. Não quero  administrar um programa que cumpre a definição de  genocídio».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: Verdana;"&gt;O  sucessor de Halliday, Hans von Sponeck, outro assistente do secretário-geral com  mais de trinta anos de serviço, também resignou em protesto. Jutta Burghardt, a  responsável do Programa Mundial de Alimentos no Iraque, acompanhou-os, dizendo  que não podia mais tolerar o que estava a ser feito ao povo iraquiano. A sua  acção colectiva foi inédita, mas mereceu apenas uma atenção passageira por parte  dos media. Não houve investigação séria de jornalistas às suas graves acusações  contra os governos britânico e americano, os quais efectivamente prosseguiram o  embargo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: Verdana;"&gt;A  revelação de Von Sponek de que as sanções obrigavam os iraquianos a viverem com  pouco mais de US$100 por ano não foram relatadas. «Estrangulamento deliberado»,  chamou ele a isto. Nem tão pouco o facto de que, até Julho de 2002, mais de US$  5 mil milhões de valiosos abastecimentos humanitários, os quais haviam sido  aprovados pelo comité de sanções da ONU e pagos pelo Iraque, foram bloqueados  por George W. Bush, com o apoio de Tony Blair. Eles incluíam produtos  alimentares, remédios e equipamento médico, bem como itens vitais para  abastecimento de água, saúde pública, agricultura e  educação.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: Verdana;"&gt;O  custo em vidas era estarrecedor. Entre 1991 e 1998, relatou a Unicef, morreram  500 mil crianças iraquianas com menos de cinco anos. «Se você incluir adultos»,  afirmou Halliday, «o número agora é quase certamente bem superior ao milhão». Em  1996, numa entrevista ao programa americano 60 minutos, sobre assuntos actuais,  perguntaram a Madeleine Albright, então embaixadora americana na ONU, «Ouvimos  que meio milhão de crianças morreu... valeu a pena pagar esse preço?» Resposta  de Albright: «Nós pensamos que valeu a pena». Desde então a rede CBS de  televisão tem-se recusado a permitir que o videotape daquela entrevista fosse  mostrado outra vez, e o repórter não discutiu o  assunto.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: Verdana;"&gt;Halliday  e von Sponek têm sido persona non grata na maior parte dos media americanos e  britânicos. Aquilo que estes denunciantes haviam revelado é demasiado  desagradável: não só o embargo era um grande crime contra a humanidade como  realmente reforçava o controle de Saddam Hussein. A razão porque tantos  iraquianos se sentem ressentidos em relação à invasão é também porque recordam o  embargo anglo-americano como um cerco medieval, incapacitante, que os impediu de  derrubar a sua ditadura. Isto quase nunca é relatado na  Grã-Bretanha.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: Verdana;"&gt;Halliday  apareceu no Newsnight da BBC2 logo após a sua renúncia. Vi o apresentador Jeremy  Paxman permitir a Peter Hain, então ministro do Foreign Office, ofendê-lo como  um «apologista de Saddam». A vergonhosa actuação de Hain não era surpreendente.  Na véspera da conferência daquele ano do Partido Trabalhista ele afastou o  Iraque como uma «questão marginal».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: Verdana;"&gt;Alan  Rusbridger, o editor do Guardian, escreveu recentemente no New Statesman que  alguns jornalistas «consideram mau costume empenhar-se em debates públicos sobre  qualquer coisa que tenha a ver com ética ou padrões, que não importam para a  finalidade fundamental do jornalismo». Isto constituía um bom ponto de partida  da habitual conversa sociável que passa por comentário nos media mas que  raramente se dirige à «finalidade fundamental do jornalismo» — e, especialmente,  nunca aos seus silêncios letais e coniventes.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: Verdana;"&gt;«Quando  a verdade é substituída pelo silêncio», disse o dissidente soviético Yevgeny  Yevtushenko, «o silêncio é uma mentira». Ele podia estar a referir-se ao  silêncio sobre os efeitos devastadores do embargo. É um silêncio que transforma  jornalistas em acessórios, assim como o seu silêncio contribuiu para uma invasão  ilegal e não provocada de um país indefeso. Sim, havia muito ruído nos media  antes da invasão, mas da versão fiada dominada por Blair, e os que diziam a  verdade foram postos de lado. Scott Ritter era o inspector superior de armas da  ONU no Iraque. Ritter começou a denunciar há mais de cinco anos quando declarou  «Em 1998, a infra­‑estrutura de armas químicas [do Iraque] fora completamente  desmantelada ou destruída pela Unscom... O programa de armas biológicas acabara,  as maiores instalações foram eliminadas... O programa de mísseis balísticos de  alcance longo estava completamente eliminado. Se eu tivesse de quantificar a  ameaça do Iraque diria que é zero».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: Verdana;"&gt;A  verdade de Ritter mal foi reconhecida. Tal como Halliday e von Sponeck, ele  quase nunca era mencionado nos noticiários da televisão, a principal fonte de  informação da maior parte do povo. O estudado obscurecimento  [&lt;i&gt;obfuscation&lt;/i&gt;] de Hans Blix era muito mais aceitável como a “voz do  equilíbrio”. Nunca foi questionado que Blix, tal como Kofi Annan, estivesse a  efectuar os seus próprios jogos políticos com  Washington.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: Verdana;"&gt;Até  à queda de Bagdade, a desinformação e as mentiras de Bush e Blair eram  canalizadas, amplificadas e legitimadas pelos jornalistas, particularmente pelos  da BBC, os quais definem a sua cobertura política pelos pronunciamentos,  acontecimentos e personalidades de Whitehall e Westminster. Andrew Gilligan  rompeu esta regra nas suas excelentes reportagens de Bagdade e posteriormente na  revelação da mais importante fraude de Blair. É instrutivo que a maior parte dos  ataques efectuados contra ele tivessem vindo dos seus colegas  jornalistas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: Verdana;"&gt;Nos  18 meses cruciais que precederam o ataque ao Iraque, quando Bush e Blair estavam  a planear secretamente a invasão, jornalistas famosos e bem pagos tornaram-se  pouco mais do que canais, divulgadores dos divulgadores — aquilo que os  franceses chamam de funcionários. O papel supremo dos jornalistas reais não é  canalizar e sim desafiar, não é cair no silêncio e sim expor. Houve excepções  honrosas, nomeadamente Richard Norton-Taylor no Guardian e o irrepreensível  Robert Fisk no Independent. Dois jornais, o Mirror e o Independent , romperam as  fileiras. Além de Gilligan e de mais um ou dois, os homens da comunicação  fracassaram em reflectir o próprio assenso da consciência da verdade entre o  público. Na rádio comercial, um importante jornalista que levantava demasiadas  questões foi instruído a «baixar o tom do material anti-guerra porque os  anunciantes não gostavam disso».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: Verdana;"&gt;Nos  Estados Unidos, nos chamados medias de referência do que é constitucionalmente a  imprensa mais livre do mundo, a linha manteve-se, com o resultado de que as  mentiras de Bush foram acreditadas pela maioria da população. Os jornalistas  americanos estão agora a desculpar-se, mas é demasiado tarde. Os militares  americanos estão fora de controle no Iraque, a bombardear áreas densamente  populosas com impunidade. Quantas famílias iraquianas como a de Kenneth Bigley  estão agora enlutadas? Não sentimos a sua angústia, nem ouvimos os seus apelos  por misericórdia. Segundo estimativa recente, cerca de 37 mil iraquianos  morreram nesta loucura grotesca.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: Verdana;"&gt;Charles  Lewis, o antigo repórter-estrela da CBS que agora dirige o Centre for Public  Integrity, em Washington, DC, disse-me não ter dúvidas de que se os seus colegas  tivessem cumprido a sua tarefa ao invés de actuarem como números  (&lt;i&gt;ciphers&lt;/i&gt;), a invasão não se teria verificado. Tal é o poder dos media  modernos, um poder que deveríamos recuperar daqueles que o  subvertem.&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: Verdana;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18040584-112973558026045343?l=johnpilger.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://pilger.carlton.com/print/133385' title='Quando a verdade é substituída pelo silêncio, o silêncio é uma mentira'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112973558026045343'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112973558026045343'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://johnpilger.blogspot.com/2004/10/quando-verdade-substituda-pelo-silncio.html' title='Quando a verdade é substituída pelo silêncio, o silêncio é uma mentira'/><author><name>IA</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18040584.post-112973539386454604</id><published>2004-10-11T16:21:00.000+01:00</published><updated>2005-10-19T16:24:17.030+01:00</updated><title type='text'>Roubando uma nação *: Como os britânicos e os EU expulsaram uma população inteira</title><content type='html'>&lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Há momentos em que uma tragédia, um crime nos diz como todo um sistema funciona por detrás da sua fachada democrática e nos ajuda a entender quanto do mundo é governado para o benefício dos poderosos e como os governos mentem. Para entender a catástrofe do Iraque, e todos os outros Iraques ao longo do rastro de sangue e lágrimas da história imperial, não precisamos de olhar mais longe do que Diego Garcia.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;A história de Diego Garcia é chocante, quase incrível. Uma colónia britânica situada a meio caminho entre a África e a Ásia no Oceano Índico, a ilha é uma de 64 ilhas de coral únicas que formam o arquipélago Chagos, um fenómeno de beleza natural, e outrora de paz. Os locutores referem­‑se a ela de passagem: «B-52 americanos e bombardeiros furtivos descolaram ontem à noite da ilha britânica inabitada de Diego Garcia para bombardear o Iraque (ou o Afeganistão)». É a palavra inabitada que abre a porta sobre o horror do que lá foi feito. Nos anos 70, o ministro de defesa de Londres produziu esta épica mentira: «Não há nada nos nossos ficheiros sobre uma população e uma evacuação».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Diego Garcia foi povoada pela primeira vez no final do século dezoito. Pelo menos 2000 pessoas viviam ali: uma gentil nação crioula com vilas prósperas, uma escola, um hospital, uma igreja, uma prisão, um caminho­‑de­‑ferro, docas, uma plantação de copra. Vendo um filme rodado por missionários nos anos 60, posso entender porque é que cada natural das ilhas Chagos que encontrei lhes chama paraíso; há uma sequência granulada onde os cães amados pelos habitantes das ilhas estão a nadar na lagoa abrigada, orlada de palmeiras, apanhando peixe.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Tudo isto começou a findar quando um almirante­‑à­‑ré norte­‑americano pôs o pé em terra em 1961 e Diego Garcia foi assinalada como o local do que é hoje uma das maiores bases americanas do mundo. Há agora mais de 2000 tropas, ancoragem para 30 navios de guerra, um depósito nuclear, uma estação de espionagem por satélite, centros comerciais, bares, um campo de golfe. Os americanos chamam­‑lhe “Campo Justiça”.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Durante os anos 60, em alto secretismo, o governo trabalhista de Harold Wilson conspirou com duas administrações norte­‑americanas para «varrer» e «sanitarizar» as ilhas: as palavras usadas em documentos norte­‑americanos. Ficheiros encontrados nos Arquivos Nacionais em Washington e no Gabinete de Registos Públicos em Londres fornecem uma narrativa espantosa de mentira oficial demasiado familiar para aqueles que fizeram a crónica das mentiras sobre o Iraque.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Para se ver livre da população, o ministério dos negócios estrangeiros inventou a ficção de que os habitantes das ilhas eram apenas meros trabalhadores contratados em trânsito que podiam ser “reenviados” para as Maurícias, a um milhar de milhas de distância. Na verdade, muitos habitantes das ilhas traçaram a sua ancestralidade a cinco gerações atrás, como os seus cemitérios testemunham. O objectivo, escreveu um funcionário do ministério dos negócios estrangeiros em 1966, «é converter todos os residentes existentes... em residentes de curto prazo, temporários».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;O que os ficheiros também revelam é uma imperiosa atitude de brutalidade. Em Agosto de 1966, Sir Paul Gore­‑Booth, sub­secretário permanente nos negócios estrangeiros, escreveu: «Temos seguramente de ser muito duros acerca disto. O objectivo do exercício foi obter alguns rochedos que permanecerão &lt;i&gt;nossos&lt;/i&gt;. Não haverá população indígena, a não ser de gaivotas». No final há uma nota escrita pela mão de D. H. Greenhill, mais tarde barão Greenhill: «Juntamente com os pássaros vão alguns Tarzans e Sextas Feiras...» Sob o título “Mantendo a ficção”, outro funcionário insta os seus colegas a reclassificar os habitantes das ilhas como «população flutuante» e a «inventar as regras à medida que avançamos».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Não há uma palavra de preocupação pelas suas vítimas. Apenas um funcionário pareceu preocupar­‑se em ser apanhado, escrevendo que era «razoavelmente insatisfatório» que «proponhamos certificar as pessoas, mais ou menos fraudulentamente, como pertencendo a outro lugar». Os documentos não deixam dúvidas que o encobrimento foi aprovado pelo primeiro­‑ministro e pelo menos três ministros do gabinete.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;A princípio, os habitantes das ilhas foram enganados e intimidados para sair; aqueles que tinham ido às Maurícias para tratamento médico urgente foram impedidos de voltar. À medida que os norte­‑americanos começaram a chegar e a construir a base, Sir Bruce Greatbatch, governador das Seychelles que tinha sido encarregado de «sanitarizar», ordenou que todos os cães de Diego Garcia fossem mortos. Quase um milhar de animais de estimação foram apanhados e gaseados, usando os fumos de escape de veículos militares norte­‑americanos. «Eles puseram os cães numa fornalha onde as pessoas trabalhavam», disse Lizette Tallate, agora nos seus 60, «... e quando os seus cães foram levados à sua frente, as nossas crianças gritaram e choraram».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Os habitantes das ilhas tomaram isto como um aviso; e a população remanescente foi carregada em navios, autorizada a levar apenas uma mala. Deixaram para trás as suas casas e mobília, e as suas vidas. Numa viagem nos mares tempestuosos, os cavalos da companhia de copra ocuparam o convés, enquanto mulheres e crianças eram forçados a dormir sobre uma carga de fertilizante de pássaro. Ao chegar às Seychelles, foram encaminhados encosta acima para uma prisão onde foram retidos até serem transportados para as Maurícias. Aí, foram despejados nas docas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Nos primeiros meses do seu exílio, enquanto lutavam para sobreviver, suicídios e mortes de crianças eram comuns. Lizette perdeu duas crianças. «O doutor disse que não pode tratar a tristeza», relembrou. Rita Bancoult, agora com 79 anos, perdeu duas filhas e um filho; disse­‑me que quando disseram ao seu marido que a família nunca poderia voltar a casa, sofreu um ataque e morreu. Desemprego, drogas e prostituição, todos estranhos à sua sociedade, assolaram­‑nos. Somente após mais de uma década receberam qualquer compensação do governo britânico: menos de 3.000 libras cada, o que não cobriu as suas dívidas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;O comportamento do governo Blair é, em muitos aspectos, o pior. Em 2000, os naturais das ilhas ganharam uma batalha histórica no Supremo Tribunal, que decretou que a sua expulsão foi ilegal. Algumas horas após o julgamento, o ministério dos negócios estrangeiros anunciou que não seria possível que voltassem para Diego Garcia por causa de um “tratado” com Washington – na verdade, um acordo escondido do Parlamento e do Congresso dos EU. Quanto aos outros naturais das ilhas no grupo, um «estudo de viabilidade» iria determinar se seriam reinstalados. Isto foi descrito pelo professor David Stoddart, uma autoridade mundial sobre as Chagos, como «inútil» e «uma perfeita charada». O “estudo” não consultou um único natural das ilhas; concluiu que as ilhas se estavam a “afundar­”, o que eram histórias para os norte­‑americanos, os quais estavam a construir mais e mais instalações na base; a marinha dos EU descreve as condições de vida como tão excepcionais que são «inacreditáveis».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Em 2003, num caso seguinte no Supremo tribunal, agora publicitado, foi negada uma compensação aos naturais das ilhas, tendo sido permitido à defesa governamental pelo juiz atacá­‑los e humilhá­‑los na cadeira das testemunhas, e com o juiz Ousley a referir­‑se a «nós» como se o tribunal e o ministério dos negócios estrangeiros estivessem do mesmo lado. Em Junho passado, o governo invocou a arcaica prerrogativa real em ordem a esmagar o julgamento de 2000. Foi emitido um decreto dizendo que os naturais das ilhas estavam banidos para sempre de voltar a casa. Estes eram os mesmos poderes totalitários usados para os expulsar em segredo há 40 anos atrás; Blair usou­‑os para autorizar o seu ataque ilegal ao Iraque.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;Conduzidos por um homem notável, Olivier Bancoult, um electricista, e apoiados por um tenaz e valente advogado londrino, Richard Gifford, os naturais das ilhas, vão para o Tribunal Europeu e talvez mais longe. O artigo 7 do estatuto do Tribunal Criminal Internacional descreve a «deportação e transferência forçada de população... por expulsão ou outros actos coercivos» como um crime contra a humanidade. Enquanto os bombardeiros de Bush descolam do seu paraíso, os naturais das ilhas Chagos, diz Olivier Bancoult, «não deixarão este grande crime passar. O mundo está a mudar; vamos ganhar».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;____________&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;
&lt;/p&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;* O documentário de John  Pilger, &lt;i&gt;Stealing a nation &lt;/i&gt;[Roubando uma nação], foi mostrado na ITV  Network na Grã­‑Bretanha.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18040584-112973539386454604?l=johnpilger.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://www.johnpilger.com/print/133384' title='Roubando uma nação *: Como os britânicos e os EU expulsaram uma população inteira'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112973539386454604'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112973539386454604'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://johnpilger.blogspot.com/2004/10/roubando-uma-nao-como-os-britnicos-e.html' title='Roubando uma nação *: Como os britânicos e os EU expulsaram uma população inteira'/><author><name>IA</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18040584.post-112973461779982630</id><published>2004-10-01T16:04:00.000+01:00</published><updated>2005-10-19T16:20:33.383+01:00</updated><title type='text'>Como produzir cidadãos consumistas, mal-informados e conformistas *</title><content type='html'>&lt;div style="font-family: verdana; text-align: justify;"&gt; &lt;table style="border-collapse: collapse; text-align: left; margin-left: 0px; margin-right: 0px;" border="0" cellpadding="0" cellspacing="0" height="46"&gt; &lt;tbody&gt; &lt;tr style="height: 33pt;"&gt; &lt;td style="padding: 0.75pt; width: 100%; height: 33pt;" width="100%"&gt;  &lt;p style="font-family: verdana; font-weight: bold;" class="MsoBodyText"&gt;&lt;i&gt;
     &lt;/i&gt;&lt;/p&gt;       &lt;p style="font-family: verdana; font-weight: bold;" class="MsoBodyText"&gt;&lt;i&gt;
«Qualquer um que conheça a  história sabe que a desobediência é a virtude original do  homem.»&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style=""&gt;
Oscar  Wilde&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;                           &lt;p class="MsoBodyText"  style="text-align: justify; font-weight: bold;font-family:verdana;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-weight: bold;font-family:verdana;" &gt;Em viagem pelos&lt;/span&gt; EUA, um grupo de soviéticos espantou­‑se porque todos as notícias sobre as questões essenciais eram mais ou menos idênticas. «No nosso país, para obter esse resultado temos uma ditadura, prendemos pessoas, arrancamos as suas unhas. Aqui, vocês não têm nada disso. Então, qual é o vosso segredo? Como vocês fazem?»&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;
&lt;/p&gt;       &lt;p class="MsoBodyText"  style="text-align: justify; font-weight: bold;font-family:verdana;"&gt;
Uma das minhas citações favoritas é do jornalista norte-americano T. D. Allman: «O jornalismo autenticamente objectivo é aquele que não só descreve exactamente os factos, mas apreende o significado dos acontecimentos. Persuasivo hoje, ele sobrevive à prova do tempo. É ratificado por “fontes confiáveis”, mas também pelo desenrolar da história. Dez, vinte, cinquenta anos depois dos factos, ele reflecte ainda uma imagem inteligente e fiel dos acontecimentos».&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Allman  escreveu esse texto em homenagem a Wilfred Burch&lt;/span&gt;&lt;b&gt;ett, que morreu em 1983, cuja carreira extraordinária e frequentemente movimentada comporta o que foi descrito como o “furo do século”. Enquanto, em 1945, centenas de “jornalistas embarcados” para o Japão pelas forças aliadas de ocupação foram conduzidos em tropas para a teatral cerimónia de rendição, Burchett, em suas próprias palavras, soltou a sua coleira, para realizar uma viagem perigosa com destino a um lugar a partir de então gravado nas consciências humanas: Hiroshima. Primeiro jornalista ocidental a entrar na cidade após o bombardeio, a sua reportagem de primeira página no &lt;i&gt;Daily Express &lt;/i&gt;de Londres tinha essa manchete profética: “Escrevi isso  como um alerta para o mundo”.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;O alerta dizia respeito aos efeitos nefastos da radioactividade cuja existência era, então, negada pelas autoridades da ocupação. Burchett foi acusado, particularmente por alguns dos seus colegas que participaram da propaganda e dos ataques orquestrados contra ele. Independente e corajoso, ele tinha mostrado a guerra nuclear com todo o seu horror. O “desenrolar da história” deu-lhe razão.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="text-transform: uppercase;"&gt;15  anos de prisão&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Porque é que esse tipo de jornalismo é tão precioso? É que, sem ele, não teríamos mais palavras para expressar o sentimento de injustiça e ninguém iria dispor das armas da informação para combater essa injustiça. O enunciado de Orwell, segundo o qual «para ser corrompido pelo totalitarismo, não é necessário viver num país totalitário», seria então aplicável.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Em 2003, quando o Parlamento turco votou contra as exigências de Washington e dos generais turcos, ele levava em conta a oposição esmagadora da população à participação do seu país na invasão do Iraque. Isso representa uma manifestação sem precedentes de verdadeira democracia num país com assassinos obscuros. Foi também, em grande medida, fruto do trabalho dos jornalistas que tinham aberto o caminho, desvendando os crimes do Estado, particularmente a repressão relativa aos curdos. O editor de &lt;i&gt;Ozgur Gundem&lt;/i&gt; (Agenda livre), Ocar Isik Yurtcu, por exemplo, purga 15 anos de prisão por ter enfrentado uma lei em virtude da qual todas as reportagens sobre a repressão e a rebelião na Turquia constituem propaganda ou “incitação ao ódio racial”. Ele é vítima típica das leis utilizadas contra os que desafiam o Estado e os militares.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Na Europa, nos Estados Unidos, no Canadá e na Austrália, os jornalistas não arriscam a sua vida com frequência. O escritor Simon Louvish conta a surpresa de um grupo de soviéticos em viagem pelos Estados Unidos na época da guerra fria. Após terem lido os jornais e assistido à TV, eles declararam­‑se espantados porque todos as notícias sobre as questões essenciais eram mais ou menos idênticas. Eles perguntavam­‑se por que «Em nosso país, para obter esse resultado temos uma ditadura, prendemos pessoas, arrancamos as suas unhas. Aqui, vocês não têm nada disso. Então, qual é o vosso segredo? Como vocês fazem?”&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="text-transform: uppercase;"&gt;As  previsões de Orwell &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Na  introdução de &lt;i&gt;Revolução dos bichos&lt;/i&gt;, Orwell descreve como a censura nas sociedades livres é infinitamente mais sofisticada e minuciosa do que nas ditaduras: «As ideias impopulares podem ser passadas em silêncio e os factos incómodos permanecer na sombra sem necessidade de nenhuma proibição oficial». Meio século se passou e a mensagem nada perdeu da sua precisão.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Nada disso sugere uma “conspiração”. Ela nunca é necessária. Os jornalistas e os apresentadores de TV não são diferentes dos historiadores e dos professores: eles interiorizam as prioridades, as modas e as conveniências do poder estabelecido. Como alguns dirigentes nas altas esferas do poder, eles são direccionados ou preparados para descartarem as dúvidas muito devastadoras. Quando o cepticismo é estimulado, não o é em relação ao sistema, mas à competência dos que o dirigem, ou às reacções populares tais como os jornalistas as percebem.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Na imprensa de Robert Murdoch na BBC, as regras não declaradas do clube da mídia moderna não variam muito. Os limites invisíveis das “informações” permitem que falsas premissas passem por bom senso ou que as fraudes oficiais sejam difundidas e ampliadas. A sorte de sociedades inteiras é decidida de acordo com a sua utilidade para “nós”, termo frequentemente utilizado pelo poder ocidental, e que veicula a sua porção de narcisismo, de linguagem equivocada e de omissões abertas. Bons e maus terroristas, vítimas dignas ou não de interesse. Essa ortodoxia, explica Richard Falk, professor de relações internacionais na Universidade de Princeton, é transmitida «através de um anteparo moral e legal em um único sentido. Uma imagem positiva dos valores ocidentais e de uma inocência ameaçada justifica uma campanha de violência política sem limite».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="text-transform: uppercase;"&gt;BBC  em risco &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Os britânicos viverão logo a experiência australiana entre eles se a concentração da mídia continuar ao ritmo de uma desregulamentação do audiovisual que evoca a “competitividade” internacional. A apropriação do governo de Anthony Blair da BBC inscreve­‑se nesse quadro. O poder da BBC baseia­‑se no duplo papel da mídia pública e da empresa multinacional, cujos rendimentos ultrapassam os 5 bilhões de dólares. Mais americanos assistem à BBC World do que britânicos assistem à principal cadeia da BBC. Murdoch e os outros barões da mídia, para a maioria dos norte­‑americanos, procuram há muito tempo o deslocamento e a privatização da BBC para que lhes advenham as suas vastas “partes do mercado”. Esses padrinhos ambicionam um território, eles se mostram impacientes.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Em 2003, os ministros de Blair ameaçaram “rever” o financiamento da BBC para a concessão de TV. Sem essas receitas, a cadeia britânica seria reduzida a uma variante da Australian Broadcasting Corporation, que depende das subvenções directas do governo e é frequentemente ameaçada.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Relata-se a génese de tudo isso sem esforço. Em 1995, Tony e Cherie Blair viajaram de primeira classe à custa de Rupert Murdoch, rumo à Ilha Hayman, na costa de Queensland. Sob o sol tropical e de pé atrás da tribuna da News Corp., o futuro primeiro-ministro britânico extravasou a sua «vontade de uma nova moral na política» e prometeu uma transição da mídia de um universo de «regulamentação pesada» para o da “empresa”. O seu anfitrião aplaudiu e deu­‑lhe um caloroso aperto de mão. No dia seguinte, em Londres, o &lt;i&gt;Sun&lt;/i&gt; de Murdoch comentava: «Mr. Blair vai longe, ele é determinado e fala a mesma língua que nós relativa à moralidade e aos valores da família».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="text-transform: uppercase;"&gt;Ameaça  ao jornalismo livre&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Ainda recentemente, esses assuntos eram raramente discutidos nas páginas dos jornais britânicos, que preferiam as manobras secretas dos administradores da imprensa e a sua habilidade em conceder generosas recompensas. As intrusões dos tablóides na vida privada das pessoas ricas e famosas eram objecto de desaprovações hipócritas. Ideias críticas sobre o jornalismo eram evocadas de passagem, ou em nenhum momento. A publicação, em Janeiro de 2004, do relatório de lorde Hutton, que atacava a BBC e absolvia o governo no caso Gilligan, levou a questão ao espaço público [1]. Um lorde correndo a serviço do &lt;i&gt;establishment&lt;/i&gt; para  sufocar um caso incómodo para o poder actual apresenta uma das mais directas  ameaças que pesam sobre o jornalismo livre.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Nos Estados Unidos, onde constitucionalmente os meios de comunicação são os mais livres do mundo, a própria ideia de uma humanidade com direitos universais é correntemente colocada em questão. Assim como os vietnamitas anteriormente, os iraquianos seriam impuros, bons para serem caçados. «Para cada GI (soldado do exército americano) morto, 20 iraquianos devem ser executados», dizia uma carta de leitor publicada pelo &lt;i&gt;Daily News&lt;/i&gt; de Nova York. O &lt;i&gt;New York Times&lt;/i&gt;  e o &lt;i&gt;Washington Post&lt;/i&gt; talvez não publicassem uma correspondência como esta, mas à sua maneira também sustentam a ficção de um arsenal de armas de destruição maciça no Iraque.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="text-transform: uppercase;"&gt;Mentiras  de guerra&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Bem  antes da invasão, os dois jornais advertem sobre o perigo em nome da Casa  Branca. Na primeira página do &lt;i&gt;New York Times&lt;/i&gt;, podia-se ler as seguintes manchetes: “ARSENAL SECRETO [do Iraque]: A CAÇA ÀS BACTÉRIAS DA GUERRA”, “UM DESERTOR DESCREVE OS PROGRESSOS DA BOMBA ATÓMICA NO IRAQUE”, “UM IRAQUIANO FALA DAS RENOVAÇÕES DE LUGARES DE ARMAS QUÍMICAS E NUCLEARES” e “DESERTORES CONFIRMAM O DOSSIÊ AMERICANO CONTRA O IRAQUE, DIZEM OFICIAIS”. Todos esses artigos revelaram-se pura propaganda. Num e-mail interno (publicado pelo &lt;i&gt;Washington  Post&lt;/i&gt;), a jornalista do &lt;i&gt;New York Times&lt;/i&gt;, Judith Miller, admite que a sua fonte principal era Ahmed Chalibi, um exilado iraquiano e prevaricador condenado pelos tribunais, que havia dirigido o Congresso Nacional Iraquiano (INC) residente em Washington e financiado pela CIA. Uma pesquisa do Congresso conclui que quase toda a informação fornecida por Chalabi e outros exilados do INC não tinha valor.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Em  Julho de 2003, quando a ocupação chegava ao seu auge, o &lt;i&gt;Times&lt;/i&gt; e o  &lt;i&gt;Post&lt;/i&gt; dedicaram a sua primeira página à volta para casa de Jessica Lynch, 20 anos, cuidadosamente colocada em cena pela administração Bush. Durante a invasão, a jovem tinha sido ferida num acidente na estrada e capturada. Médicos iraquianos haviam cuidado dela, provavelmente salvando-lhe a vida – e arriscando a deles – enviando-a para as forças norte-americanas. A versão oficial, segundo a qual ela havia corajosamente combatido os agressores iraquianos, era apenas uma trama de mentiras, assim como a sua “salvação” num hospital praticamente abandonado, filmado com a ajuda de câmaras de infra-vermelho por um cineasta de Hollywood [2].&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Isso não dissuadiu a nata do jornalismo norte-americano de se unir para sustentar a encenação da volta beatífica de Lynch a Elizabeth, na Virgínia ocidental, imagens do Epinal com o apoio e as pessoas do lugar dizendo como se sentiam satisfeitas. O &lt;i&gt;Post&lt;/i&gt; reclamou que o caso tinha «se tornado confuso devido às declarações contraditórias dos meios de comunicação». Já Orwell evocava as «palavras que caem sobre os factos como neve, confundindo os seus contornos e cobrindo todos os detalhes».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="text-transform: uppercase;"&gt;Conformismo  dos jornalistas&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Em Washington, entrevistei sobre esse assunto Charles Lewis, ex-estrela do “60 minutos” da CBS. Lewis, que actualmente dirige uma unidade de pesquisa, o Centro pela Integridade Pública, explicou: «Você sabe, sob Bush, o conformismo e o silêncio entre os jornalistas é pior do que nos anos 1950. Rupert Murdoch é o magnata mais influente da mídia nos Estados Unidos; ele impõe a norma, e não há a menor discussão pública. Porque é que a maioria do público norte-americano ainda acredita que Saddam Hussein estava por trás dos atentados de 11 de Setembro? Porque a mídia não parou de ecoar o discurso do governo».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Eu perguntei­‑lhe o que aconteceria se os meios de comunicação “mais livres do mundo” tivessem colocado em questão Bush e Donald Rumsfeld e tivessem verificado a autenticidade das suas declarações, em vez de difundirem o que se revelou pura propaganda? A sua resposta foi: «Se os meios de comunicação tivessem sido mais combativos na sua busca da verdade, é bem possível que jamais teríamos entrado em guerra contra o Iraque».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;No seu discurso diante do Congresso dos Estados Unidos em 2003, Anthony Blair declarou: «Jamais o poder dos Estados Unidos foi tão necessário e tão incompreendido. Jamais um estudo da história nos ajudou tão pouco a compreender o presente». No caso, tratava de nos alertar contra o estudo do imperialismo, por medo que ele nos levasse a recusar o “destino manifesto” dos Estados Unidos e a sua oferenda à Grã-Bretanha de um papel imperial durável, ainda que subordinado.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="text-transform: uppercase;"&gt;Palavras  esvaziadas&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;É claro que o primeiro-ministro britânico não pode advertir ninguém de maneira eficaz se ele não beneficia do apoio das primeiras páginas dos jornais, da televisão e das rádios, que fazem ecoar as suas palavras e as amplificam. Ao abandonar o seu papel de “rascunho” de uma história que será escrita posteriormente, o jornalismo estimula, directamente e por omissão, um imperialismo cujas verdadeiras intenções são, muitas vezes, pouco desvendadas. Em vez disso, as palavras e os conceitos nobres, tais como “democracia”, “liberdade” e “libertação”, esvaziadas do seu sentido real, são colocadas ao serviço da conquista. Quando os jornalistas autorizam essa corrupção da linguagem e das ideias, eles desorientam, eles não informam. Ou melhor, como disse Edward S. Herman, eles «normalizam o impensável na opinião pública».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Em Junho de 2002, diante de um público de cadetes militares de West Point que se levantaram como robôs para aclamá-lo, George W. Bush desaprovou a política de “dissuasão” da guerra fria e anunciou que a partir de então os Estados Unidos lançariam uma acção preventiva contra todo o inimigo potencial. Alguns meses antes, um vazamento do Pentágono havia revelado os planos de urgência da administração relativos à utilização do armamento nuclear contra o Irão, a Coreia do Norte, a Síria e a China. Na sequência lógica, a Grã-Bretanha anunciava então, pela primeira vez, que “se necessário”, ela atacaria o armamento nuclear dos países que não tinham essa capacidade. A informação praticamente não foi retomada na imprensa, e não provocou nenhuma discussão. Mais ou menos como há cinquenta anos, quando os serviços de informações britânicos alertaram o governo das intenções norte­‑americanas de partir em guerra atómica “preventiva” contra a União Soviética, e que o público não soube de nada.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;De acordo com os dossiês oficiais que se tornaram públicos a partir de 1968, o público não soube que os principais projectistas britânicos foram persuadidos de que os russos não tinham a intenção de atacar o Ocidente. «A União Soviética não vai desencadear uma guerra geral ou mesmo limitada à Europa», observaram eles ao descrever a política soviética como «prudente e realista». A verdade privada contrastava inteiramente com o que se dizia na época para a imprensa e para o público.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="text-transform: uppercase;"&gt;O  silêncio e a mentira&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;«Quando a verdade é substituída pelo silêncio, o silêncio é uma mentira», dizia o poeta soviético Evgeni Evtoushenko. Reina hoje um silêncio surrealista, cheio do barulho de pequenas frases de homens políticos, que se mordem e se esbofeteiam para justificar a sua hipocrisia e a sua violência. O que se fala da actualidade, não é mais do que paródia ao diapasão das vozes dissonantes de jornalistas que proclamam todos quase a mesma coisa. Jamais tivemos um volume de “informações” repetitivas como essas nem tamanha apropriação por parte dos que as controlam. Desde os anos 1980, os conglomerados de mídia norte-americanos desembaraçaram­‑se aos poucos das suas últimas obrigações de serviço público ao mesmo tempo que atacaram toda a regulamentação internacional.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;                 &lt;p class="MsoBodyText" face="verdana" style="text-align: justify; font-weight: bold;"&gt;&lt;b&gt;Em 1983, os principais meios de comunicação pertenciam a cinquenta sociedades. Em 2002, contávamos apenas com nove conglomerados transnacionais. Dirigida pelo filho do secretário de Estado, Colin Powell, a Comissão Federal das Comunicações (FCC, conforme a sigla em inglês) dedica­‑se a facilitar o controle de 90% da audiência norte-americana pela Fox, de Murdoch, e quatro outros conglomerados [3]. Em Fevereiro de 2004, Murdoch previa que, daqui a três anos, haverá apenas três grandes sociedades de meios de comunicação, entre elas a sua. Os vinte sites mais visitados na Internet pertencem a sociedades como Fox, Disney, AOL Time Warner, Viacom e um punhado de gigantes desse género; os catorze maiores absorvem 60% do tempo que os norte-americanos passam na tela. A &lt;/b&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;sua ambição  comum: produzir cidadãos mal informados e conformistas. Consumidores obedientes.
&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;       &lt;p class="MsoBodyText" face="verdana" style="text-align: justify; font-weight: bold;"&gt;______________
&lt;/p&gt;       &lt;p class="MsoBodyText" face="verdana" style="text-align: justify; font-weight: bold;"&gt;* Acaba de publicar &lt;i&gt;Tell me no lies&lt;/i&gt;,  Random House, do qual foi extraído este artigo.&lt;/p&gt;     &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;[1]  Dura&lt;/span&gt;&lt;b&gt;nte uma reportagem de rádio, o jornalista Andrew Gilligan revelou a maneira empregada pelo governo para manipular as provas e os relatórios dos serviços secretos para dar crédito à existência de uma ameaça das armas de destruição maciça que Saddam Hussein detinha.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;[2]  Sobre esse caso, ler Ignacio Ramonet, &lt;a href="http://www.diplo.com.br/aberto/materia.php?id=681"&gt;Mentiras de Estado&lt;/a&gt;,  &lt;i&gt;Le Monde diplomatique&lt;/i&gt;, Julho de 2003.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;[3]  Cf. Eric Klinenberg, &lt;i&gt;MDV USA à venir&lt;/i&gt; (O futuro da MDV  americana).&lt;/b&gt;&lt;b&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18040584-112973461779982630?l=johnpilger.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://www.diplo.com.br/aberto/materia.php?id=1007' title='Como produzir cidadãos consumistas, mal-informados e conformistas *'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112973461779982630'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112973461779982630'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://johnpilger.blogspot.com/2004/10/como-produzir-cidados-consumistas-mal.html' title='Como produzir cidadãos consumistas, mal-informados e conformistas *'/><author><name>IA</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18040584.post-112973361555657786</id><published>2004-09-16T15:51:00.000+01:00</published><updated>2005-10-19T15:56:44.916+01:00</updated><title type='text'>O terrorismo mais importante é o "nosso"</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt; &lt;table style="width: 100%; border-collapse: collapse;" border="0" cellpadding="0" cellspacing="0" height="46" width="100%"&gt; &lt;tbody&gt; &lt;tr style="height: 33pt;"&gt; &lt;td style="padding: 0.75pt; width: 100%; height: 33pt;" width="100%"&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;       &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;
O mundo está a ser dividido em dois campos hostis: o Islão e “nós”. Esta é a mensagem inequívoca dos governos ocidentais, da imprensa, da rádio e da televisão. Por Islão, leia-se terroristas. É uma reminiscência da guerra fria, quando o mundo estava dividido entre os “vermelhos” e nós, e até mesmo uma estratégia de aniquilação era permissível para nossa defesa. Sabemos agora, ou podemos saber, que grande parte daquilo era uma mistificação pois os arquivos oficiais abertos posteriormente tornam claro que a ameaça soviética era só para consumo público.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;Agora, tal como durante a guerra fria, é-nos apresentado diariamente um espelho unidireccional como se fosse o verdadeiro reflexo dos acontecimentos. O impulso à nova ameaça é dado a cada afronta terrorista, seja em Beslan ou em Djacarta. Vistos no espelho unidireccional, os nossos líderes cometem erros miseráveis, mas as suas boas intenções não são postas em causa. O “idealismo” e a “decência” de Tony Blair são promovidos pelos seus autorizados detractores nos mídia principais, enquanto a planeada tragédia grega da sua morte política desvenda-se no palco dos mídia. Tendo tomado parte no assassínio de até 37 mil civis iraquianos, as notícias são as distracções de Blair e não as suas vítimas: desde a sua misteriosa “luta” com o seu Tweedledee [1], Gordon Brown, à sua decorativa conversão aos perigos do aquecimento global. Sobre a atrocidade de Beslan, Blair permitiu-se dizer, sem ironia ou desafio, que «este terrorismo internacional não vencerá». Trata-se das mesmas palavras que Mussolini utilizou logo depois de ter bombardeado civis na Abissínia.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;Poucos são os heréticos que olham por trás do espelho unidireccional e vêm a absoluta desonestidade de tudo isto, que identificam Blair e os seus colaboradores como criminosos de guerra no sentido literal e legal e apresentam provas do seu cinismo e imoralidade. Mas eles têm um amplo apoio na opinião pública, cuja consciência nunca foi tão alta, de acordo com a minha experiência. É a apaixonada indiferença do público, se não o seu desprezo, pelos jogos políticos de Blair/Brown e seus tribunais, e o seu interesse crescente quanto ao modo como realmente o mundo funciona, que enerva aqueles que têm o poder.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;Vamos examinar uns poucos exemplos acerca do modo como o mundo é apresentado e do modo como realmente funciona. A ocupação do Iraque é mostrada como “uma confusão”: uns desatinados e incompetentes militares americanos contra fanáticos islâmicos. Na verdade, a ocupação é um assalto sistemático e homicida a uma população civil por uma classe de oficiais americanos corruptos, com licença dada pelos seus superiores em Washington. Em Maio, os marines dos EU utilizaram tanques de batalha e helicópteros de artilharia para atacar os bairros pobres de Faluja. Eles admitiram ter morto 600 pessoas, um número muito maior do que o número total de civis assassinados pelos “insurgentes” durante o ano passado. Os generais foram francos: esta fútil carnificina foi um acto de vingança pelo assassínio de três mercenários. Sessenta anos antes, a divisão SS Das Reich assassinara 600 civis franceses em Oradour-sur-Glane como vingança pelo sequestro de um oficial alemão por parte da resistência. Qual é a diferença?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;Nestes dias, os americanos disparam rotineiramente mísseis sobre Faluja e outras áreas densamente povoadas; assassinam famílias inteiras. Se a palavra terrorismo tem alguma aplicação moderna, é este terrorismo de Estado em escala industrial. Os britânicos tem um estilo diferente. Há mais de quarenta casos conhecidos de iraquianos que morreram nas mãos de soldados britânicos; mas apenas um soldado foi acusado. No número actual da revista da National Union of Journalists, The Journalist, Lee Gordon, um repórter freelance, escreveu: «Trabalhar como britânico no Iraque é arriscado, particularmente no sul onde as nossas tropas têm uma reputação (não relatada em casa) de brutalidade».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;Nem tão pouco a crescente insatisfação entre as tropas britânicas é relatada em casa. Isto preocupa tanto o Ministério da Defesa que ele resolveu acalmar a família do soldado de 17 anos David McBride retirando-o da lista AWL (absent without leave) depois de este se ter recusado a combater no Iraque. Quase todas as famílias de soldados mortos no Iraque denunciaram a ocupação de Blair, o que é inédito.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;Só pelo reconhecimento do terrorismo dos Estados é possível entender, e tratar, dos actos de terrorismo de grupos e indivíduos os quais, ainda que horríveis, são minúsculos em comparação. Além disso, a sua fonte é inevitavelmente o terrorismo oficial para o qual não existem palavras nos mídia. Assim, o Estado de Israel foi capaz de convencer muitas pessoas de fora que ele é apenas uma vítima do terrorismo quando, de facto, o seu próprio terrorismo implacável e planeado é a causa da infame retaliação por bombistas suicidas palestinianos. Devido a todo o ódio perverso de Israel contra a BBC — uma forma de intimidação que tem êxito — os repórteres desta nunca retractam os israelenses como terroristas: esta palavra aplica-se exclusivamente aos palestinianos aprisionados na sua própria terra. Não é surpreendente, como concluiu um estudo da Universidade de Glascow, que muitos espectadores da televisão na Grã-Bretanha acreditem que os palestinianos são os invasores e ocupantes.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;Em 7 de Setembro, bombistas suicidas palestinianos mataram 16 israelenses na cidade de Beersheba. Todos os relatos nos telejornais permitiram que o porta-voz do governo israelense utilizasse esta tragédia para justificar a construção de um muro do apartheid — quando o muro é um ponto central entre as causas da violência palestiniana. Quase todas os noticiários disseram que marcou o fim de um período de cinco meses de “paz e calma relativas” e de “uma trégua na violência”. Durante aqueles cinco meses de paz e calma relativas, quase 400 palestinianos foram mortos, 71 deles por assassínios. Durante a trégua na violência, mais de 73 crianças palestinianas foram mortas. Uma de 13 anos foi assassinada com um tiro no coração, outra de 5 anos de idade recebeu um tiro na cara quando passeava de braço dado com a sua irmã de dois anos de idade. O corpo de Mazen Majid, com 14 anos, foi despedaço por 18 balas israelenses quando ele e a sua família fugiam do seu lar arrasado por um buldozer. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;Nada disto é relatado na Grã-Bretanha como terrorismo. A maior parte simplesmente não é relatado. Apesar de tudo, isto era um período de paz e de calma, uma trégua na violência. Em 19 de Maio tanques e helicópteros israelenses atiraram sobre manifestantes pacíficos, assassinando oito deles. Esta atrocidade tem um significado inequívoco; a manifestação fazia parte de um movimento palestiniano não violento que estava em desenvolvimento, o qual promovera reuniões pacíficas de protesto, muitas vezes com orações, ao longo do muro do apartheid. A ascensão deste movimento gandhiano é raramente notada no mundo exterior.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;A verdade sobre a Chechénia é suprimida de forma semelhante. Em 4 de Fevereiro de 2000, a força aérea russa atacou a aldeia chechena de Katyr-Yurt. Eles utilizaram “bombas de vácuo”, as quais lançam vapor de gasolina e sugam os pulmões das pessoas para fora, e que são proibidas pela Convenção de Genebra. Os russos bombardearam um comboio de sobreviventes que hasteava uma bandeira branca. Assassinaram 363 homens, mulheres e crianças. Foi um dos incontáveis pouco conhecidos actos de terrorismo na Chechénia perpetrados pelo Estado russo, cujo líder, Vladimir Putin, tem a “completa solidariedade” de Blair.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;«Poucos de nós», escreveu o dramaturgo Arthur Miller, «podem com facilidade desistir da nossa crença de que a sociedade deve de alguma forma fazer sentido. O pensamento de que o Estado perdeu o juízo e está a punir tantas pessoas inocentes é intolerável. E assim a evidência tem de ser negada internamente».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;Já  é tempo de parar de negá-la.&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;/div&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­&lt;/b&gt;&lt;b&gt;&lt;span  lang="EN-GB" style="font-family:Verdana;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18040584-112973361555657786?l=johnpilger.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://pilger.carlton.com/print/133344' title='O terrorismo mais importante é o &quot;nosso&quot;'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112973361555657786'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112973361555657786'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://johnpilger.blogspot.com/2004/09/o-terrorismo-mais-importante-o-nosso.html' title='O terrorismo mais importante é o &quot;nosso&quot;'/><author><name>IA</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18040584.post-112973331371343963</id><published>2004-09-02T15:47:00.000+01:00</published><updated>2005-10-19T16:01:29.456+01:00</updated><title type='text'>Índia: A traição</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt; &lt;table style="width: 100%; border-collapse: collapse;" border="0" cellpadding="0" cellspacing="0" height="46" width="100%"&gt; &lt;tbody&gt; &lt;tr style="height: 33pt;"&gt; &lt;td style="padding: 0.75pt; width: 100%; height: 33pt;" width="100%"&gt;&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;&lt;span style="font-family: verdana;"&gt;Como milhões foram traídos pelas promessas dos poderosos&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;
      &lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;       &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;
As multidões batem as mãos contra as janelas do compartimento, pretendendo subir e entrar para dentro. Os seus gritos são incessantes, é este apocalíptico enxamear que é diferente na Índia. Elas dançam à chuva e esperam no calor amarelo da terra teimosa tornada pó e que paira acima dos corredores de refugiados a fugirem da inundação e da guerra. Agora, na última monção em Mumbai, eles empoleiram-se sobre um &lt;i&gt;outdoor &lt;/i&gt;que exibe a imagem de jovens homens de negócios, os quais têm pele branca e estão alegremente a celebrar a sua compra de um telemóvel com um écran de TV combinado. Os jovens homens de negócios e os corvos gordos não se apercebem de uma pirâmide de lixo, onde vive um cão repulsivo e ratos dardejando (com um olho sempre atento nos corvos) e uma pequena figura vestida com sari, a escavar metodicamente com as mãos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;Mumbai é a mais rica cidade da Índia. Ela movimenta 40 por cento do comércio marítimo do país; possui a maior parte dos bancos mercantis e duas bolsas de valores, e a maior favela da Ásia. Delícia e choque são respostas simultâneas. Levante os olhos e os magníficos edifícios góticos da Raj nem parecem reais: a Torre do Relógio de Rajabai, que outrora repicava o "Rule Britannia" ao dar as horas, e benevolências épicas como a Victoria Terminus, a maior estação ferroviária do mundo, pela qual passa um milhão de trabalhadores por dia, e o museu do Príncipe de Gales (ainda é chamado assim, tal como Mumbai ainda é Bombaim), com as suas colecções notáveis e a abóbada perfeita que domina o Sítio do Crescente, conduzindo ao Portão de Entrada da Índia.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;A  seguir abaixe os olhos para as formas humanas côncavas sob juncos e trapos,  estranhos às faces radiantes exibidas nos &lt;i&gt;outdoors&lt;/i&gt;, e a questão é sempre a mesma: por que uma sociedade tão rica, cheia de recursos e culturalmente avançada, com democracia e memórias de grandes lutas populares, deveria viver assim? &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;Da última vez que estive em Bombaim, uma geração atrás, perguntei ao grande director de cinema de Bollywood, Raj Kapoor, porque a pobreza era tão persistente na Índia. «Os de fora julgam-nos mal», disse ele. «Somos uma sociedade dinâmica. Mas a maior parte de nós é forçada a viver uma vida predeterminada pelos grupos poderosos em seu benefício. A questão é que eles precisam da pobreza, a qual é muito boa para o seu enriquecimento, para levantar esperanças políticas, para distribuir pacotes de comida, por assim dizer, e para reforçar divisões de religião e de casta. Contudo, tudo isso é diversão: tal como os meus filmes são diversões. Quando o povo entender isto plenamente e actuar, as coisas na Índia mudarão».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;Uns poucos anos antes, em 1971, eu pusera a mesma questão a Indira Gandhi, então primeira-ministra. Ela e o Partido do Congresso tinham acabado de reeleger-se por uma enorme maioria. A sua campanha fora cheia de promessas, e os pobres votaram por ela. «Após a independência», disse ela, «percebi que em algum momento ao longo do caminho a nossa direcção mudou. Tínhamos uma escolha. Ou comprarmos bens estrangeiros ou ajudarmos os industrialistas a ficarem ricos. Assim, agora temos uma classe média e temos pessoas pobres que sabem que são pobres. Isto é o princípio da nossa grande mudança».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;A "grande mudança", além da sua desastrosa imposição da lei marcial seguida do seu próprio assassinato, nunca aconteceu. Mais exactamente, aconteceu a chegada de uma tendência de capitalismo extremo, concebido na Inglaterra no princípio do século XIX, e conhecida hoje como neoliberalismo. Com a derrota do Partido do Congresso e a subida do nacionalista hindu BJP à direcção do governo na década de 90, a sociedade dividida foi tosquiada do seu paternalismo e licenciada pela Fundo Monetário Internacional. As barreiras que haviam protegido a indústria e a manufactura indianas foram demolidas: a Coca-Cola entrou naquilo que fora território proibido, bem como a Pizza Hut, a Microsoft e Rupert Murdoch. A "Índia resplandecente" &lt;i&gt;("Shining India") &lt;/i&gt;foi inventada pelos ilusionistas para os seus beneficiários: a classe média em expansão (uma expressão inadequada na Índia; não há média de facto) e o capital transnacional. Eles disseram que a Índia alcançaria a China como potência económica e que a pobreza seria erradicada. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;Na verdade, os números oficiais mostram que, no fecho do século XX, o número de indianos a viverem na pobreza absoluta caiu dez por cento. Contudo, no seu estudo "Pobreza e desigualdade na Índia: aproximando­‑nos à verdade" &lt;i&gt;(Poverty  and Inequality in India: getting closer to the truth) &lt;/i&gt;, Abhijit Sen afirma que o número de pobres indianos realmente aumentou e que, para eles, a década de 90 foi uma "década perdida". Em 2002, aqueles na pobreza absoluta representavam mais de um terço da população, ou 364 milhões de pessoas. «A nutrição inadequada é realmente muito mais generalizada do que a fome ou o rendimento da pobreza», escreveu ele. «Metade das crianças indianas são clinicamente subnutridas e quase 40 por cento de todos os indianos adultos sofrem uma deficiência crónica de energia».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;A taxa de crescimento da Índia certamente saltou acima dos seis por cento, mas isto é para o capital, não o trabalho, para os lucros libertados, não o povo. Toda esta conversa acerca de uma nova Índia &lt;i&gt;high-tech &lt;/i&gt;a atacar as barricadas do primeiro mundo baseia-se em grande medida num mito. A nova classe tecnocrática é diminuta. Os famosos &lt;i&gt;call-centres&lt;/i&gt;, onde jovens indianos educados afectam conhecer os "estilos de vida" britânico e americano a fim de servir os tipos do American Express, empregam apenas 100 mil pessoas, ou 0,01 por cento da população. Desde 1993, o chamado boom do consumidor na Índia abrangeu, no máximo, quinze por cento da população; e, para a maioria destas pessoas, a nova prosperidade significou a aquisição de comodidades básicas da vida moderna, ao invés de carros e telefones móveis.

Para a maior parte dos indianos, o "novo mercado" tem um outro significado que é familiar por todo o mundo "globalizado". À medida que as imagens dos modelos exemplares com pele branca e bons dentes ascenderam, os serviços públicos deterioram-se. Segundo números da ONU, a Índia hoje gasta menos de um por cento do seu produto interno bruto com saúde e, nos serviços de saúde disponíveis para a maior parte do povo, classifica-se em 171º lugar entre 175 países, apenas à frente do Sudão e da Birmânia. Quanto aos gastos com saúde privada, os quais só os ricos podem pagar, é um dos mais altos do mundo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;Os  jornais indianos reflectem isto de modo impressionante. O &lt;i&gt;Indian Express  &lt;/i&gt;apresenta uma dolorosa investigação às espantosas condições hospitalares, a seguir trombeteia a inclusão da Índia numa lista superficial dos "melhores países do mundo" redigida pela &lt;i&gt;Newsweek &lt;/i&gt;e baseada totalmente no assenso  do "novo mercado". O director de saúde de Maharashtra, relata o &lt;i&gt;Times of  India&lt;/i&gt;, afastou-se devido a "um bom serviço" conseguido na Organização Mundial de Saúde. Ele ficará afastado durante meses, dirigindo um inquérito no sudeste da Ásia. No ano passado, no seu território, umas 9000 crianças tribais — as mais pobres — morreram de desnutrição e falta de cuidados médicos. O responsável pela justiça criticou-o por "negligência" de deveres. «As mortes são comuns», respondeu o director, «e eu fiz o suficiente nos últimos dez anos. Por que deveria eu agora prejudicar a minha carreira por causa desta questão?»&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;Há muito nesta história de traição quase displicente que explica porque a maioria dos indianos votou como o fez na eleição geral de Maio último e com cólera tão evidente. Embora destinada especificamente ao governo dirigido pelo BJP, o principal patrocinador do "novo mercado", a sua cólera foi descrita por um comentador como «um clamor contra uma elite que os tem tornado quase invisíveis desde a independência».

Tal como a sua sogra Indira Gandhi, Sonia Gandhi fala contra a pobreza — mas raramente contra o elitismo que a controla. O homem que a substituiu e se tornou primeiro-ministro, Manmohan Singh, deixou claro que não haverá "reversão" do "novo mercado"; assim como o novo Partido Trabalhista, o do Congresso será tão neoliberal como os seus rivais, se não mais. Apesar de tudo, escreveu Jawaharlal Nehru em 1936, «a perspectiva do partido do Congresso é essencialmente pequeno—burguesa». E profeticamente acrescentou: «Não é provável que tenha êxito indo por esse caminho».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;&lt;span style=""&gt; &lt;/span&gt;Mais de setenta por cento da população vive fora da agricultura. Não só a desnutrição e a discriminação prevalecem entre as minorias como 70 milhões de pessoas de origem tribal e 150 milhões de Dalits (intocáveis), pequenos agricultores de todos os grupos étnicos sofreram durante a "década perdida". Suicídios entre arrendatários «agora contam-se em muitos milhares», contou-me o ambientalista e escritor Vandana Shiva. «Os governos não ousam admitir o número verdadeiro». A dívida, frequentemente para com usurários a taxas de juro de até 120 por cento, é agravada por um mercado aberto no patenteamento de sementes, plantas e fertilizantes naturais por companhias estrangeiras de biociência: «o pirateamento da nossa fonte vital», é como Shiva chama a isto. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;As alternativas existem. Desde o século XIX, os movimentos de massas na Índia têm demonstrado que os pobres podem não ser fracos. Desde que foi eleito em 1978, o governo socialista popular em Bengala Ocidental (oficialmente, comunista) tem efectuado a Operação Barga, uma campanha para manter o rastro e registar todos os 2,3 milhões de arrendatários do estado. Cada locatário é procurado e os seus direitos são-lhe explicados, e a organização política do governo do estado na sua aldeia garante-lhe o acesso a empréstimos a longo prazo e que não seja intimidado pelos proprietários da terra. A Operação Barga é considerada por toda a Índia como um êxito, especialmente porque a produção de arroz em Bengala Ocidental aumentou. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;A antítese disto pode ser encontrada nas periferias das cidades, as quais proporcionam uma advertência ao mundo do que acontece quando agricultores são expulsos da sua terra. Havia um lençol de chuva quando visitei a área "ferroviária" de Mumbai. Muitas das pessoas daqui haviam fugido da sua terra arrendada em estado de fome absoluta; eles mal subsistiam. Outrora, a cidade proporcionava trabalho, dentro de si e nos seus arredores, nas fábricas têxteis, mas estas foram substituídas pelos "ITES parks" (Information Technology Enabled Services). Mesmo o humilde estafeta está a ser substituído pelo computador. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;As condições em que estas pessoas vivem são dificilmente descritíveis: uma extensa família de 20 pessoas é comprimida dentro de uma caixa de embalagem, os esgotos fluindo e refluindo na monção; inclusive na estação seca. Os corvos gordos a empoleirarem-se sobre esqueléticos guarda-chuvas das pessoas; cães de párias a mastigarem qualquer coisa. Mesmo um breve relance dentro deste chocante mundo Lilliput mostra uma vontade de asseio, roupas embrulhadas em plástico e as crianças com cores vivas. É ao mesmo tempo pungente e humilhante, sempre, ver tal dignidade. Encontrei um homem de Bengala que estivera a poupar durante semanas o equivalente a 6 libras (9 euros), com as quais compraria uma caixa para engraxar sapatos; ele discutiu a sua situação desagradável comigo; nada me pediu. Ao longo da Praia Chowpatty, onde o movimento Quit India outrora efectuou os seus grandes comícios pela liberdade, agora diz-se que a propriedade vale mais do que em Londres ou em Paris. Os especuladores chamam a isto "ouro castanho". &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;Na Livraria Oxford, em Churchgate, fui ao lançamento de um livro de Rajmohan Gandhi, o neto de Mahatma. Ele escreveu uma biografia de Ghaffar Khan, o inspirado "Gandhi Muçulmano" que se opôs à Partição. «A Índia é, de muitas maneiras, um país violento», disse-me ele. «O facto de termos democracia hoje é devido em grande medida à não-violência do principal movimento pela liberdade».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;Democracia  talvez, mas a liberdade espera.&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;/div&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­&lt;/b&gt;&lt;b&gt;&lt;span  lang="EN-GB" style="font-family:Verdana;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18040584-112973331371343963?l=johnpilger.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://pilger.carlton.com/print/133344' title='Índia: A traição'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112973331371343963'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112973331371343963'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://johnpilger.blogspot.com/2004/09/ndia-traio.html' title='Índia: A traição'/><author><name>IA</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18040584.post-112973300480214480</id><published>2004-08-23T15:34:00.000+01:00</published><updated>2005-10-19T15:43:24.810+01:00</updated><title type='text'>Bush v. Kerry: o falso debate</title><content type='html'>&lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-weight: bold; font-family: verdana;"&gt;Em 6 de Maio último, o  parlamento americano aprovou uma resolução que, com efeito, autorizou um ataque  “preventivo” ao Irão. O resultado da votação foi 376 contra 3. Sem recuar  perante a aceleração do desastre no Iraque, republicanos e democratas, como  disse um comentador, «mais uma vez deram as mãos para reafirmar as  responsabilidades do poder americano».&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-weight: bold; font-family: verdana;"&gt;A união de ambos ao longo da  ilusória divisão política dos EUA tem uma longa história. Os nativos americanos  foram massacrados, as Filipinas submetidas pelo extermínio, Cuba e muitos países  da América Latina tripudiadas com apoio “bipartidário”. Avançando tropegamente  através do sangue, uma nova ninhada de “historiadores” populares, os jornalistas  na folha de pagamento dos proprietários dos jornais ricos, desfiam os mitos  heróicos de uma super-seita chamada americanismo, que a publicidade e as  relações públicas no século XX formalizaram como uma ideologia, a qual abrange  tanto o conservadorismo como o liberalismo. &lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-weight: bold; font-family: verdana;"&gt;Na era moderna, a maior das  guerra dos EUA foi lançada por presidentes democratas liberais — Harry Truman na  Coreia, John F. Kennedy e Lyndon B. Johnson no Vietname, Jimmy Carter no  Afeganistão. O fictício “conflito dos mísseis” foi inventado pelo Kennedy  liberal da Nova Fronteira como justificativa para manter a guerra fria em  andamento. Em 1964, um Congresso dominado pelos democratas deu autoridade ao  presidente Johnson para atacar o Vietname, uma nação de camponeses indefesos que  não apresentava qualquer ameaça aos Estados Unidos. Tal como as inexistentes  armas de destruição maciça do Iraque, a justificação foi um inexistente  “incidente” no qual, disseram então, dois barcos patrulha norte-vietnamitas  teriam atacado um vaso de guerra americano. Seguiram-se mais de três milhões de  mortes e a ruína de uma terra outrora generosa.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-weight: bold; font-family: verdana;"&gt;Durante os últimos 60 anos,  apenas uma vez o Congresso votou no sentido de limitar o “direito” de o  presidente aterrorizar outros países. Esta aberração, a Emenda Clark de 1975, um  resultado do grande movimento anti­‑guerra do Vietname, foi revogada em 1985 por  Ronald Reagan. Durante os assaltos de Reagan à América central na década de 80,  vozes liberais como as de Tom Wicker do New York Times , deão das “pombas”,  debateram seriamente se sim ou não a pequenina e empobrecida Nicarágua seria uma  ameaça para os Estados Unidos. Nestes dias, tendo o terrorismo substituído a  ameaça vermelha, um outro falso debate está em andamento. Este é o do menor dos  males.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-weight: bold; font-family: verdana;"&gt;Embora poucos votantes de  mentalidade liberal pareçam ter ilusões acerca de John Kerry, a sua necessidade  de se livrarem da “vil” administração Bush é obsessiva. Representando-os na  Grã-Bretanha, o Guardian diz que a próxima eleição presidencial é «excepcional».  «As falhas e limitações do sr. Kerry são evidentes», diz o jornal, «mas eles são  postos na sombra pela agenda neoconservadora e pela catastrófica fabricação da  guerra do sr. Bush. Esta é uma eleição em que quase todo o mundo dará um suspiro  de alívio se o mandatário for derrotado».&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-weight: bold; font-family: verdana;"&gt;O mundo todo pode muito bem dar  um suspiro de alívio: o regime Bush é tanto perigoso como universalmente odiado,  mas esta não é a questão. Temos debatido o menor mal tão frequentemente em ambos  os lados do Atlântico que certamente já é tempo de parar de gesticular o óbvio e  examinar criticamente um sistema que produz os Bushes e as suas sombras  democratas. Para aqueles de nós que admiram a nossa sorte em termos atingido os  anos da maturidade sem termos sido explodidos em bocados pelos guerreiros do  americanismo, republicanos e democratas, conservadores e liberais, e para os  milhões por todo o mundo que agora rejeitam o contágio americano na vida  política, a verdadeira questão é clara. Trata-se da continuação de um projecto  que principiou há mais de 500 anos.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-weight: bold; font-family: verdana;"&gt;Os privilégios de “descoberta e  conquista” concedidos a Cristóvão Colombo em 1492, num mundo que o papa  considerou «sua propriedade a ser disposta conforme a sua vontade», foram  substituídos por uma outra pirataria transformada na divina vontade do  americanismo e sustentada pelo progresso tecnológico, notavelmente o dos media.  «A ameaça à independência no fim do século XX por parte da nova electrónica»,  escreveu Edward Said em &lt;i&gt;Culture and Imperialism&lt;/i&gt;, «poderiam ser maiores do  que o próprio colonialismo. Estamos a começar a aprender que a descolonização  não foi o término das condições de relação imperiais mas meramente a extensão de  uma teia geopolítica que tem estado a desenrolar-se desde o Renascimento. Os  novos media têm o poder de penetrar mais profundamente dentro de uma cultura  “receptora” do que quaisquer manifestações anteriores da tecnologia  ocidental».&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-weight: bold; font-family: verdana;"&gt;Todos os presidentes modernos  têm sido, em grande medida, uma criação dos media. Assim, o sanguinário Reagan é  ainda santificado; o Fox Channel de Rupert Murdoch e a BBC pós-Hutton têm  divergido apenas nas suas formas de adulação. E Bill Clinton é encarado  nostalgicamente pelos liberais como imperfeito mas iluminado; apesar de os anos  presidenciais de Clinton terem sido de longe mais violentos do que os de Bush e  os seus objectivos serem os mesmos: «a integração de países dentro da comunidade  do mercado livre global», cujos termos, observou o New York Times , «exigem que  os Estados Unidos estejam envolvidos na montagem completa dos assuntos internos  de cada nação de modo mais profundo do que nunca». A “dominância de pleno  espectro” [“full-spectrum dominance”] do Pentágono não foi o produto dos  "neo-cons" mas sim do liberal Clinton, o qual aprovou aquilo que foi então a  maior despesa de guerra da história. Segundo o Guardian, o herdeiro de Clinton,  John Kerry, enviou-nos «enérgicos apelos progressistas». Já é tempo de acabar  com estes disparates.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-weight: bold; font-family: verdana;"&gt;A supremacia é a essência do  americanismo; só os véus e as ceroulas é que mudam. Em 1976, o democrata Jimmy  Carter anunciou «uma política externa que respeita os direitos humanos». Em  segredo, ele apoiou o genocídio da Indonésia no Timor Leste e estabeleceu o  mujahedin no Afeganistão como uma organização terrorista destinada a derrocar a  União Soviética, da qual surgiram os Taliban e a al-Qaeda. Foi o liberal Carter,  não Reagan, que lançou as bases para George W. Bush. No ano passado entrevistei  os principais senhores supremos da política externa de Carter — Zbigniew  Brzezinski, seu conselheiro de segurança nacional e James Schlesinger, seu  secretário da Defesa. Nenhum projecto para o novo imperialismo é mais respeitado  do que o de Brzezinski. Recoberto com autoridade bíblica pelo gangue de Bush, o  seu livro de 1997 &lt;i&gt;The Grand Chessboard: American primacy and its geostrategic  imperatives &lt;/i&gt;descreve prioridades americanas como a subjugação económica da  União Soviética e o controle da Ásia central e do Médio Oriente.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-weight: bold; font-family: verdana;"&gt;A sua análise afirma que as  “guerras locais” são meramente o princípio de um conflito final conduzindo  inexoravelmente à dominação mundial dos EUA. «Para colocar isto numa  terminologia que ressoa outra vez a uma era mais brutal dos antigos impérios»,  escreve ele, «os três grandes imperativos da geoestratégia imperial são impedir  o conluio e manter a dependência de segurança entre os vassalos, manter os  clientes dóceis e protegidos, e impedir que os bárbaros se unam».&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-weight: bold; font-family: verdana;"&gt;Pode ter sido fácil na altura  desprezar este aviso considerando-o como uma mensagem da direita lunática. Mas  Brzezinski está na corrente predominante. Os seus devotados estudantes incluem  Madeleine Albright que, como secretária de Estado no tempo de Clinton, descreveu  a morte de meio milhão de crianças no Iraque durante o embargo imposto pelos EUA  como “um preço que valeu a pena pagar”, e John Negroponte, o arquitecto nos  bastidores do terror americano na América Central sob Reagan que é agora  “embaixador” em Bagdade. James Rubin, que foi entusiástico apologista de  Albright no Departamento de Estado, está a ser considerado como conselheiro de  segurança nacional de John Kerry. Ele também é um sionista, o papel de Israel  como um Estado terrorista nem é discutível. &lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-weight: bold; font-family: verdana;"&gt;Dê uma olhadela no resto do  mundo. Como o Iraque tem ocupado as primeiras páginas, os movimentos  norte­‑americanos no interior da África têm atraído pouca atenção. Aqui, as  políticas de Clinton e Bush são ininterruptas. Na década de 90, o African Growth  and Opportunity Act de Clinton lançou uma nova disputa pela África. Os  bombardeadores humanitários querem saber porque Bush e Blair não atacaram o  Sudão e “libertaram” Darfur, ou intervieram no Zimbabwe ou no Congo. A resposta  é que eles não têm qualquer interesse pelo sofrimento humano e pelos direitos  humanos, e estão ocupados a assegurar as mesmas riquezas que conduziram à  disputa europeia no fim do século XIX através dos meios tradicionais de coerção  e suborno, conhecido por multilateralismo. O Congo e a Zâmbia possuem 50 por  cento das reservas mundiais de cobalto; 98 por cento das reservas mundiais de  crómio estão no Zimbabwe e na África do Sul. Ainda mais importante, na África há  petróleo e gás natural desde a Nigéria até Angola, e em Higleig, no Sudão  sudoeste. Sob Clinton, a African Crisis Response Initiative (ACRI) foi montada  em segredo. Isto permitiu aos EUA estabeleceram “programas de assistência  militar” no Senegal, Uganda, Malawi, Ghana, Benin, Argélia, Niger, Mali e Chad.  O ACRI é executado pelo coronel Nestor Pino-Marina, um exilado cubano que fez  parte da invasão da Baía dos Porcos em 1961 e fez carreira como oficial das  forças especiais no Vietname e no Laos e que, sob Reagan, ajudou a conduzir a  invasão Contra a Nicarágua. Os pedigrees nunca mudam. &lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-weight: bold; font-family: verdana;"&gt;Nada disto é discutido numa  campanha presidencial na qual John Kerry se esforça por remover Bush com a  política de Bush. O multilateralismo ou “internacionalismo musculado” que Kerry  oferece em contraste com o unilateralismo de Bush é visto como esperançoso pelos  incuravelmente ingénuos; na verdade, ele acarreta ainda maiores perigos. Tendo  dado à elite americana o seu maior desastre desde o Vietname, escreve o  historiador Gabriel Kolko, Bush «é muito mais apto para continuar a destruição  do sistema de alianças que é tão crucial ao poder americano. Uma pessoa não tem  de acreditar que quanto pior melhor, mas temos de considerar candidamente as  consequências políticas externas de uma renovação do mandato de Bush. Por  perigosa que seja, a reeleição de Bush pode ser um mal menor». Com o apoio da  NATO ao presidente Kerry, e a submissão francesa e alemã, as ambições americanas  prosseguirão sem os obstáculos napoleónicos do gangue de Bush. &lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-weight: bold; font-family: verdana;"&gt;Pouco disto chega a aparecer  nos jornais americanos que vale a pena ler. O Washington Post, que a 14 de  Agosto se desculpou compungidamente perante os seus leitores por não «prestar  suficiente atenção às vozes que levantavam questões sobre a guerra [contra o  Iraque]», não interrompeu o seu silêncio sobre o perigo que o Estado americano  representa para o mundo. A pontuação de Bush nos inquéritos de opinião ascendeu  mais de 50 por cento, um nível nesta etapa da campanha em que nenhum mandatário  perdeu eleições. As virtudes da sua “franqueza”, que toda a máquina mediática  promoveu quatro anos atrás — a Fox e o Washington Post igualmente — são  novamente creditadas. Tal como na esteira dos ataques de 11 de Setembro, aos  americanos é negada uma pitada de entendimento daquilo que Norman Mailer chamou  «um clima pré-fascista». Os medos do resto de nós não têm consequência. &lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-weight: bold; font-family: verdana;"&gt;Os liberais profissionais em  ambos os lados do Atlântico desempenharam um grande papel nisto tudo. A campanha  contra o &lt;i&gt;Fahrenheit 9/11&lt;/i&gt; de Michael Moore é significativa. O filme não é  radical e não faz afirmações estranhas; o que ele faz é empurrar mais além  aqueles guardiões das fronteiras da dissidência “respeitável”. Eis porque o  público o aplaude. Rompe os códigos coniventes do jornalismo, o qual ele  envergonha. Permite às pessoas começarem a desconstruir a propaganda de cada  noite que passa por noticiário: aquela em que “um governo iraquiano soberano  promove a democracia” e em que os combatentes em Najaf e Faluja e Bassorá são  sempre “militantes” e “insurgentes” ou membros de um “exército privado”, nunca  nacionalistas a defenderem a sua pátria e cuja resistência tem provavelmente  adiado ataques ao Irão, à Síria e à Coreia do Norte. &lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-weight: bold; font-family: verdana;"&gt;O debate real nem é Bush nem  Kerry, mas o sistema que eles exemplificam; é o declínio da verdadeira  democracia e a ascensão do “Estado de segurança nacional” americano na  Grã-Bretanha e em outros países que afirmam serem democracias, nas quais pessoas  são enviadas para a prisão e a chave é lançada fora e cujos líderes cometem  crimes capitais em lugares distantes, sem empecilhos, e então, como o implacável  Blair, convidam os criminosos que eles instalam a falarem na conferência do  Partido Trabalhista.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-weight: bold; font-family: verdana;"&gt;O debate real é a subjugação  das economias nacionais a um sistema que, como nunca antes, divide a humanidade  e promove as mortes, todos os dias, de 24 mil pessoas famélicas. O debate real é  a subversão da linguagem política e do próprio debate e talvez, no fim, do nosso  auto-respeito.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18040584-112973300480214480?l=johnpilger.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://pilger.carlton.com/print/133343' title='Bush v. Kerry: o falso debate'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112973300480214480'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112973300480214480'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://johnpilger.blogspot.com/2004/08/bush-v-kerry-o-falso-debate.html' title='Bush v. Kerry: o falso debate'/><author><name>IA</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18040584.post-112973217246004410</id><published>2004-03-22T15:27:00.000Z</published><updated>2005-10-19T15:45:09.000+01:00</updated><title type='text'>A justiça universal não é um sonho</title><content type='html'>&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;A invasão do Iraque, agora no seu segundo ano em curso, foi «planificada à base de mentiras», afirma o novo presidente do governo espanhol. Cabe alguma dúvida? Não obstante, as ditas mentiras continuam a prevalecer na Austrália. E os seus responsáveis empenham­‑se dia após dia em continuar a falsear e a justificar uma agressão absurda e ilegal que causou a morte a 55.000 pessoas, incluídos pelo menos 10.000 civis; que em cada mês provoca a morte ou lesões a 1.000 crianças, por exposão de bombas de fragmentação; que semeou de urânio os povos e cidades do Iraque, pelo que se recomenda aos soldados estadounidenses e britânicos que se abstenham de aproximar­‑se dos lugares onde brincam as crianças, para evitar contaminar-se.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;Comparemos essa mortandade com a atrocidade ocorrida em Madrid. Por terrível que esse acto de terrorismo fosse, foi pequeno em comparação com o terrorismo que exerce a “aliança” encabeçada pelos Estados Unidos da América. Sim. Terrorismo. O termo soa um tanto estranho quando qualifica os “actos” dos nossos governos. No Ocidente estamos tão impregnados do discurso da maldade endémica dos tiranos do terceiro mundo (muitos deles fruto do imperialismo ocidental), que perdemos toda a noção da realidade do descomunal crime perpetrado em nosso nome.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;E isto não é pura retórica. Os magistrados do tribunal de Nuremberga que julgaram os dirigentes alemães em 1946 qualificaram a agressão gratuita de um país soberano como «o supremo crime de guerra universal». O princípio guiou a legislação internacional durante mais de meio século, até que Bush, Blair e Howard o infringiram cobrindo os seus actos com uma litania de mentiras. No passado dia 4 de Fevereiro, numa conferência que durou menos de uma hora, John Howard aludiu em mais de trinta ocasiões à “ameaça” colocada por Saddam Hussein. Ofereceu dados categóricos: O seu «arsenal químico e biológico [estava] intacto» e fazia parte de um «programa em massa». Falso, de princípio a fim.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;Ray McGovern, um dos mais veteranos analistas da CIA e amigo de George Bush pai, disse-me: «95% da informação é falsa. E Bush, Blair e Howard são bem conscientes disso». Confrontemos esta verdade com a actual mortandade no Iraque e com a selvagem destruição que a precedeu, que mal foi relatada na Austrália. Denis Halliday e Hans Von Sponeck, dois antigos membros da ONU destinados no Iraque na década dos noventa, ambos secretários gerais adjuntos das Nações Unidas, descreveram o «embargo genocida» imposto pelos Estados Unidos ao Iraque – sob a bandeira de conveniência da ONU –, apoiado e promovido pela Austrália. «Cerca de um milhão de iraquianos perderam a vida como consequência», explicou-me Halliday, «incluídas mais de 500.000 crianças. A UNICEF tem relatórios a respeito. Os Estados Unidos da América procuravam a destruição de infra-estruturas vitais no Iraque, tais como a rede de fornecimento de água, o que provocou a morte de milhares e milhares de crianças. No momento em que Bush ordenou a invasão do país, o que antes tinha sido um país próspero, era já uma nação devastada».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;De facto, a ONU conta nos seus arquivos com documentação que demonstra que, em Julho de 2002, a ajuda humanitária no valor de mais de cinco mil milhões de dólares, que contava com o visto bom do Conselho de Segurança e que o Iraque tinha pago, estava bloqueada pelos Estados Unidos da América.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;Quantos australianos estão a par deste facto e da conivência do seu próprio governo no assunto? Howard enviou navios da Marinha Australiana para patrulhar, no que não foi mais do que um cerco ao estilo da Idade Média. Quem se molestou em prestar atendimento às denúncias de Halliday, Von Sponeck e demais destacadas testemunhas de que, na realidade, foi este terrível cerco que consolidou o regime de Saddam e impediu que o povo iraquiano se livrasse das seus garras? Quem dos tantos que, quase comprazidos, hoje assinalam as fossas em massa – legado do despotismo de Saddam – informa os seus leitores de que as maiores fossas em massa são das forças iraquianas no sul do país, cujo levantamento em 1991 foi encorajado pelos norte­‑americanos, que depois lhes negaram qualquer apoio, chegando inclusive a impedir-lhes o acesso aos seus próprios arsenais, enquanto se limitavam a observar o extermínio, dos aviões? Ao presidente Bush I conveio­‑lhe então manter Saddam Husein no poder, deu-lhe carta branca, e os iraquianos mais combativos pagaram­‑no com as suas vidas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;Tudo isto foi suprimido na Austrália, enquanto os profissionais dos meios de comunicação dão cobertura e amplificação às falsidades reinantes. E não me refiro aos típicos enfatuados da imprensa de extrema direita, mas a toda uma série de jornalistas que acreditam sinceramente estar a ser objectivos. Quando a uma voz discordante como a minha (representando o ponto de vista de um bom número de australianos), lhe foi permitida uma breve aparição a 10 de Março passado na ABC Television, os protestos absurdos no dia seguinte do vice­‑primeiro­‑ministro e do ministro dos negócios estrangeiros, junto com todo o seu séquito nos meios de comunicação, sublinharam a total ausência de autêntico debate nos meios de comunicação australianos. O Yesterday's Insiders da ABC Television luzia nas suas entrevistas Alexander Downer (Tweedledum) e Gerard Henderson (Tweedledee). Que pavor têm da opinião informada. Ao manter constantemente o debate nacional dentro dos parâmetros e clichés do poder astuto, os profissionais da informação entram em conluio com ele e censuram por omissão.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;Será que já pensaram que o próprio conceito de “guerra contra o terrorismo” é absurdo quando Washington, que diz combater o terrorismo, conduziu um império do terror: Indonésia, Vietname, Camboja, Laos, Chile, El Salvador, Nicarágua, e agora o Haiti, de novo: só para mencionar uns quantos? Em comparação, a Al Qaeda é uma pulga letal. O verdadeiro perigo para o mundo é onde a desenfreada superpotência atacará de novo: cuidado Coreia, Síria, Irão, Cuba, Venezuela, mesmo China.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;À medida que os prisioneiros confinados no campo de concentração de Guantánamo começam a regressar penosamente aos seus países (salvo dois australianos, abandonados à sua sorte pelo seu próprio governo), começa-se a vislumbrar a magnitude do crime. Hoje sabemos que os comandos militares britânicos praticamente se negaram a enviar os seus homens ao Iraque até que Blair lhes garantiu que jamais seriam processados pelo recém criado Tribunal Penal Internacional. A segurança oferecida por Blair carecia de valor. E isso assusta tanto a administração britânica como a australiana, pois, contrariamente aos Estados Unidos da América, a Grã­‑Bretanha e a Austrália são países signatários do TPI.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;Os tempos estão a mudar; os simulacros de juízos manipulados por Washington contra os diversos ditadores do Terceiro Mundo estão a dar passo à promessa de uma autêntica justiça universal, por ténue que esta possa parecer. O banco dos acusados pode bem estar à espera daqueles ocidentais que levam o terrorismo em massa a países remotos e que depois observam como se volta contra nós e nos estoura na cara. Tal como com a Al Qaeda, não lhes deve ser permitido escapar.&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18040584-112973217246004410?l=johnpilger.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://pilger.carlton.com/print/133224' title='A justiça universal não é um sonho'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112973217246004410'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112973217246004410'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://johnpilger.blogspot.com/2004/03/justia-universal-no-um-sonho.html' title='A justiça universal não é um sonho'/><author><name>IA</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18040584.post-112974958610026698</id><published>2003-11-06T20:17:00.000Z</published><updated>2005-10-23T03:47:30.453+01:00</updated><title type='text'>O silêncio dos escritores</title><content type='html'>&lt;p class="MsoBodyText"  style="text-align: justify; font-weight: bold;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style=""&gt;Para os grandes escritores do século XX, a arte não podia estar separada da política. Hoje, há um silêncio perturbador sobre questões que deveriam comandar a nossa atenção.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText"  style="text-align: justify; font-weight: bold;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style=""&gt;Em 1935, o primeiro Congresso de Escritores Americanos teve lugar no Carnegie Hall, em Nova York, seguido de outro, dois anos depois. Segundo um informe, 3.500 pessoas lotaram o auditório e outras mil foram impedidas de entrar. Eram eventos electrizantes, com escritores discutindo como poderiam enfrentar os acontecimentos preocupantes na Abissínia, China e Espanha. Telegramas de Thomas Mann, C. Day Lewis, Upton Sinclair e Albert Einstein foram lidos em voz alta, reflectindo o medo da escalada do grande poder e que se tinha tornado impossível discutir sobre arte e literatura sem se falar de política.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText"  style="text-align: justify; font-weight: bold;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style=""&gt;«Um escritor», disse Martha Gellhorn durante o segundo congresso, «deve ser um homem de acção agora… Um homem que tenha dado um ano da sua vida às greves das metalúrgicas, ou à causa dos desempregados, ou aos problemas do preconceito racial, não perdeu nem desperdiçou o seu tempo. É um homem que se tornou consciente a respeito de onde pertencia. Quem conseguir sobreviver a uma acção dessas, o que terá a dizer depois é a verdade, é necessário e real, e durará».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText"  style="text-align: justify; font-weight: bold;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style=""&gt;As suas palavras ecoam através do silêncio do tempo presente. Que a ameaça do grande e violento poder nos nossos tempos é aparentemente aceite por escritores famosos, e por muitos daqueles que são os guardiães dos portões da crítica literária, é incontroverso. Não é para eles a impossibilidade de escrever e promover uma literatura despojada de política. Não é para eles a responsabilidade de falar — uma responsabilidade sentida até mesmo pelo apolítico Ernest Hemingway. Hoje em dia, declarou-se que o realismo é obsoleto; afecta­‑se uma altivez irónica; o falso simbolismo é tudo. Quanto aos leitores, a sua imaginação política deve ser apaziguada, não estimulada; afinal de contas, de que se importam eles? Martin Amis expressou isso muito bem, em &lt;i&gt;Visitando a Sra. Nabokov&lt;/i&gt;: «O predomínio do eu não é um ponto fraco, é uma  característica evolutiva; é como as coisas simplesmente  são».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText"  style="text-align: justify; font-weight: bold;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style=""&gt;Assim, trata­‑se de “evolução”. Evoluímos para o eu apolítico; para a introspecção e a discussão de indivíduos divorciados de qualquer noção de que a sua auto-obsessão é menos importante e menos interessante do que o compromisso em relação a como as coisas são para o resto de nós. Há alguns anos, o então florescente crítico literário D. J. Taylor escreveu uma rara peça chamada &lt;i&gt;When the pen sleeps&lt;/i&gt; [Quando a caneta  dorme]. Ele expandiu-a em livro, &lt;i&gt;A Vain Conceit&lt;/i&gt; [Uma presunção vã], no qual indagava porque é que o romance inglês degenerava, com tanta frequência, num «palrear de sala de visitas» e porque é que as questões urgentes da actualidade eram evitadas pelos escritores, ao contrário dos escritores de outras regiões, digamos, na América Latina, que sentiam uma obrigação de acolher a essência política em todas as nossas vidas e que molda as nossas vidas. Onde, perguntava, estavam os George Orwell, os Upton Sinclair, os John Steinbeck? (Parece que Taylor recentemente repudiou esse questionamento; esperemos que tenha recuperado a sua coragem.)&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText"  style="text-align: justify; font-weight: bold;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style=""&gt;As principais listas de prémios de literatura corroboram a sua tese original. Apesar disso, segundo Claire Armistead, editora literária do &lt;i&gt;The Guardian&lt;/i&gt;, «os escritores estão a desafiar qualquer forma de provincianismo». Mas o que mais desafiam? Ela descreve «uma inventividade realmente genérica» nas três nomeações para a categoria não-ficção do Guardian Book Award. Uma é sobre um neurologista que brinca com as palavras de um modo «totalmente excêntrico»; outra é sobre montanhas; outra é sobre a antiga Alemanha Oriental, a qual, diz ela, «nos faz entender um pouco melhor o velho e engraçado mundo em que vivemos».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText"  style="text-align: justify; font-weight: bold;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style=""&gt;Mas onde estão os trabalhos contemporâneos que vão ao cerne deste velho e engraçado mundo, como fizeram os livros de Steinbeck e Joseph Heller? Onde está o equivalente de &lt;i&gt;As Veias Abertas da  América Latina&lt;/i&gt; de Eduardo Galeano, de &lt;i&gt;What a Carve-Up!&lt;/i&gt; de Jonathan  Coe e de &lt;i&gt;The Redundancy of Courage&lt;/i&gt; de Timothy Mo? Existem, naturalmente, excepções honrosas. Pode-se comprar a colecção “And the Judges Said...” de James Kelman na W. H. Smith, o que prova que os livros que resgatam a verdadeira política da «inconsequência gracejadora» (para tomar emprestada a expressão de F. Scott Fitzgerald) das aldeias da mídia de Westminster são muito desejados pelo público.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText"  style="text-align: justify; font-weight: bold;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style=""&gt;Efectivamente, há incontáveis livros de autores pouco conhecidos, produzidos por editoras batalhadoras como Pluto e Zed, que iluminam, às vezes de forma brilhante, as sombras do poder predatório, e que são ignorados pela chamada corrente dominante. Sem dúvida, são considerados “políticos”; e a menos que a política possa ser reduzida aos seus estereótipos e, ainda melhor, transformada num episódio de TV, não obrigado. Afinal de contas, como escreveu um crítico que domina as resenhas de críticas dos livros de não-ficção em edições de capa económica: a ideia de que a democracia social esteja ameaçada pela marcha insana de George Bush e do seu acompanhante mccarthismo é, bom, «disparatada». Não importa que quando alguém voa para os EUA, perca as liberdades civis fundamentais da sua privacidade; que o seu próprio nome possa levar à revista do corpo, como Edward Said frequentemente experienciou; que o FBI agora inspeccione rotineiramente a lista de obras lidas nas bibliotecas públicas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText"  style="text-align: justify; font-weight: bold;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style=""&gt;Estes são tempos perigosos, e surreais. Coluna após coluna é dedicada ao culto de Martin Amis: ele, que descreve a política como tendo «definhado neste país, e isso é um grande tributo ao seu carácter altamente evoluído», e que zomba das grandes demonstrações anti-capitalistas e anti-guerra, descrevendo-as como «realmente [sobre] anti-política; eles estão a protestar contra a própria política».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText"  style="text-align: justify; font-weight: bold;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style=""&gt;Enquanto o &lt;i&gt;Guardian&lt;/i&gt; se regozija da reencontrada humanidade da ex-secretária de Estado dos EUA, Madeleine Albright, por ocasião da promoção da sua autobiografia, &lt;i&gt;Madam Secretary&lt;/i&gt;, não há uma única referência ao facto de que essa mesma mulher, quando questionada se a morte de 500.000 crianças no Iraque como resultado das sanções conduzidas pelos EUA eram um preço que valia a pena pagar, respondeu: «Achamos que o preço vale a pena». O título sobre a sua face sorridente dizia: «Adorei o que fiz».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText"  style="text-align: justify; font-weight: bold;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style=""&gt;«Quando a verdade é substituída pelo silêncio», disse o dissidente soviético Yevgeny Yevtushenko, «o silêncio é uma mentira». Nenhum congresso de escritores hoje em dia se preocupa com as mentiras e os crimes de George Bush e Tony Blair. É gratificante que o dramaturgo David Hare tenha quebrado o seu silêncio («A América fornece a potência de fogo; nós fornecemos a bosta»), juntando-se ao corajoso dissidente Harold Pinter. Agora, há urgência. Um documento de Downing Street, que circulou entre os governos “progressistas” da Europa, quer uma nova ordem mundial na qual as potências ocidentais tenham a autoridade de atacar qualquer outra nação soberana. Em seis anos, Blair enviou tropas britânicas para participarem em cinco diferentes conflitos, e ainda quer mais sangria. O documento ecoa os seus pontos de vista sobre “direitos e responsabilidades” — de matar e devastar povos em lugares remotos, consequentemente pondo em perigo e diminuindo­‑nos a todos nós.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText"  style="text-align: justify; font-weight: bold;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style=""&gt;O que George Orwell diria disto tudo? Há uma série de eventos sobre Orwell planeados para comemorar o seu nascimento. A maioria dos que participam são politicamente seguros ou guerreiros liberais devidamente credenciados. E se Orwell tivesse transformado &lt;i&gt;A Revolução dos  Bichos&lt;/i&gt; e &lt;i&gt;Mil Novecentos e Oitenta e Quatro&lt;/i&gt; em parábolas sobre o controle do pensamento nas sociedades relativamente livres, nas quais ele identificou as mentes disciplinadas do estado corporativo e as fronteiras invisíveis do controle liberal e das últimas modas nas roupas do imperador? Será que eles o celebrariam ainda?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText"  style="text-align: justify; font-weight: bold;font-family:verdana;"&gt;&lt;span style=""&gt;«Eles não dirão…» escreveu Bertolt Brecht em  &lt;i&gt;Tempos Sombrios&lt;/i&gt;. «…quando as grandes guerras estavam a ser preparadas… eles não dirão: os tempos eram sombrios. Em vez disso: porque estavam calados os seus poetas?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18040584-112974958610026698?l=johnpilger.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://pilger.carlton.com/print/133139' title='O silêncio dos escritores'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112974958610026698'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112974958610026698'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://johnpilger.blogspot.com/2003/11/o-silncio-dos-escritores.html' title='O silêncio dos escritores'/><author><name>IA</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18040584.post-113356283387221557</id><published>2003-04-10T22:29:00.000+01:00</published><updated>2005-12-02T22:33:53.900Z</updated><title type='text'>Eles arrancaram membros de mulheres e crânios de crianças. Suas vítimas apinham as morgues e afluem para hospitais que têm falta até de uma aspirina.</title><content type='html'>&lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Um produtor de televisão da BBC, momentos  antes de ser ferido por um avião caça norte­‑americano que matou 18 pessoas com  “fogo amigo”, falou com a sua mãe através de um telefone via satélite. Segurando  o telefone acima da sua cabeça, de modo que ela pudesse ouvir o som dos aviões  norte­‑americanos, disse: «Ouça, este é o som da  liberdade».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Será que li esta cena em &lt;i&gt;Catch­‑22&lt;/i&gt;?  Seguramente, o homem da BBC estava a ser ferozmente irónico. Duvido, assim como  duvido que a pessoa que concebeu a página três do &lt;i&gt;Observer&lt;/i&gt; no último  domingo tivesse Joseph Heller em mente quando escreveu o título de doninha: «O  momento em que o jovem Omar descobriu o preço da guerra». Essas palavras  covardes acompanhavam uma fotografia de um marine norte­‑americano que se  esticava para confortar Omar, de 15 anos, tendo acabado de participar no  assassinato em massa de seu pai, mãe, duas irmãs e irmão durante a invasão sem  provocação da sua terra natal, em violação das mais básicas leis dos povos  civilizados.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Nenhum epitáfio verdadeiro para eles apareceu  no famoso jornal liberal britânico; nenhum título honesto, tal como: “Este  marine norte­‑americano assassinou a família deste rapaz”. Nenhuma fotografia do  pai, mãe, irmãs e irmão de Omar desmembrados e ensanguentados pelo fogo  automático. Versões da foto de propaganda do &lt;i&gt;Observer&lt;/i&gt; têm aparecido na  imprensa anglo-americana desde o início da invasão: camafeus ternos das tropas  norte­‑americanas prestando socorros, ajoelhando, auxiliando suas vítimas  “libertadas”.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;E onde estavam as fotos da cidade de Furat,  onde 80 homens, mulheres e crianças foram bombardeados até à morte? Com excepção  do &lt;i&gt;Mirror&lt;/i&gt;, onde estavam as imagens, e as filmagens, de crianças pequenas  apertando as suas mãos aterrorizadas enquanto os vândalos de Bush forçavam as  suas famílias a se ajoelharem na rua? Imagine isso numa rua principal britânica.  É um vislumbre de fascismo, e nós temos o direito de  vê-lo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;«Começar uma guerra de agressão», disseram os  juízes no julgamento da liderança nazista em Nuremberg, «não é apenas um crime  internacional; é o crime internacional supremo, diferindo dos outros crimes de  guerra somente pelo facto de que contém em si mesmo o mal acumulado do todo». Ao  formular este princípio orientador do direito internacional, os juízes  rejeitaram especificamente os argumentos alemães da “necessidade” de ataques  preventivos contra outros países.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Nada do que Bush e Blair, os seus rapazes das  bombas de fragmentação e sua corte mediática façam mudará a verdade do seu  grande crime no Iraque. É uma questão de registro histórico, compreendido pela  maioria da humanidade, se não por aqueles que alegam estar a falar por “nós”.  Como disse Denis Halliday do embargo anglo­‑americano contra o Iraque, isso irá  «abatê-los nos livros de história». Foi Halliday quem, na qualidade de  secretário geral assistente das Nações Unidas, estabeleceu o programa “petróleo  por alimentos” no Iraque, em 1996, tendo concluído imediatamente que a ONU se  tinha tornado um instrumento de «ataque genocida contra toda uma sociedade». Ele  demitiu­‑se em protesto, como fez o seu sucessor, Hans von Sponeck, que  descreveu «a vergonhosa e perversa punição de uma nação».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Eu mencionei esses dois homens com frequência  nestas páginas, em parte porque os seus nomes e os seus testemunhos foram  evaporados da maioria dos media. Lembro-me bem de Jeremy Paxman bramando com  Halliday no programa Newsnight, pouco depois da sua demissão: «Então você é um  apologista de Saddam Hussein?» Isso ajudou a definir o tom para o arremedo de  jornalismo que agora, diariamente, quase alegremente, trata a guerra criminosa  como se fosse um desporto. Num e­‑mail que foi objecto de fuga de informação, um  executivo da BBC descreveu a cobertura de guerra da BBC como «extraordinária —  sente­‑se quase como o Campeonato do Mundo de futebol quando você vai de Um Qasr  para outro teatro de guerra noutro lugar e muda de uma batalha para  outra».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Ele está a falar de assassínio. É isso que os  norte­‑americanos fazem, e ninguém o dirá, mesmo quando estão a assassinar  jornalistas. Eles trazem para esse ataque unilateral contra um povo enfraquecido  e praticamente indefeso a mesma intenção racista, homicida que eu testemunhei no  Vietname, onde eles tinham todo um programa de matança chamado Operation  Phoenix. Isso ocorre em todas as suas guerras estrangeiras, assim como acontece  dentro da sua própria sociedade dividida. Considerem a investida actual. No  fim­‑de­‑semana passado, uma coluna dos seus tanques penetrou heroicamente em  Bagdade e retirou­‑se de novo. Assassinaram pessoas ao longo do caminho. Eles  arrancaram membros de mulheres e crânios de crianças. Ouçam as vozes deles no  vídeo não editado e não transmitido: “We shot the shit out of it”. As suas  vítimas apinham as morgues e os hospitais — hospitais já privados de  medicamentos e analgésicos devido à retenção deliberada dos EUA de 5,4 mil  milhões em bens humanitários, aprovados pelo Conselho de Segurança e pagos pelo  Iraque. Os gritos das crianças submetidas a amputações com anestesia mínima  qualificam­‑se como «o som da liberdade» do homem da BBC.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Heller apreciaria os espectáculos laterais.  Tomem o piloto do helicóptero britânico, por exemplo, em contenda com um  norte­‑americano que quase o abateu. «Você não sabe que os iraquianos não têm  uma força aérea?», gritou. Será que esse piloto reflectiu na verdade que acabava  de proferir, em todo o empreendimento covarde contra um enfraquecido país do  terceiro mundo e na sua parte nesse crime? Duvido. Os britânicos têm sido os  mais hábeis em iludir e mentir. Por qualquer padrão, a resistência iraquiana à  máquina anglo-americana de alta­ tecnologia foi heróica. Com velhos tanques e  morteiros, pequenas armas e emboscadas desesperadas, provocaram pânico nos  norte­‑americanos e reduziram a classe militar britânica a uma das suas  especialidades — a falsa altivez.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Os iraquianos que lutam são «terroristas»,  «bandidos», «bolsas de fiéis do Partido Baaz», «kamikazes» e «feds» (fedayeen).  Eles não são pessoas reais: pessoas cultas e instruídas. São árabes. Esse  vocabulário de desonra foi fielmente papagaiado por aqueles que desfrutam de  tudo a partir da caixa transmissora. «O que você acha de Bassora?» perguntou o  apresentador do programa Today a um ex-general incorporado ao estúdio. «É muito  encorajante, não é?», replicou. A sua mútua excitação, assim como as suas  polpudas vozes, são o seu laço.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;No mesmo dia, numa carta ao &lt;i&gt;Guardian&lt;/i&gt;,  Tim Llewellyn, um ex-correspondente da BBC no Médio Oriente, apontou-nos para a  evidência desta “tão encorajante” verdade — fotos fugazes na Sky News de  soldados britânicos irrompendo pela casa de uma família de Bassora, apontando a  suas armas a uma mulher e maltratando, encapuzando e algemando jovens rapazes,  um dos quais foi mostrado a tremer de terror. «Está a Grã-Bretanha a “libertar”  Bassora levando prisioneiros políticos e, nesse caso, com base em que tipo de  inteligência, dada a longa falta de familiaridade da Grã­‑Bretanha com esse  território e os seus habitantes… O mínimo que essa feia demonstração fará é  lembrar aos árabes e muçulmanos em todo o mundo sobre os dois pesos e duas  medidas anglo-saxônicas — nós podemos mostrar os vossos prisioneiros em…  posições degradantes, mas não ousem mostrar os nossos.».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;O executivo da BBC diz que o sofrimento de Um  Qasr é «como o Campeonato do Mundo de futebol». Há 40.000 pessoas em Um Qasr;  refugiados desesperados estão a afluir e os hospitais estão a abarrotar. Toda  esta miséria é devida inteiramente à invasão da “coalizão” e ao cerco britânico,  que forçou as Nações Unidas a retirar o seu pessoal de ajuda humanitária. A  Cafod, organização católica de assistência, diz que a quota humanitária padrão  para a água em situações de emergência é de 20 litros por pessoa e por dia. A  Cafod reporta hospitais inteiramente sem água e pessoas que bebem de poços  contaminados. Segundo a Organização Mundial da Saúde, 1,5 milhões de pessoas no  sul do Iraque estão sem água, e as epidemias são inevitáveis. E o que estão os  “nossos rapazes” a fazer para aliviar a situação, além de encenar ocupações  infantis e teatrais de palácios presidenciais, disparar os seus mísseis  portáteis para a população civil de uma cidade e lançar bombas de  fragmentação?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Um coronel britânico lamenta com o seu  rebanho “incorporado” que «é difícil distribuir auxílio numa área que é ainda  uma zona activa de batalha». A lógica das suas próprias palavras  ridicularizam­‑no. Se o Iraque não fosse uma zona de batalha, se os britânicos e  os americanos não estivessem a desafiar o direito internacional, não haveria  dificuldade em prestar auxílio.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Há algo de especialmente repugnante na  lúgubre propaganda que vem desses oficiais britânicos treinados em relações  públicas, que não têm qualquer noção sobre o Iraque e o seu povo. Eles descrevem  a libertação que estão a trazer partindo da “pior tirania do mundo”, como se  tudo, incluindo a morte por uma bomba de fragmentação ou por disenteria, fosse  melhor do que “a vida sob Saddam”. A verdade inconveniente é que, segundo a  UNICEF, os membros do partido Ba’ath construíram o sistema de saúde mais moderno  do Médio Oriente. Ninguém põe em dúvida a natureza sinistra e totalitária do  regime; mas Saddam Hussein foi cuidadoso em usar a riqueza proveniente do  petróleo para criar uma sociedade secular moderna e uma ampla e próspera classe  média. O Iraque era o único país árabe com um nível de abastecimento de água  potável de cerca de 90 por cento e educação gratuita. Tudo isso foi esmagado  pelo embargo anglo-americano. Quando o embargo foi imposto, em 1990, o serviço  civil iraquiano organizou um sistema de distribuição de alimentos que a FAO  descreveu como «um modelo de eficiência ... que indubitavelmente salvou o Iraque  da fome». Isso, também, foi destroçado quando a invasão foi  desencadeada.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Porque é que os britânicos ainda não  explicaram as razões pelas quais as suas tropas têm que usar fatos protectores  para recuperar os mortos e feridos em veículos atingidos pelo “fogo amigo”  americano? A razão é que os americanos estão a usar urânio sólido como  revestimento dos seus mísseis e tanques. Quando estive no sul do Iraque, os  médicos estimaram um aumento de sete vezes nos casos de cancro, nas áreas onde  foi utilizado urânio enfraquecido pelos americanos e britânicos, durante a  guerra de 1991. Sob o embargo subsequente, foi negado ao Iraque, ao contrário do  Kuwait, o equipamento para a limpeza dos campos de batalha contaminados. Os  hospitais de Bassorá têm pavilhões lotados de crianças com cancros de uma  variedade não vista antes de 1991. Não têm analgésicos; são afortunados se têm  uma aspirina.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Com louváveis excepções (Robert Fisk,  al-Jazeera), pouco disto foi reportado. Ao invés, a mídia desempenhou o papel  que lhe foi pré-ordenado como “poder suave” da América imperial: raramente  identificando o “nosso” crime, ou adulterando­‑o como uma luta entre as boas  intenções e a encarnação do mal. Este fracasso profissional e moral abjecto  sinaliza, agora, os perigos despercebidos de uma vitória tão épica, tão falsa,  convidando à sua repetição no Irão, na Coreia, na Síria, em Cuba, na  China.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;George Bush disse: «Não servirá de defesa  dizer: “Eu estava só a cumprir ordens”». Ele tem razão. Os juízes de Nuremberg  não deixaram qualquer dúvida sobre o direito do soldado comum de seguir a sua  consciência numa guerra ilegal de agressão. Dois soldados britânicos tiveram a  coragem de buscar o estatuto de objectores de consciência. Enfrentam a corte  marcial e o encarceramento; entretanto, não foi feita qualquer pergunta sobre  eles nos meios de comunicação. George Galloway foi exposto ao ridículo por ter  feito as mesmas perguntas que Bush, e ele e Tam Dalyell, Pai da House of  Commons, estão a ser ameaçados com a remoção pelo chicote  Trabalhista.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Dalyell, membro da House of Commons há 41  anos, afirmou que o Primeiro Ministro é um criminoso de guerra que deveria ser  mandado para Haia. Isto não é gratuito; em evidência de &lt;i&gt;prima facie&lt;/i&gt;,  Blair é um criminoso de guerra, assim como todos os que têm sido acessórios, de  uma forma ou de outra, deveriam ser reportados ao Tribunal Penal Internacional.  Não somente eles promoveram uma charada de pretextos que poucos agora levam a  sério, como também levaram o terrorismo e a morte ao Iraque. Um crescente corpo  de opiniões legais em todo o mundo concorda que o novo tribunal tem o dever,  como escreveu Eric Herring da Universidade de Bristol, de investigar «não  somente o regime, mas também o bombardeamento e as sanções da ONU, os quais  violaram os direitos humanos dos iraquianos em vasta escala». Acrescente-se a  guerra de pirataria actual, cujo espectro é a unificação do nacionalismo árabe  com o Islão militante. O turbilhão desencadeado por Blair e Bush está só a  começar. Tal é a magnitude do seu crime.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;________&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;[1] A expressão “Catch 22” é  intraduzível. Para entender o seu significado, consulte &lt;a href="http://www.canaldelivros.com/index.php?sec=Alfarrabista&amp;type=1095"&gt;http://www.canaldelivros.com/index.php?sec=Alfarrabista&amp;amp;type=1095&lt;/a&gt;  (n. IA).&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18040584-113356283387221557?l=johnpilger.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://pilger.carlton.com/print/132898' title='Eles arrancaram membros de mulheres e crânios de crianças. Suas vítimas apinham as morgues e afluem para hospitais que têm falta até de uma aspirina.'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/113356283387221557'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/113356283387221557'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://johnpilger.blogspot.com/2003/04/eles-arrancaram-membros-de-mulheres-e.html' title='Eles arrancaram membros de mulheres e crânios de crianças. Suas vítimas apinham as morgues e afluem para hospitais que têm falta até de uma aspirina.'/><author><name>IA</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18040584.post-112994882674098119</id><published>2002-07-25T15:35:00.000+01:00</published><updated>2005-10-22T03:40:26.750+01:00</updated><title type='text'>O falhanço dos nossos escritores (2)</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify; font-weight: bold;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style="font-family: verdana; font-weight: normal;"&gt;David Hare e outros escritores que gozam de uma plataforma pública deveriam ouvir a lembrança de Desmond Tutu das palavras de Martin Luther King: «As nossas vidas começaram para findar o dia em que nos tornámos silenciosos sobre as coisas que importam»

 &lt;/span&gt;&lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; text-align: justify; font-weight: bold;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;span style=""&gt;No dia 17 de Junho, escrevi sobre o recente  ensaio de Martin Amis no &lt;i&gt;Guardian&lt;/i&gt;, “A voz da multidão solitária”, no qual  ele descrevia a resposta de escritores famosos como ele ao 11 de Setembro como  um «balbuciar lamentável». Na verdade, eles ficaram e permanecem em grande parte  silenciosos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify; font-weight: bold;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify; font-weight: bold;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; text-align: justify; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style=""&gt;O dramaturgo David Hare rompeu o seu silêncio  este mês num artigo do &lt;i&gt;Guardian&lt;/i&gt; promovendo a sua peça &lt;i&gt;Via  Dolorosa&lt;/i&gt;, que é sobre israelitas e palestinianos, e foi escrita em 1997-98,  durante o que Hare descreveu como um «momento de romântica abertura mental». Com  isso, ele referia­‑se às negociações que levaram aos encontros falhados de Camp  David em Setembro de 2000 que, na realidade, teriam mantido os palestinianos  presos em cantões concebidos nos prévios acordos de Oslo. Um comentador  israelita chamou isso «a autonomia de um campo de prisioneiros de  guerra».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify; font-weight: bold;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify; font-weight: bold;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; text-align: justify; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style=""&gt;O artigo de Hare no &lt;i&gt;Guardian&lt;/i&gt; foi  também uma resposta ao meu artigo de 17 de Junho. Ele escreveu que eu tinha  lamentado «a pobreza endémica da vida cultural britânica». Não é assim; a vida  cultural britânica está bem, se for descontada a introspecção de ‘sala de estar’  dos seus ricos e famosos escritores: aqueles cuja reticência é indesculpável  neste momento de grande perigo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify; font-weight: bold;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify; font-weight: bold;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; text-align: justify; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style=""&gt;Enquanto a agressiva superpotência entrega os  palestinianos nos braços de Ariel Sharon (considerado «pessoalmente responsável»  pelos massacres de Sabra e Chatila, em 1982) está a planear um ataque a um  estado soberano, o Iraque, com a perspectiva, segundo o Pentágono, de 10.000  mortes civis. O seu maior aliado, o governo Blair, dobrou os envios de armas a  Israel e quase certamente se aliará aos americanos na sua mais recente farra de  sangue. Sob qualquer critério de lei internacional, para não dizer de  moralidade, ambos os empreendimentos constituem crimes  históricos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify; font-weight: bold;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify; font-weight: bold;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; text-align: justify; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style=""&gt;O leitor poderia pensar que, na tradição de  Zola e Miller e Orwell, David Hare — outrora descrito como «o dramaturgo radical  da Grã­‑Bretanha» — poderia ter algo a dizer sobre isto. Não. Ele diz­‑nos como  é aborrecido receber «algum questionário pronto [que cai] através da porta de um  escritor, pedindo-lhe a ele ou a ela para tomar partido, para explicar… porque é  que eles pessoalmente aprovam ou não acções específicas de governos específicos  — como se questões profundas de poder e fé pudessem de algum modo ser  despachadas para os limites históricos pelo golpe do pulso de um  romancista».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify; font-weight: bold;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify; font-weight: bold;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; text-align: justify; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style=""&gt;Será certo que o dramaturgo mais radical da  Inglaterra não se sinta equipado para tomar uma posição? O Dr. Ala Khazendar de  Cambridge, respondendo no &lt;i&gt;Guardian&lt;/i&gt; ao artigo de Hare, apontou o contraste  subtil da linguagem utilizada por Hare para descrever os israelitas e os  palestinianos. Para Hare, «famílias israelitas» inteiras são «destruídas» pelos  ataques suicidas no seu país. Contudo, os palestinianos, e somente os  «inocentes» entre eles, são «apanhados» pela violência. O terrorismo israelita é  descrito meramente como fazendo mal àqueles que se encontram «no caminho da  subjugação militar», mas o terrorismo palestino é «assassino». Os extremistas do  lado israelita são condenados como «fanáticos e expansionistas», mas entre  aqueles que resistem e reagem a esse fanatismo, existe a «mais vil  desumanidade».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify; font-weight: bold;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify; font-weight: bold;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; text-align: justify; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style=""&gt;O dramaturgo radical está consternado por  George W. Bush o ter decepcionado. «Parecia razoável aceitar», escreveu ele, que  o «compromisso» de Bush com um estado palestino «fosse uma oferta feita de boa  fé, e que o presidente tinha aprendido as lições da sua relutância inicial em  usar o poder da América para intervir na região». Relutância? Desde o 11 de  Setembro, Bush enviou 228 sistemas de mísseis guiados para a força aérea  israelita, juntamente com 24 modernos helicópteros de artilharia Black Hawk e 50  caça-bombardeiros F-16, com partes britânicas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify; font-weight: bold;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify; font-weight: bold;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; text-align: justify; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style=""&gt;Hare está desapontado com Colin Powell, «que  prometeu tanto…» Será isto ironia? A última tarefa do General Powell foi  supervisionar a matança de dezenas de milhares de civis iraquianos, durante a  matança unilateral chamada de Guerra do Golfo. A sua distinção prévia foi  conduzir o encobrimento pelo exército dos EUA do massacre de My Lai no  Vietname.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify; font-weight: bold;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify; font-weight: bold;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; text-align: justify; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style=""&gt;Na verdade, o dramaturgo radical está  aborrecido que Powell e Bush tenham feito dele “um trouxa”. Isso é  compreensível. Como ele o põe, ele era um daqueles «que apoiaram energicamente a  acção americana no Afeganistão, não só como um acto legítimo de autodefesa, mas  também como um empreendimento humanitário a favor de um país em necessidade  desesperada de ajuda [e] desfrutou de um breve momento de esperança, no último  outono, quando pensávamos que tínhamos detectado… uma bem-vinda seriedade na  política externa dos EUA».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify; font-weight: bold;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify; font-weight: bold;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; text-align: justify; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style=""&gt;Enquanto ele desfrutava desse momento de  esperança, o &lt;i&gt;New York Times&lt;/i&gt; reportava que Bush tinha «demandado… a  eliminação de comboios de camiões que fornecem a maior parte dos alimentos e  outros suprimentos para a população civil do Afeganistão». E em Dezembro último,  a Universidade de New Hampshire divulgou os resultados de um estudo que  determinou que os bombardeiros dos EUA tinham matado mais de 3.000 civis afegãos  — mais do que o número daqueles que morreram nas torres  gémeas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify; font-weight: bold;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify; font-weight: bold;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; text-align: justify; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style=""&gt;Foi durante aquelas poucas semanas de  esperança, escreveu Hare, que «pudemos acreditar que o ocidente tinha  redescoberto o seu papel». Muitos diriam que esse “papel” nunca foi perdido. Em  Outubro, ao descrever o “papel” de rotina dos EUA, William Blum escreveu em  &lt;i&gt;Rogue State&lt;/i&gt; [Estado Pária]: «Armas da artilharia dos EUA metralharam e  canhonearam a remota aldeia de agricultores de Chowkar-Karez, matando 93  pessoas. Um funcionário do Pentágono foi levado a responder, a certa altura: “As  pessoas lá estão mortas porque nós queríamos que estivessem mortas”. O  Secretário da Defesa Donald Rumsfeld comentou: “Não posso tratar daquela aldeia  em particular”».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify; font-weight: bold;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify; font-weight: bold;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; text-align: justify; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style=""&gt;A melhor peça de David Hare, Pravda, era um  grito eloquente contra o abuso de poder. Com Bush apoiando abertamente o regime  cripto-fascista do Likud, em Israel, enquanto se prepara para destruir um número  incontável de vítimas no Iraque, aqueles que têm o privilégio de dispor de uma  plataforma pública têm tanto o dever moral quanto o dever intelectual de parar  de torcer as mãos e falar. Quando aquela grande voz da liberdade, Desmond Tutu,  reivindicou recentemente um boicote contra Israel, ele traçou um paralelo com o  apartheid da África do Sul e o boicote que ajudou a  derrotá­‑lo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify; font-weight: bold;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify; font-weight: bold;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; text-align: justify; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style=""&gt;Como se estivesse a dirigir­‑se a liberais  inertes que acham “cheio de lábia” o empenhamento dos demais, ele citou Martin  Luther King: «As nossas vidas começaram para findar o dia em que nos tornámos  silenciosos sobre as coisas que importam».&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18040584-112994882674098119?l=johnpilger.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://pilger.carlton.com/print/111885' title='O falhanço dos nossos escritores (2)'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112994882674098119'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112994882674098119'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://johnpilger.blogspot.com/2002/07/o-falhano-dos-nossos-escritores-2.html' title='O falhanço dos nossos escritores (2)'/><author><name>IA</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18040584.post-113357039631750981</id><published>2002-07-04T12:35:00.000+01:00</published><updated>2005-12-03T00:39:56.343Z</updated><title type='text'>O estado pária</title><content type='html'>&lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;http://pilger.carlton.com/print/109955&lt;/span&gt;

&lt;span style=""&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Durante 101 dias, os Royal Marines estiveram  engajados numa operação ridícula como mercenários dos Estados Unidos, cuja  ilegalidade o qualifica agora como o principal estado pária do  mundo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Atirando em sombras, e ocasionalmente em  membros de tribos, explodindo montes de imundícies e exibindo armas “capturadas”  para os media, tudo isto tem sido parte do humilhante papel dos Marines no  Afeganistão — um papel que lhes foi impingido pelo governo Blair, cuja  deferência e conluio com o bando de Bush se tornou numa paródia do cortesão  imperial.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Bando não é um exagero. A palavra, no meu  dicionário, significa «um grupo de pessoas a actuarem em conjunto para fins  criminais, vergonhosos». Isso descreve acuradamente George W. Bush e aqueles que  escrevem os seus discursos e fazem as suas decisões e que, desde a sua subida ao  poder, têm minado as próprias bases do direito  internacional.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;center style="font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;&lt;img src="http://images.icnetwork.co.uk/upl/mirror/oct2001/8/9/000E37C1-5910-1BC1-837E80C328EC0354.jpg" align="middle" /&gt; &lt;/center&gt;  &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt;"&gt;Bombardear primeiro,  descobrir depois:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt;"&gt;George Bush anunciou o  começo do&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;bombardeamento  indiscriminado do Afeganistão&lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;No Afeganistão, o seu registo é indiscutível.  O assassinato de 40 convidados numa festa de casamento não foi um “erro” mas o  resultado directo de uma política de atirar e bombardear primeiro e descobrir  depois, tal como George W. Bush anunciou nas semanas após o 11 de  Setembro.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;A capacidade da máquina militar americana  para esmagar países empobrecidos nunca esteve em causa — aliás, condicionada à  ausência de tropas de terra americanas e à sua substituição por forças  “aliadas”, como os Royal Marines. (Durante o apogeu do Império Britânico, foi  atribuído um papel semelhante aos cipaios indianos e a outras tropas coloniais,  embora os britânicos, ao contrário dos americanos, também estivessem preparados  para sacrificar os seus próprios soldados).&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Desde Outubro último, líderes afegãos têm  relatado aviões americanos a destruírem aldeias «demasiado pequenas para serem  marcadas em qualquer mapa» com «mais de 300 pessoas assassinadas» numa noite.  Numa família de 40 pessoas, só um garoto e a sua avó sobreviveram, informou  Richard Lloyd Parry, do &lt;i&gt;Independent&lt;/i&gt;.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Fora da vista das câmaras da televisão «pelo  menos 3.767 civis foram mortos por bombas dos EUA entre 7 de Outubro e 10 de  Dezembro (...) uma média de 62 inocentes mortos por dia», segundo um estudo  efectuado pela Universidade de New Hampshire, nos EUA. Estima-se agora que este  número tenha atingido 5.000 civis mortos: quase o dobro do número de mortos no  11 de Setembro.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Não há evidência de que um único líder da  al-Qaeda tenha sido capturado ou, que se saiba, morto. Nem tão pouco o líder dos  Taliban. A mudança no Afeganistão é mínima em comparação com o sanguinário  feudalismo que exerceu o poder durante a década de 1990, e antes de os Taliban  subirem ao poder.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Depois de todas as mudanças cosméticas em  Cabul, a capital, as mulheres ainda não ousam andar sem o véu. «Os Taliban  costumavam exibir o corpo das vítimas em público durante quatro dias», disse  sarcasticamente o novo ministro da Justiça do regime instalado pelos americanos.  «Nós somente exibiremos o corpo por um curto espaço de tempo, digamos quinze  minutos, após uma execução pública».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Descrever isto como um «triunfo do bem sobre  o mal», como afirmou Bush, com um eco de Blair, é como celebrar a superioridade  da máquina de guerra alemã em 1940 como uma justificação do  nazismo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Não só os Marines mas também o público  britânico podem sentir-se ludibriados. Tanto Washington como Whitehall sabiam há  muito que a al-Qaeda estava acabada no Afeganistão. Aparte o elemento de  vingança, para satisfação interna, os americanos começaram a reconfirmar o  controle dos seus senhores de guerra favoritos: pessoas responsáveis por  milhares de mortes no seu afligido país.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;center style="font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;&lt;img src="http://images.icnetwork.co.uk/upl/mirror/apr2002/7/1/0008A8C4-99C4-1CB1-B61680C328EC02EF.cartoon" align="middle" /&gt; &lt;/center&gt;  &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt;"&gt;Poodle: Tony Blair efectua  as&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;jogadas de George Bush para  ele&lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Em Outubro, os EUA planearam instalar um  regime dominado por membros da tribo pashtun que, previram eles, abandonariam os  Taliban. Mas a divisão nos Taliban nunca aconteceu e os americanos desde então  mudaram de curso e tentaram juntar uma “coalizão” de senhores da guerra  tadjiques e uzbeques. O actual “presidente interino”, Hamid Karzai, embora um  pashtun, não tem base de poder tribal ou militar. Ele é simplesmente o homem dos  EUA.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;A presença dos Royal Marines, dirigindo a  chamada “International Security Assistance Force”, é por razões saídas  directamente do século XIX. Sob o comando dos americanos, os Marines foram  instruídos no sentido de manterem os senhores da guerra favoritos longe das  gargantas uns dos outros até que a região pudesse ser “estabilizada” para o  petróleo americano e outros interesses estratégicos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;O vasto potencial das fontes de energia na  Ásia Central tornou-se crítico para a profundamente perturbada economia  americana, e para a administração Bush, que é dominada pelos interesses da  indústria do petróleo, nomeadamente a própria família Bush. Uma investigação do  &lt;i&gt;Asia Times&lt;/i&gt;, de Hong Kong, descobriu em Janeiro que os EUA estavam a  desenvolver freneticamente «uma rede de múltiplos oleodutos no  Cáspio».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;A desonrada Enron Corporation, uma das  maiores apoiantes da campanha de Bush, efectuou um estudo de viabilidade para um  oleoduto de US$ 2,5 mil milhões a ser construído através do Mar Cáspio. Altos  responsáveis americanos, actuais e antigos, incluindo o vice-presidente Cheney,  «têm todos fechado grandes contratos directa ou indirectamente em benefício das  companhias petrolíferas», diz o &lt;i&gt;Asia Times&lt;/i&gt;.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Se houvesse um mapa das bases militares  americanas instaladas na região para combater “a guerra contra o terrorismo”, o  que seria imediatamente evidente é que elas seguem quase exactamente a rota do  projectado oleoduto para o Oceano Índico.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Blair e o volúvel Geoffrey Hoon,  naturalmente, não proporcionaram nenhuma desta informação vital ao povo  britânico, sem mencionar os soldados britânicos que foram enviados para actuar  no jogo imperial dos EUA. Felizmente, as tropas sofreram apenas gripe gástrica.  O povo afegão não teve tanta sorte.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Qualquer dúvida acerca da sistemática forma  homicida como os militares dos EUA operaram no Afeganistão é dissipada por uma  reportagem de Maio da imprensa americana acerca de crianças abatidas a tiro em  campos de trigo enquanto dormiam. Durante quatro horas, helicópteros artilhados  americanos saturaram os campos e uma aldeia com balas e mísseis antes de  aterrarem para vomitar tropas estado­‑unidenses que atiraram nos sobreviventes e  detiveram outros “suspeitos”.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Na verdade, a área era conhecida pela sua  oposição aos Taliban e o governador da província de Oruzgan confirmou que  aquelas pessoas assassinadas «eram pessoas comuns. Não havia al-Qaeda ou Taliban  aqui».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;center style="font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;&lt;img src="http://images.icnetwork.co.uk/upl/mirror/oct2001/0/7/0006405E-3E0B-1BDD-84E080C328EC035A.291001" align="middle" /&gt; &lt;/center&gt;  &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt;"&gt;Matança: Um agricultor  afegão chora&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt;"&gt;pelos seus filhos mortos,  assassinados&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;por bombardeamentos  americanos&lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Nos últimos meses, o estado pária americano  rasgou o Tratado de Quioto, que reduziria o aquecimento global e a probabilidade  de desastre ambiental. Ameaçou utilizar armas nucleares em “ataques preventivos”  (uma ameaça ecoada por Hoon). Tentou sabotar o estabelecimento de um Tribunal  Criminal Internacional, compreensivelmente, porque os seus generais e principais  políticos podem ser intimados como réus.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Minou ainda mais a autoridade das Nações  Unidas ao permitir que Israel bloqueasse um comité de investigação da ONU sobre  o assalto israelense ao campo de refugiados palestino de Jenin, e ordenou aos  palestinianos que se livrassem do seu líder eleito em favor de um fantoche  americano.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Ignorou a Cimeira Alimentar Mundial, na  Itália; e em conferências cimeiras no Canadá e na Indonésia bloqueou ajuda  autêntica, tal como água limpa e electricidade, à maior parte dos povos  necessitados da Terra. As propostas para aumentar subsídios alimentares  americanos em 80 por cento destinam-se a assegurar o domínio dos EUA no mercado  mundial de cereais.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;(«Quando nos levantamos da mesa do  pequeno-almoço cada manhã», disse o executivo-chefe da corporação Cargill, a  maior companhia alimentar do mundo, «muito daquilo que acabámos de comer —  cereais, pão, café, açúcar e assim por diante — passou pelas terras da minha  companhia». O objectivo da Cargill é duplicar de tamanho cada cinco a sete  anos).&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Há um desesperado limite para a maior parte  das acções párias dos EUA. Os fundamentalistas cristãos do “mercado livre” que  mandam em Washington estão preocupados. O défice em transacções correntes dos  EUA está a registar um recorde de US$ 34 mil milhões. As compras externas da  enorme dívida americana estão a cair rapidamente. O mercado de acções americano  está pesadamente super-valorizado, e o dólar é incerto.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Como pôs um comentador, a “doutrina Bush”  assemelha-se a «uma última tentativa de ordenar o mundo totalmente em torno das  exigências do capital monopolista dos EUA, antes que se percam as esperanças de  poder fazer isso».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Por outras palavras, este bem pode ser o  último lance dos dados antes de a economia americana entrar num sério declínio —  como indicava a dramática queda de ontem nos mercados de  acções.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Isto significa controlar as riquezas  petrolíferas e de combustíveis fósseis da Ásia Central. Significa atacar o  Iraque, instalar um substituto de Saddam Hussein e tomar o controle da segunda  maior fonte de petróleo do mundo. Significa cercar um novo desafiador económico,  a China, com bases, e intimidar os líderes do seu principal rival económico, a  Europa, minando a NATO, e ateando uma guerra comercial.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Acabo de visitar os Estados Unidos, e é claro  que muitas pessoas ali estão preocupadas. E muitas não ousam dizer isso. Os seus  pontos de vista são raramente relatados nos principais media americanos, os  quais são auto­‑censurados e controlados, talvez como nunca  antes.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Em contraposição, o ar está espesso com  visões de pessoas como Charles Krauthammer, do &lt;i&gt;Washington Post&lt;/i&gt;. «O  unilateralismo é a chave para o nosso sucesso», escreveu ele, ao descrever o  mundo dos próximos cinquenta anos: um mundo sem protecção de ataques nucleares  ou danos ambientais para os cidadãos de qualquer país excepto os Estados Unidos;  um mundo onde “democracia” nada significa se os seus benefícios estiverem em  divergência com “interesses” americanos; um mundo em que expressar dissensão em  relação a estes “interesses” marca uma pessoa como terrorista e justifica  vigilância e repressão.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Só há um caminho para resistir a tal potência  pária. É falando abertamente e com urgência. Se o nosso governo não o faz,  devemos fazê-lo nós.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18040584-113357039631750981?l=johnpilger.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://www.mirror.co.uk/printable_version.cfm?objectid=12005343&amp;siteid=50143' title='O estado pária'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/113357039631750981'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/113357039631750981'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://johnpilger.blogspot.com/2002/07/o-estado-pria.html' title='O estado pária'/><author><name>IA</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18040584.post-112994243621904201</id><published>2002-06-13T13:49:00.000+01:00</published><updated>2005-10-22T01:53:56.230+01:00</updated><title type='text'>O falhanço dos nossos escritores</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: verdana;"&gt;Martin Amis representa um problema: alguns dos escritores mais aclamados e privilegiados da língua inglesa não se engajam nas questões mais prementes da nossa era&lt;/span&gt;

 &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;No dia 1 de Junho, o &lt;i&gt;The Guardian  &lt;/i&gt;publicou um longo ensaio da autoria de Martin Amis, intitulado “A voz da  multidão solitária”. Era sobre o 11 de Setembro e o papel dos escritores. O que  pensava Amis sobre o importantíssimo dia? Ele pensava que ser «como Josefina, a  rata cantora de ópera na história de Kafka: &lt;i&gt;Cantar? ‘Ela nem sequer sabe  guinchar’&lt;/i&gt;».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Com isso, ele quis dizer, creio, que não  tinha nada a dizer sobre «os conflitos que agora enfrentamos ou tememos», para  usar as palavras dele. Porque não? Onde estava o espírito de Orwell e de Greene?  Onde estava o modesto reconhecimento da história: uma reflexão passageira sobre  o impacto do grande poder predador sobre sociedades vulneráveis, que é a raiz do  corrente “terrorismo”? Amis referiu com razão o “balbuciar lamentável” dos  escritores após o 11 de setembro.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;A maioria dos nomes mais famosos foram  ouvidos, as suas contribuições indo da sombria gravitação em torno do próprio eu  a uma defesa agressiva da América e da sua “modernidade”. Nenhum escritor  inglês, a comando da celebridade que providencia uma extraordinária plataforma  pública, escreveu algo de incisivo e merecedor da nossa memória sobre o  significado e a exploração do 11 de Setembro — com a excepção, como sempre, de  Harold Pinter. Comparem o “balbuciar” e o silêncio desses escritores com o  trabalho do famoso poeta palestino Mahmoud Darwish, tema de um belo perfil do  &lt;i&gt;The Guardian&lt;/i&gt;, no dia 8 de Junho, por Maya Jaggi.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Darwish é o poeta que mais vende no mundo  árabe; poeta do povo pode soar banal, mas ele atrai milhares aos seus escritos,  entusiasmando as suas audiências com um lirismo que toca as suas vidas, fazendo  sentido do poder, injustiça e tragédia. No seu último poema, “Estado de Sítio”,  um “mártir” diz:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Amo a vida&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Na terra, entre os pinheiros e as  figueiras&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Mas não posso alcançá-los, por isso fiz  pontaria&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Com a última coisa que me  pertencia.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Os manuscritos de Darwish foram pisoteados  por soldados israelitas, no centro cultural de Ramallah, onde ele trabalha  frequentemente. Eu estive nesse prédio há um mês, não muito depois de os  israelitas terem saído. Tinham defecado nos pisos, e untado fezes nas  fotocopiadoras, e mijado nos livros e nas paredes, e destruído sistematicamente  manuscritos de peças de teatro e romances e discos rígidos. Enquanto saíam,  atiraram tinta sobre uma parede com desenhos feitos por crianças. «Eles queriam  deixar­‑nos a mensagem de que ninguém está imune — inclusive na vida cultural»,  diz Darwish. «O povo palestino é apaixonado pela vida. Se lhe dermos esperança —  uma solução política — eles vão parar de se matar».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Talvez seja injusto comparar um Darwish com  um Amis. Um fala dos crimes contra o seu povo, afinal de contas. Mas Amis  representa um problema mais amplo: alguns dos escritores mais aclamados e  privilegiados da língua inglesa não se engajam nas questões mais prementes da  nossa era. Quem, entre os coleccionadores de prémios Booker e Whitbread, fala  contra os crimes descritos por Darwish — produto da mais longa ocupação militar  da era moderna? Quem, desde o 11 de Setembro, tem defendido a nossa língua,  iluminando o seu abuso ao serviço dos objetivos e da hipocrisia do grande poder?  Quem demonstrou que as nossas reacções humanas ao 11 de Setembro foram  apropriadas pelos próprios mestres do terror? — por Ariel Sharon e o seu “bom  amigo” George W. Bush, que bombardeou até à morte pelo menos 5.000 civis no  Afeganistão.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Consideremos a referência sem explicações de  Amis aos conflitos que agora devemos «enfrentar ou temer». Os palestinianos têm  enfrentado e temido uma ocupação por mais de 35 anos: um impasse atroz  patrocinado por cada governo americano desde o de Lyndon Johnson e reiterado  este mês pelo próprio Bush. Desde o 11 de Setembro, aqueles a quem foi permitido  moer o inglês em uma série de clichés propagando a sua “guerra contra o  terrorismo”, também têm suprido o regime israelita com 50 caças-bombardeiros  F-16, 102 espingardas Gatling, 228 munições de ataque directo conjunto (&lt;i&gt;joint  direct attack munitions&lt;/i&gt;, ou JDAMs) e 24 helicópteros Blackhawk. Uma remessa  de ultramodernos helicópteros Apache está a caminho.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;É provável que tenha visto o Apache nas  notícias, disparando mísseis em blocos de apartamentos civis da Palestina  ocupada. Noutro dia, falei com um grupo de crianças de Gaza. Elas sorriam, mas  era evidente que os seus sonhos, na verdade a sua infância, tinham sido  “despachados” pelos ataques de Israel a um povo que, na maior parte, se tem  defendido com fundas. Entre essas crianças, quase certamente, estão aqueles que  sacrificarão, como escreveu Darwish, «a última coisa que me pertencia». Quem é o  seu equivalente no ocidente, colocando aquela sabedoria contra a participação do  nosso governo na construção desse terror?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;Nos anos 1980, Martin Amis publicou uma  valiosa colecção de ensaios sobre a ameaça da guerra nuclear. Hoje, a Índia e o  Paquistão ameaçam com a guerra nuclear, o que não é surpreendente, num mundo  dominado por ameaças, desde o 11 de Setembro: um mundo onde  ou-você-está-connosco-ou-está-contra-nós, de bomba já e conversa depois. O que  tem Amis ou qualquer outro escritor de língua inglesa a dizer sobre o grande  guerreiro da Casa Branca contra o terrorismo, que diz que “primeiro atacar” é  agora a política da superpotência e que a América «deve estar pronta para atacar  num segundo, em qualquer canto obscuro do mundo»? Isso inclui a opção nuclear,  Martin Amis, se você ainda estiver interessado.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="font-family: verdana; font-weight: bold; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;«Após o 11 de Setembro», escreveu Amis no  &lt;i&gt;The Guardian&lt;/i&gt;, «os escritores enfrentaram uma mudança quantitativa, mas  não qualitativa… Ficaram em eterna oposição à voz da multidão solitária, a qual,  com a sua saudade simultaneamente de poder e apagamento, é o som mais desolado  que jamais será ouvido». Aqueles que publicam e promovem palavras tão vazias,  segurando as togas dos actuais imperadores da literatura inglesa, têm a  responsabilidade urgente de entregar o espaço a outros. A nossa língua deveria  ser reivindicada, o seu vocabulário orwelliano invertido, as suas nobres  palavras, tais como “democracia” e “liberdade” protegidas, e o seu poder  remobilizado contra todos os fundamentalismos, especialmente o nosso próprio.  Precisamos de encontrar e publicar o nosso próprio Mahmoud Darwish, a nossa  própria Arundhati Roy, o nosso próprio Ahdaf Soueif, o nosso próprio Eduardo  Galeano, e depressa.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18040584-112994243621904201?l=johnpilger.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://pilger.carlton.com/print/108105' title='O falhanço dos nossos escritores'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112994243621904201'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112994243621904201'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://johnpilger.blogspot.com/2002/06/o-falhano-dos-nossos-escritores.html' title='O falhanço dos nossos escritores'/><author><name>IA</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18040584.post-112976928439163235</id><published>2002-04-26T01:43:00.000+01:00</published><updated>2005-10-20T01:48:04.400+01:00</updated><title type='text'>A Venezuela e a censura</title><content type='html'>&lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style="font-size: 14pt;"&gt;A resposta dos meios  de comunicação britânicos à conspiração na Venezuela forneceu uma aula exemplar  de como a censura funciona nas sociedades livres. O episódio foi uma vergonha  jornalística.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style=""&gt;
No mês passado, escrevi sobre a Venezuela,  ressaltando que muito pouco tinha sido reportado neste país [Grã­‑Bretanha]  sobre as realizações de Hugo Chavez e a ameaça contra o seu governo reformista  da parte da habitual aliança entre uma elite local corrupta e os Estados Unidos.  Quando os conspiradores agiram no dia 12 de Abril, a resposta dos meios de  comunicação britânicos forneceu uma lição exemplar de como a censura funciona  nas sociedades livres.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style=""&gt;A BBC descreveu Chavez como «não tanto um  democrata, quanto um autocrata», ecoando as palavras do ministro dos negócios  estrangeiros Denis MacShane, que o insultou como «um demagogo vociferante». Alex  Bellos, o correspondente de &lt;i&gt;The Guardian&lt;/i&gt; para a América do Sul, reportou,  como facto, que «franco­‑atiradores pró-Chavez tinham matado pelos menos 13  pessoas» e que Chavez tinha pedido asilo a Cuba. «Milhares de pessoas celebraram  durante a noite, acenando bandeiras, tocando apitos…», escreveu, deixando o  leitor com a clara impressão de que quase toda a gente na Venezuela estava feliz  de ver pelas costas esse «valentão de circo», como o &lt;i&gt;The Independent&lt;/i&gt; o  chamou.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style=""&gt;Em 48 horas, Chavez estava de volta ao poder,  reempossado pelo povo, que saiu dos bairros de lata às dezenas de milhares.  Desafiando o exército, o heroísmo dessas pessoas foi o de apoiar um líder cujas  credenciais democráticas são extraordinárias nas Américas, norte e sul. Tendo  ganho duas eleições presidenciais, a última em 2000, pela mais larga maioria em  40 anos, assim como um referendo e eleições locais, Chavez foi renascido para o  poder pela maioria empobrecida cuja «sina», escreveu Bellos, ele tinha «falhado  em melhorar» e entre os quais «a sua popularidade tinha caído a  pique».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style=""&gt;O episódio foi uma vergonha jornalística.  Grande parte do que foi escrito por Bellos e outros, usando palavras e frases  similares, revelou-se errado. No caso de Bellos, isso não causou surpresa, já  que estava a fazer reportagem do país errado, o Brasil. Chavez disse que nunca  pediu exilo a Cuba; os franco-atiradores quase certamente incluíram agentes  provocadores; «quase todos os sectores da sociedade antagonizados [por Chavez]»  eram sobretudo membros de várias oligarquias a quem fez pagar impostos pela  primeira vez, incluindo os meios de comunicação e as companhias de petróleo,  cuja tributação ele dobrou com o objectivo de levantar para um nível de vida  decente 80 porcento da população. O seus opositores também incluíram oficiais do  exército treinados na notória Escola das Américas, nos Estados  Unidos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style=""&gt;Em poucos anos, Chavez iniciou importantes  reformas a favor dos pobres indígenas, as “não-pessoas” da Venezuela. Através  das 49 leis adoptadas pelo Congresso Venezuelano, ele iniciou uma verdadeira  reforma agrária, e garantiu os direitos das mulheres e saúde e educação  gratuitas até ao nível universitário.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style=""&gt;Opôs­‑se aos abusos contra os direitos  humanos do regime da vizinha Colômbia, encorajado e armado por Washington.  Estendeu uma mão à vítima de um bloqueio americano ilegal de 40 anos, Cuba, e  vendeu petróleo aos cubanos. Estes foram os seus crimes, assim como dizer que  bombardear crianças no Afeganistão era terrorismo. Como o Chile sob Allende e a  Nicarágua sob os sandinistas, muito pouco disso tudo foi explicado ao público  ocidental. Tal como o igualmente heróico levantamento na Argentina no ano  passado, os eventos foram distorcidos e apresentados como meramente mais caos  latino­‑americano.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style=""&gt;Na semana passada, o admirável Glasgow  University Media Group, sob direcção de Greg Philo, divulgou os resultados de um  estudo que concluiu que, apesar da saturação na cobertura do Oriente Médio, a  maioria dos telespectadores não estavam informados de que a questão fundamental  era a ocupação militar ilegal de Israel. «Quanto mais se assiste, menos se sabe»  — para citar a descrição de Danny Schechter sobre os telejornais americanos —  foi a conclusão do estudo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style=""&gt;Tomemos como exemplo a “missão de paz” do  secretário de estado dos EUA, Colin Powell. Independentemente do veto  persistente dos EUA às resoluções das Nações Unidas que pedem a retirada de  Israel dos territórios ocupados, e independentemente de Powell chamar a Ariel  Sharon «meu amigo pessoal», uma «missão de paz» americana foi a notícia absurda,  repetida incessantemente. Similarmente, quando na semana passada a Comissão de  Direitos Humanos das Nações Unidas votou 40 contra 5 condenando Israel pelo seu  «massacre», a notícia não foi esta expressão quase-unânime da opinião mundial,  mas a rejeição da resolução pelo governo britânico como  «desequilibrada».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style=""&gt;Os jornalistas ficam frequentemente na  defensiva quando alguém pergunta porque seguem fielmente os enganos do grande  poder. Não é suficiente que a ITN diga, demitindo­‑se da sua responsabilidade,  em resposta às conclusões do Glasgow Media Group, que «não estamos no negócio de  dar uma aula diária de história», ou que a BBC ostente a sua imparcialidade  quando algumas edições recentes de Newsnight poderiam ter sido produzidas pelo  ministério dos negócios estrangeiros. Nestes tempos perigosos, uma das armas  mais destrutivas de todas é a pseudo-informação.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18040584-112976928439163235?l=johnpilger.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://pilger.carlton.com/print/103710' title='A Venezuela e a censura'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112976928439163235'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18040584/posts/default/112976928439163235'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://johnpilger.blogspot.com/2002/04/venezuela-e-censura.html' title='A Venezuela e a censura'/><author><name>IA</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18040584.post-112976577557291056</id><published>2002-04-05T00:45:00.000+01:00</published><updated>2005-10-20T00:49:35.580+01:00</updated><title type='text'>Que tal se Hollywood fizesse um filme chamado Operação Ciclone, mostrando como a CIA treinou terroristas islâmicos, com Bruce Willis no papel de Bush?</title><content type='html'>&lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style=""&gt;Uma destas noites assisti ao filme  &lt;i&gt;Fronteiras de Sonhos e Medos&lt;/i&gt;, de Mai Masri. Era em videocassete; como a  maioria dos seus admiráveis trabalhos sobre os palestinianos, dez filmes ao  todo, não foi mostrado no cinema ou na televisão deste país. Do campo de  refugiados de Chatila, em Beirute, e do campo de Dheisha, em Belém, o filme  conta a história de duas raparigas refugiadas e da sua jornada em torno da  cerca/cadeia que divide a sua terra natal e as separa uma da outra. É um raro  vislumbre da verdade por trás das notícias implacáveis da  Palestina.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style=""&gt;Vi­‑o na noite da entrega dos Óscares e,  durante as pausas do vídeo, intervinham as imagens de Hollywood: actores  untuosos e jingoístas, e clipes de máquinas &lt;i&gt;blockbuster&lt;/i&gt; de fabricar  dinheiro que são o exacto oposto da verdade de Mai Masri. Talvez os Óscares  pareçam um circo inofensivo: até que paramos e pensamos no que eles representam.  David Puttnam, o produtor que já ganhou um Óscar, levantou recentemente esta  questão no &lt;i&gt;Guardian&lt;/i&gt;. Ele descreveu o fracasso do cinema popular em chegar  aos «milhões de jovens [que] estão a crescer nos campos de refugiados» e «o  potencial para uma explosão devastadora». Acrescentou: «Se nós [no ocidente] nos  tornamos simplesmente fabricantes de filmes que se baseiam na tecnologia, nos  efeitos especiais, na simplicidade emocional, etc. para representar o mundo,  então receio que o deslocamento entre o cinema de massas e qualquer realidade  perceptível tornar­‑se­‑á, simplesmente, grande demais — com consequências que  nos afectarão a todos».&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style=""&gt;Esse deslocamento é agora tão grande que a  propaganda cultural que Hollywood sempre foi, representa agora mais de 80  porcento dos filmes vistos na Grã-Bretanha e em muitos outros países. O poder da  sua mensagem sobre “o modo de vida americano” é tal que parece estarmos de volta  à era do pós Segunda Guerra Mundial, quando o establishment empresarial dos  Estados Unidos promovia a paranóia em relação a inimigos internos e  externos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style=""&gt;Os estrangeiros caiam caprichosamente nas  categorias de dignos ou indignos: pela América ou contra a América. Em  Hollywood, a história foi reduzida a “épicos” tais como Exodus, no qual  refugiados dignos (judeus) se instalavam na Terra Santa e palestinianos  indignos, tornados refugiados na sua própria terra, eram invisíveis. Essas  pessoas destituídas são agora retratadas nos filmes de acção americanos,  juntamente com outros muçulmanos, como terroristas. No seguimento da Guerra do  Vietname, na qual cerca de cinco milhões de vietnamitas foram mortos durante a  invasão americana, e a sua terra destruída e envenenada por armas americanas de  destruição em massa, Hollywood veio salvar a pátria com uma série de filmes  Rambo­‑e­‑angústia que convidavam a audiência a solidarizar­‑se com os  invasores. Esses filmes providenciaram um purgativo cultural que ajudou a abrir  caminho para que a América montasse outros Vietnames — em El Salvador,  Guatemala, Nicarágua, Panamá, Somália e em outros lugares. A actual “guerra  contra o terrorismo” alicerça­‑se nas mesmas caricaturas de Hollywood. Filmes  como &lt;i&gt;Black Hawk Down&lt;/i&gt;, que promove uma versão mentirosa da mortífera farra  americana na Somália, funcionam como “suavizantes” culturais antes de as bombas  recomeçarem a sério.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify; font-family: verdana; font-weight: bold;"&gt;&lt;span style=""&gt;Mesmo em filmes de fino acabamento, como &lt;i&gt;O  Caçador&lt;/i&gt; e &lt;i&gt;Platoon – Os Bravos do Pelotão&lt;/i&gt;, que parecem num primeiro  momento quebrar a tradiç
